Embora todo santo canonizado possa ser considerado um modelo universal aos cristãos – na medida em que soube colocar Cristo no primeiro lugar de sua vida –, nós, católicos, temos também o salutar costume de nutrir um carinho especial pelos homens e mulheres que souberam amar Jesus em nosso estado de vida: compreende-se, assim, que um padre seja devoto do Cura d’Ars ou que um advogado tenha S. Tomás More ou Santo Ivo como santo de devoção.

Martinho de Tours, no entanto, é um daqueles poucos santos que viveram ativamente os mais diversos estados de vida: ele foi sucessivamente leigo, monge e sacerdote.

Martinho nasceu em 316 na província romana da Panônia, atual Hungria, de pais pagãos. Seu pai fizera carreira no exército, aposentando-se como tribuno, um cargo de oficial que lhes dava certo conforto financeiro.

Desde os 10 anos Martinho manifestou um vivo desejo de tornar-se cristão, contra a vontade dos pais. Para impedir a conversão do menino, seu pai alistou-o no exército aos 15 anos, para lutar na Gália.

Como jovem oficial, Martinho preservou-se dos vícios dos soldados: levava uma vida de caridade, pureza e abnegação. Aceitou o auxílio de um único escudeiro (apesar de ter direito a vários mais), a quem tratava como seu igual ou mesmo superior, limpando-lhe as botas, e tomando junto as refeições.

Nesta época se deu mais famoso episódio de sua biografia: numa nivosa noite de inverno, Martinho deparou-se com um pobre desagasalhado, tremendo de frio. Tomando sua espada, Martinho cortou metade da própria capa (pois as capas pertenciam parcialmente ao exército romano, de modo que Martinho não podia fazer caridade com a parte que não lhe pertencia), e com ela cobriu o indigente. Voltou para casa e, em seu leito, teve uma visão de Cristo que dizia: “Martinho, ainda só um catecúmeno, vestiu-me com sua capa” (cf. Mt25,40). Depois desta visão, já com 20 anos, Martinho foi batizado, aguardando ainda a ocasião para sair do serviço militar.

Cerca de dois anos depois, na véspera de uma grande batalha com os bárbaros na cidade de Borbetomagus (atual Worms, na Alemanha), o imperador Juliano o Apóstata juntou os oficiais para distribuir-lhes recompensas em dinheiro, convocando-os um a um pelo nome. Quando chamado, Martinho adiantou-se até César e disse-lhe: “Até agora vos servi como soldado: permiti-me agora tornar-se soldado de Deus. Dai vossa recompensa ao homem que vai servir-vos. Eu sou um soldado de Cristo: não me é lícito lutar esta batalha.” O imperador, irado pelo constrangimento público, acusou-o de covardia, ao que Martinho exclamou: “Se esta minha conduta é atribuída à covardia, e não à fé, tomarei meu posto na batalha sem armas nem armadura, e em nome do Senhor Jesus, protegido pelo sinal da cruz, e não por escudo ou capacete, eu avançarei ileso pelas linhas do inimigo”. Assim ficou combinado, e Martinho foi lançado na prisão para aguardar a batalha, até que, na manhã seguinte, chegaram embaixadores dos bárbaros, para negociar sua rendição, bem como de todos seus pertences. Enxergando nisto um sinal divino, o imperador dispensou Martinho do exército, e este pôde enfim abraçar a vida monástica.

Martinho tornou-se então discípulo do bispo Santo Hilário de Poitiers, adotando o estilo de vida monástico, então em suas origens. Em visita à sua terra natal, conseguiu converter vários de seus conterrâneos, inclusive sua mãe. Após algumas perseguições e exílios de parte dos arianos, Martinho conseguiu novamente estabelecer-se próximo de Santo Hilário, onde fundou o primeiro mosteiro da Europa, em 361.

Em 371, Martinho viaja para atender um doente em Tours, cuja sede episcopal estava então vacante, e sua santidade causa tamanha impressão na população local que ele é aclamado como bispo. Martinho recusou veementemente o cargo, tendo inclusive tentado fugir, mas foi quase que coagido a aceitá-lo pela multidão, e relutantemente aceitou a sagração. Como bispo, destacou-se por sua vida de oração e caridade, e pelo ardor com que defendia a integridade da fé.

Aos 81 anos, já alquebrado pelos incessantes labores, anuncia que em breve falecerá. Seus filhos espirituais, desconsolados, o interpelam: “Pai, por que nos deixas? Como faremos sem ti?” Apesar de esgotado em suas forças físicas, o ancião continuava disposto a entregar-se por amor, e responde prontamente: “Eu não recuso trabalho!” Deus, no entanto, decidira chamar a Si seu servo, e Martinho efetivamente faleceu logo depois.

A vida de S. Martinho – um dos primeiros santos não-mártires venerados pelos cristãos – nos recorda o núcleo de uma vida santa: conformar-se à vontade de Deus, estar disposto a fazer tudo aquilo que Ele nos pedir. Roguemos a S. Martinho a graça de dizermos, com Jesus: “Pai, não se faça a minha vontade, mas sim a tua”(cf. Lc22,42).

Por Gil Pierre de Toledo Herck

 


 

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