A prioridade não é a economia, mas a pessoa!

Entrevista com o Secretário do Estado do Vaticano: Cardeal Pietro Perolin


Há uma grande corrida dos governos, entre incertezas e disputas políticas, para relançar a economia gravemente comprometida pela pandemia. Que ensinamento social da Igreja poderia ser particularmente útil para decisões políticas justas para uma retomada da economia?

A prioridade não é a economia como tal, mas o ser humano. O Covid-19 não só causou uma crise sanitária, mas também afetou muitos aspectos da vida humana: família, política, trabalho, negócios, comércio, turismo etc. A natureza expansiva e interconectada da pandemia nos lembra constantemente a observação do Papa Francisco de que “tudo está conectado”.

Se todos os governos foram obrigados a tomar medidas drásticas, a ponto de interromper muitas atividades econômicas para combater a pandemia, isso significa que a prioridade não é a economia, mas a pessoa. Isso implica antes de tudo cuidar da saúde. Porém, a Doutrina Social da Igreja, enraizada na antropologia cristã, lembra-nos que não podemos limitar-nos apenas a cuidar da saúde do corpo. A atenção deve ser dada à integridade da pessoa humana, que deve ser, portanto, o objetivo primordial do empenho político e econômico, em uma ética de responsabilidade compartilhada na casa comum.

Consequentemente, a Igreja convida-nos a redescobrir a vocação da economia ao serviço do homem, para garantir a cada pessoa as condições necessárias para um desenvolvimento humano integral e uma vida digna. “Agora, mais do que nunca – escreveu o Papa Francisco na Páscoa de 11 de abril passado – são as pessoas, as comunidades e os povos que devem estar no centro, unidos para curar, cuidar e compartilhar”.

Portanto, alguns perigos que surgiram no combate à pandemia devem ser destacados, como a prevalência de abordagens antropológicas redutivas que, ao se concentrarem na saúde corporal, correm o risco de se considerar pouco importantes as dimensões espirituais. Na situação de dramática emergência que vivemos, emergiu o limite de uma interpretação das questões sanitárias segundo paradigmas exclusivamente técnicos, que praticamente negou algumas necessidades fundamentais, por exemplo, dificultando a proximidade dos familiares e o acompanhamento espiritual dos enfermos e moribundos. Isso requer que uma reflexão mais profunda seja desenvolvida sobre as muitas questões que a pandemia colocou diante de nós.

Nos anos 60 do século XX, João XXIII lançou o princípio da interdependência entre os países do mundo para superar a noção de inimigo. Um princípio que voltou à moda com a perestroika de Gorbachev, que, no entanto, culminou na desintegração da União Soviética, acelerando os impulsos desagregadores e o desejo de prevalecer uns sobre os outros. Por que mais uma vez parece ter voltado com toda a força o desejo de agir cada um por si e isolado em vez de para todos?

pandemia revelou tanto a nossa interdependência como a nossa fraqueza comum, a fragilidade compartilhada. Quando a lógica da dissuasão nuclear dominava, São João XXIII, na Pacem in terris, ressaltou a interdependência entre as comunidades políticas: “Nenhuma comunidade política hoje pode perseguir os seus interesses e desenvolver-se fechando-se sobre si mesma”. E o Papa Francisco na encíclica Laudato Si’ enfatiza: “A interdependência nos obriga a pensar um único mundo, em um projeto comum”. Por outro lado – recordava João Paulo I na Sollicitudo Rei Socialis – hoje nos deparamos com uma interdependência tecnológica, social e política, que requer urgentemente uma ética da solidariedade.

Porém, ao invés de fomentar a cooperação para o bem comum universal, vemos cada vez mais muros se erguendo ao nosso redor, exaltando as fronteiras como garantia de segurança e praticando violações sistemáticas do direito, mantendo uma situação de conflito global permanente. Como recordou o Papa Francisco em Nagasaki, o gasto com armamentos atingiu seu pico em 2019, e agora existe o sério risco de que, após um período de diminuição, também devido às restrições relacionadas à pandemia, continue a aumentar.

É justamente nesse período, porém, que é necessário semear amizade e benevolência, em vez de ódio e medo. “A interdependência planetária requer respostas globais aos problemas locais – insistiu o Papa Francisco no seu encontro com os Movimentos Populares de 2015 –, porque a globalização da esperança […] deve substituir esta globalização da exclusão e da indiferença!”

pandemia está ensinando dramaticamente que ninguém pode superar a situação sozinho: para combater o vírus, é necessária uma resposta compartilhada e coordenada. Isso vale para a cura dos males da indiferença, da solidão e da inimizade.

Em novembro deveria acontecer em Assis o encontro internacional sobre a economia de Francisco, aberto especialmente aos jovens economistas. Estamos diante de uma sacudida importante e inovadora da Igreja sobre a economia?

O quadro de referência traçado pelo Papa Francisco para a economia encontra-se sobretudo em Laudato si’, que por sua vez desenvolve a Caritas in veritate de Bento XVI. São as duas grandes encíclicas sociais mais recentes. Bento XVI falava de uma economia na qual deve encontrar espaço a lógica da doação, o princípio da gratuidade, que expressa não só a solidariedade, mas ainda mais a fraternidade humanaFrancisco relançou o tema do desenvolvimento humano integral no contexto de uma “ecologia integral”, ambiental, econômica, social, cultural e espiritual. A doutrina social da Igreja, à qual muitos reconhecem solidez de fundamento e orientação, mostra que ela sabe atualizar-se continuamente para responder às questões da humanidade com coerência e visão global.

Hoje a pandemia traz uma sacudida formidável para todo o sistema econômico e social e suas alegadas certezas, em todos os níveis. Os problemas de desemprego são e serão dramáticos, os problemas de saúde pública exigem a revolução de inteiros sistemas sanitários e educativos e o papel dos Estados e das relações entre as nações muda. A Igreja sente-se chamada a acompanhar o complicado caminho que se apresenta diante de nós como família humana. Deve fazer isso com humildade e sabedoria, mas também com criatividade. O Papa Francisco deu-nos uma amostra disso com a sua última Carta aos movimentos populares do Dia da Páscoa, recordando a importância de que “os governos compreendam que os paradigmas tecnocráticos não são suficientes para enfrentar esta crise ou outros grandes problemas da humanidade”.

Em suma, existem princípios de referência sólidos, mas hoje é urgente a criatividade corajosa, para que a crise dramática da pandemia não termine em uma terrível tragédia, mas abra espaços para a conversão humana e ecológica de que a humanidade necessita. Na Mensagem da Economia de Francisco para o encontro de Assis, o Papa convoca jovens economistas e empresários, a “fazer um ‘pacto’ para mudar a economia atual e dar alma à economia do amanhã”. Dirige-se aos jovens porque os vê como “já profecia de uma economia atenta à pessoa e ao meio ambiente”. Apela ao seu sentido de responsabilidade e à sua criatividade e convida-os a elaborar propostas concretas e corajosas.

A Igreja Católica vai saindo lentamente e com dificuldade da desorientação produzida pelo Covid-19 que implodiu a celebração eucarística, ponto culminante e fonte da vida cristã. Que consequências estes tempos tiveram para os fiéis e para a vida eclesial e que capacidade de adaptação e renovação as comunidades cristãs conseguiram implementar?

Nos meses em que a emergência da pandemia foi mais forte (e ainda é em algumas nações), as comunidades cristãs experimentaram uma espécie de desorientação, porque foram impedidas de participar da Eucaristia. Foi uma escolha dolorosa, assumida para limitar a propagação do vírus que já fazia numerosas vítimas e que certamente marcou o nosso sentimento de ser “Igreja”, Povo de Deus reunido concretamente em torno do altar do Senhor para celebrar a sua Páscoa.

Porém, nós somos o Povo de Deus mesmo e apesar da pandemia! Por isso, creio que nem mesmo o Covid-19, apesar do seu poder devastador, tenha conseguido “implodir a celebração eucarística”, instituída por Cristo e entregue à Igreja como sacramento de salvação. Mesmo durante os dias em que os fiéis não puderam participar da mesa do Senhor, reunindo-se em torno do altar como “principal manifestação da Igreja”, a presença da Igreja nunca falhou: através da própria liturgia, embora celebrada “a portas fechadas”; através da catequese, valendo-se das novas tecnologias; e particularmente na caridade, que é de alguma forma a concretude na vida daquilo que é celebrado na Eucaristia.

A favorecer esse sentimento de se “sentir Igreja”, reunida em torno do altar de Cristo vieram em socorro as mídias de comunicação, dando espaço à transmissão das celebrações. Também o Papa Francisco, percebendo a sede de Deus presente no coração dos fiéis, aceitou que a celebração eucarística que presidia fosse transmitida todas as manhãs de Santa Marta, confiando à misericórdia de Deus o mundo inteiro e todos os envolvidos na emergência da pandemia.

Porém, o próprio Papa, na homilia do passado dia 17 de abril, recordou-nos: “Esta familiaridade com o Senhor, dos cristãos, é sempre comunitária. Sim, é íntimo, é pessoal, mas em comunidade. Uma familiaridade sem comunidade, uma familiaridade sem o Pão, uma familiaridade sem a Igreja, sem o povo, sem os sacramentos é perigosa. Pode tornar-se uma familiaridade – digamos – gnóstica, uma familiaridade só para mim, desligada do povo de Deus. A familiaridade dos apóstolos com o Senhor sempre foi comunitária”.

Tratou-se, portanto, de uma situação extraordinária e todos desejávamos um rápido retorno à celebração eucarística ordinária, com a comunidade que ora reunida como família de Deus. Os sacerdotes assim o desejavam – muitos dos quais louvavelmente também celebraram a Eucaristia “a portas fechadas” – que sentiam a “falta do Povo de Deus”. Os fiéis o desejavam com igual fervor, desprovidos do conforto concreto dos sacramentos.

Essa falta dos sacramentos e da comunidade fez crescer a sede de Deus nos fiéis, valorizando nas famílias, verdadeiras igrejas domésticas, outras formas de celebração, como a oração da Liturgia das Horas in primis, a escuta da Palavra ou as várias formas de religiosidade popular; mas, sobretudo, permitiu redescobrir um dos legados da reforma litúrgica do Vaticano II: ser e sentir-nos verdadeiramente “populus congregatus”, chamados a reunir-se para celebrar ativamente a Páscoa de Cristo. Espero que o que vivemos nos primeiros meses da pandemia tenha alimentado em muitos fiéis uma maior consciência da vida sacramental, juntamente com o desejo e a expectativa de uma participação mais viva na liturgia, cume e fonte – como nos lembra o Concílio Vaticano II – de toda a vida da Igreja.

Por Carlo Di Cicco

(Texto adaptado por Alecsandro Araujo de Souza)

Fonte: Entrevista concedida ao jornalista Carlo Di Cicco, Riparte L’Itália, 27 de agosto de 2020. Tradução de Luisa Rabolini publicada em IHU online.

Para acesso a entrevista na íntegra: https://www.ripartelitalia.it/intervista-esclusiva-il-segretario-di-stato-vaticano-pietro-parolin-la-modernita-e-fragile-serve-un-nuovo-modello-di-economia-ecco-il-progetto-di-papa-francesco/

 


 

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