O Céu desceu à terra: a devoção a Nossa Senhora das Graças e à Medalha Milagrosa

Em 1789 a maioria dos franceses eram católicos praticantes de sua religião. Porém, quinze anos mais tarde, sob o reinado de Napoleão Bonaparte, entre um terço e um quarto da população católica não comungavam na Páscoa nem mesmo assistiam mais à Santa Missa dos domingos. Tais dados foram coletados por Jean de Viguerie, historiador francês especializado na história da Igreja Católica durante o período do “Iluminismo”. O historiador afirma com segurança que a diferença constatada em um pequeno intervalo de tempo se deve à massiva descristianização da França, que se inicia com a Revolução Francesa.

Neste contexto histórico de combate aos valores cristãos, a França, epicentro das ideais revolucionárias, é o local onde Nossa Senhora derrama suas graças para preparar o homem aos males do mundo moderno. Nos referimos a uma série de aparições a uma jovem religiosa vicentina de nome Catarina de Labouré, em uma capela situada na Rue du Bac, 140, Paris, o que deu origem à devoção a Nossa Senhora das Graças e à “medalha milagrosa” que mandou cunhar, cuja festa litúrgica é celebrada em 27 de novembro pela Igreja. A jovem noviça foi canonizada pelo papa Pio XII em 1947.

Catarina foi batizada como Zoé de Labouré, filha de fazendeiros cristãos, e nasceu em 2 de maio de 1806, no norte da França, na região da Borgonha. Logo muito cedo perdeu sua mãe, a partir de quando passou a nutrir uma especial devoção a Nossa Senhora, a quem “adotou como Mãe”. Desde jovem passou a sentir um chamado à consagração para a vida religiosa e iniciou a preparação da vida religiosa no noviciado do Convento das Filhas da Caridade de São Vicente de Paula, em Paris.

Antes de discernir sua vocação, a jovem humilde teve um sonho com um sacerdote idoso até então desconhecido que lhe disse sobre uma importante missão a ser desempenhada. A irmã de Catarina se tornou religiosa vicentina e, ao visitar sua irmã em Paris, identificou que o sacerdote idoso que havia aparecido em sonho era São Vicente de Paula. A jovem tinha visto um quadro que se encontrava no Convento e pôde identificar que o sacerdote que vira era o Santo fundador da Congregação. Este foi um fator decisivo para a consagração de Catarina.

A irmã Catarina apresentava sinais de uma profunda vida interior. A jovem noviça relatou algumas visões que tinha durante as suas orações ao seu confessor, Padre Jean Aladel, dentre elas as visões do fundador das vicentinas diante do seu relicário, bem como as visões de Jesus eucarístico e de Jesus destronado, ou seja, Cristo Rei que deixa de reinar nos corações. 

Durante o ano de 1830, as religiosas se preparavam para celebrar a festa do fundador da Congregação, muito devoto a Nossa Senhora. A Madre superiora distribuiu às religiosas pedaços do roquete do santo fundador como forma de aprofundar e preparar a vida interior das religiosas para a celebração da festa. Então, a jovem noviça Labouré, que já tinha visto em sonho São Vicente de Paula, teve a ideia de cortar um pedaço do tecido e engoli-lo para que o santo a ajudasse a ver Nossa Senhora.

Assim, no ano de 1830, a irmã Catarina passou a ter visões de Nossa Senhora. A primeira delas ocorreu no dia 18 de junho. Por volta das 23h30, a jovem noviça foi acordada por uma voz feminina dizendo que a virgem a esperava na capela, ao que a noviça pensou que não poderia se dirigir à capela pelo adiantado da hora.

Diante desta preocupação, um menino de cinco anos de idade, que depois se descobriu ser o anjo da guarda da irmã Labouré, retorquiu ao pensamento dela no sentido de não haver preocupação. Catarina, então, se levantou e partiu em direção à capela, ladeada pelo seu anjo da guarda que andava à sua esquerda. O menino abriu a porta da capela, que deveria estar trancada nesta hora, e a noviça viu a capela iluminada com velas e círios, colocando-se de joelhos. 

Todavia, Catarina temia ser descoberta, pois era apenas uma noviça que deveria estar dormindo em sua cela, e não poderia permanecer no interior da capela naquelas circunstâncias. Então o menino disse a Catarina: eis aí a Virgem. Mas a religiosa relutava em acreditar. O anjo, então, mais uma vez, anunciou a presença da Virgem Maria com um tom de voz forte. Nossa Senhora estava sentada em uma cadeira ao lado do evangelho do altar. A jovem noviça pulou e ficou ajoelhada com as mãos apoiadas nos joelhos de Nossa Senhora.

Segundo as próprias palavras de Catarina, “fui apenas um instrumento. Não foi para mim que apareceu. Se me escolheu, era para que ninguém duvidasse dela”. As virtudes da humildade e da obediência, tão marcantes na vida da noviça, merecem destaque, pois, já nesta primeira aparição, Nossa Senhora alerta a jovem que ninguém acreditaria nela, orientando-a sobre como proceder com o Padre Jean Aladel, que se mostraria muito cético, e fez a profecia de que o Rei de França, Carlos X, seria destronado.

Seguem as palavras que Nossa Senhora comunicou à irmã Catarina: “O mundo inteiro será virado pelo avesso pelos males de todo o tipo. Mas venha ao pé deste altar. Lá as graças serão derramadas para todas as pessoas que pedirem com confiança e fervor, grandes e pequenos.”. Nossa Senhora ressalta as dificuldades que surgirão das revoluções, mas não deixa de pontuar a esperança que todos devem nutrir por sua intercessão: “Chegarão grandes males. As pessoas acharão que tudo estará perdido. Lá estarei convosco.”.

A primeira aparição ocorreu até às 02h30 do dia 19 de junho. Tudo se apagou e a Catarina retornou à sua cela, tendo os fatos sido compartilhados com seu confessor. Mas ele se manteve cético e orientava que a religiosa não desse atenção ao ocorrido. 

O que foi capaz de demover o ceticismo do Padre Jean Aladel foi a concretização de uma profecia que Nossa Senhora havia relatado à jovem noviça: a queda do Rei Carlos X. Nos dias 27, 28 e 29 de julho de 1830, pouco mais de um mês após a aparição, uma parte do povo de Paris, liderado pela burguesia liberal, realiza uma série de levantes contra o Rei, o qual foi obrigado a abdicar do trono e partir para o exílio em agosto. Este momento histórico marca a chamada revolução de julho de 1830, também conhecida como as três gloriosas. O contexto político aponta para a radicalidade do movimento popular e insurrecionista que realizou uma série de levantes contra a monarquia. O famoso quadro de Delacroix, “A liberdade guiando o povo”, ilustra a revolta popular de caráter violento que se espraiou pela cidade de Paris. 

O temor instaurado pelo movimento popular parece confirmar os males anunciados por Nossa Senhora. Em 27 de novembro de 1830, ocorre uma importante aparição à jovem Catarina, que assim descreve a presença de Nossa Senhora no interior da capela, por volta das 17h30, quando as irmãs estavam orando:

“Ela estava de pé vestida de branco aurora, com véu branco que lhe descia até a orla do vestido. Por baixo do véu percebi cabelos separados ao meio. Tinha o rosto bastante descoberto. Pés apoiados sob o globo ou antes metade dele. Além disso, ela segurava nas mãos um globo que representa o mundo. Este globo que vedes representa o mundo inteiro, especialmente a França e cada pessoa em particular.” 

Ao segurar o globo em suas mãos, elas estavam ornamentadas com anéis e joias engastadas com pedras preciosas, das quais saiam raios mais ou menos luminosos, conforme a ‘nobreza’ do metal precioso, assim como havia anéis dos quais não saia nenhuma luz ou ‘graça’, pois esta não é pedida.

A irmã Catarina ainda descreve o momento desta forma: “A Santa Virgem me fez compreender como lhe são agradáveis as orações dos que invocam, quanto é generosa para com os que lhe pedem favores e quanta alegria sente em conceder-lhes o que lhe suplicam. Nesse momento, não sei onde estava ou não estava. Formou-se um quadro oval onde estava escrito com letras de ouro estas palavras: Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós. Fazei cunhar uma medalha com tal modelo. Todas as pessoas que trouxerem ao pescoço receberão grandes graças que serão abundantes para os que a trouxerem com confiança.”

Interessante notar que a expressão não era conhecida na época, pois o dogma da Imaculada Conceição de Maria só seria proclamado em 8 de dezembro de 1854 pelo Bem-aventurado Papa Pio IX. 

O padre Jean Aladel relatou o fato ao arcebispo de Paris que mandou cunhar, incialmente, 1500 medalhas que foram distribuídas ao povo. A cidade passava por uma grave epidemia de cólera. Muitos fiéis devotos começaram a usar a medalha e receberam inúmeras graças de cura, daí porque a devoção passou a se referir à medalha milagrosa.

A imagem da medalha milagrosa contém Nossa Senhora com os braços abertos, de cujas mãos espargem os raios luminosos das graças que distribui. No reverso da medalha, no alto, uma cruz, com a inicial do nome de Maria superposta, e, em baixo, dois corações, um coroado de espinhos, e outro, transpassado por uma lança. 

Mas a pergunta principal é a seguinte: o que Nossa Senhora quer nos ensinar com a medalha? Ela quer difundir a oração e a confiança no seu imaculado coração e no coração de Jesus, isto é, na confiança do caráter corredentor de Nossa Senhora e medianeira de todas as graças. A medalha exerce o papel ínsito de recordar a confiança na Virgem Maria nos tempos maus. Quando tudo parece perdido, Nossa Senhora atende as graças temporais e espirituais pedidas. 

Jesus Cristo é o único mediador e representa a única escada entre Deus e o mundo. Todavia, a escada entra no mundo por uma porta. O pecado entrou pelo mundo, mas a redenção é operada por Jesus Cristo. Da mesma forma que o pecado entrou no mundo, Deus quis que a salvação também entrasse no mundo. A mulher, virgem, imaculada, prometida em casamento e visitada por anjo era Eva. Porque ela desobedeceu, a perdição entrou no mundo. Milhares de anos depois, Deus repete a história ao reverso. Maria obedeceu e a Salvação entrou no mundo pelo sim de Maria.

Joseph Tissot sintetiza o papel de Maria no plano da salvação: “Comuniquemos a todos os pecadores esta coragem, esta feliz confiança que os deve levar a recorrer a Maria…O nosso Salvador quis que fosse assim… Sem deixar de ser nosso advogado e intermediário perante seu Pai, dignou-se colocar entre Ele e nós uma intermediária, uma Advogada, de quem nós pudéssemos aproximar sem medo por ser nossa Mãe. Ela defende a nossa causa junto do seu Filho, mostrando-lhe o regaço em que o acolheu…”. 

Neste sentido, Tissot pontua que “Convinha que, tendo homem e mulher concorrido para a nossa perdição, também ambos concorressem para a nossa reabilitação. O Redentor depositou, pois, em Maria a missão corredentora do gênero humano, e quis que por Ela nos viessem todas as graças. Ela é o aqueduto por onde a graça corre ao nosso encontro, a escada que nos conduz a Deus, a porta que nos dá acesso à bondade divina, o canal por onde descem sobre todo o corpo de Igreja os méritos da sua Cabeça. Ninguém se salva, ninguém obtém o perdão a não ser por Maria.”

Tendo em vista que a irmã Catarina descreve Nossa Senhora brilhando como o sol, a confiança na corredentora deve ser inabalável, pois o coração da Virgem Maria é triunfante, pois nele não há mácula do pecado, devendo recorrer ao seu auxílio para superar as dificuldades, nutrir a esperança e buscar a salvação, de cujas mão espargem os raios luminosos das graças de que tanto necessitamos.

Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós.

Por Fernando Augusto Frank de Almeida Alves

Referências bibliográficas:

A Medalha Milagrosa – Vídeo consultado no canal do Youtube do Padre Paulo Ricardo https://www.youtube.com/watch?v=TD-1PRL2pL0

http://arquisp.org.br/liturgia/santo-do-dia/santa-catarina-laboure-0

https://www.chapellenotredamedelamedaillemiraculeuse.com/langues/portugues/capela-nossa-senhora-da-medalha-milagrosa/

Tissot, Joseph. A arte de aproveitar as próprias faltas. São Paulo: Cultor de Livros, 2015. Viguerie, Jean de. Cristianismo y Revolucion.


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