“Então Jesus lhes disse: ‘Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia”.
Evangelho Segundo São João 6, 53-54
Há um interessante episódio relativo ao célebre quadro de Leonardo da Vinci, “A Última Ceia”. Conta-se que já estavam terminados os rostos dos doze Apóstolos e faltava ainda o Senhor. O artista começou o trabalho, mas logo depois largou o pincel dizendo estas palavras: “Não consigo! A empresa é demasiado difícil! O homem mesquinho e pecador não pode reproduzir dignamente o Filho de Deus no auge do Seu poder e do Seu amor”.
Segundo a tradição, foi assim que falou o artista quando pintava a “Última Ceia”. E, como nos diz o Bispo Tihamer Tóth (1889-1939), ao comentar essas palavras: “sente o mesmo todo aquele que vai tratar do dom incomparável da “Última Ceia”, a Sagrada Eucaristia. E, não é diferente comigo, ao escrever esse texto para a Revista da Paróquia Nossa Senhora do Brasil. De fato, a empresa é demasiado difícil!
Na Eucaristia, em primeiro lugar, destaca-se: Cristo sacrifica-se de novo por nosso amor. Na “Última Ceia”, ao dar o Seu santíssimo Corpo e o Seu preciosíssimo Sangue aos Apóstolos, Jesus disse-lhes: “Isto é o meu corpo”, “Isto é o meu sangue”, e depois acrescentou: “Fazei isto em minha memória”. Então ofereceu ao Pai, e colocou no centro da Sua religião um sacrifício que tirou o valor a todos os sacrifícios anteriores e posteriores. Desde então, só há na terra um sacrifício digno de Deus: o Santo Sacrífico da Missa, isto é, a renovação constante do sacrifício da Cruz.
Desde os registros mais antigos sobre a história humana, o homem tem sempre oferecido sacrifícios com os quais reconhece a soberania de Deus e o próprio estado de pecado.
Na Sagrada Escritura, logo vemos um duplo altar: o de Caim e o de Abel, onde ofereceram sacrifícios ao Senhor. Depois, vem a devastação causada pelo dilúvio. Noé sai da arca, e que faz? Qual sua primeira ocupação? Ergue um altar para oferecer o seu sacrifício ao Senhor. “E Noé saiu com seus filhos, sua mulher e as mulheres de seus filhos […]. E, Noé, levantou um altar ao Senhor: tomou de todos os animais puros e de todas as aves puras, e ofereceu em holocausto ao Senhor sobre o altar.” (Gênesis 8, 19 -20). Estudemos a história dos povos antigos: quando eles tinham que dar um passo decisivo ou de tomar uma resolução importante, a primeira coisa que fazem é oferecer um sacrifício, em reconhecimento a soberania de Deus. Há milênios que o altar é a construção mais importante e digna da Humanidade.
Com o sacrifício, o homem não só reconhecia a soberania de Deus, mas também o próprio estado de pecado. O homem sente na sua alma o peso da consciência dos seus pecados e, sempre teve a intuição da necessidade de oferecer algum sacrífico em reparação dos próprios pecados. No sacrifício aniquilava-se o dom oferecido. As matérias oferecidas em sacrifício eram consumidas muitas vezes em grandes fogueiras. Eram produtos da terra, animais, e algumas vezes – causa horror dizê-lo – os próprios filhos! Assim, o homem julgava que Deus aceitava o sacrifício oferecido. Pobre homem pecador!
Contudo, sabemos, que essa não era a forma definitiva do sacrifício e, também, não era o tipo de sacrifício que o Antigo Testamento nos ensina como agradável a Deus. São conhecidas, também, as palavras que o Senhor disse por meio do Profeta Malaquias, no último livro do Antigo Testamento, segundo a tradição Católica: “ Porque, do nascente ao poente, meu nome é grande entre as nações e em todo lugar se oferecem ao meu nome o incenso, sacrifícios e oblações puras”. (Malaquias 1, 11).
Oferecer incenso, sacrifícios e oblações puras! Quem teria condições de oferecer este sacrífico puro, perfeito, agradável e aceito por Deus?
Nosso Senhor Jesus Cristo apresentou na Última Ceia esta oferenda perfeita! E, no mesmo momento que instituiu este sacrifício, ficaram abolidos e perderam seu valor todos os outros sacrifícios. Portanto, desde então, só há um sacrifício agradável a Deus: a Missa. Desta maneira, o santo Sacrifício da Missa constitui-se no coração do Cristianismo, e consequentemente, o centro e raiz de nossa vida cristã.
Passados já cerca de 2 mil anos, não podemos esquecer que o Sacrifício da Cruz e o Sacrifício da Santa Missa são substancialmente a mesma coisa. A nossa religião tem altar! Está no altar o sacerdote que sacrifica e a vítima: o próprio Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo! Na Igreja Católica, tudo, absolutamente tudo, converge para o Sacrifício do Altar. Por isso, há sacerdotes por causa do altar. Há cerimônias, paramentos e vasos sagrados para o altar. Tudo por causa d’Aquele que no altar se sacrifica ao Pai Celeste. É o momento onde nós nos prostramos na Sua presença e, para adorá-Lo como lemos no Apocalipse: “Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro o louvor, a honra, a glória, e o poder pelos séculos dos séculos”. (Apocalipse 5,13).
São Josemaria Escrivá ensinava que todas as atividades humanas – a vida familiar, a vida social, a vida política, o trabalho e o lazer – deveriam ser restauradas em Cristo, oferecidas a Deus como sacrifício agradável, unido ao sacrifício da Cruz, unido ao Sacrifício da Missa. “Todo sacrifício visível”, nos ensina também Santo Tomás, “significa um sacrifício invisível que consiste naquilo que o homem oferece a Deus, seu espírito, sua vida. O sacrifício exterior que se oferece, significa o sacrifício interior pelo qual se oferece a própria pessoa a Deus”. (S. Theol III ae.22, a-2). No Novo Testamento, apenas a natureza do sacrifício exterior (do símbolo) mudou, este não é mais um animal ou um objeto: é o próprio Cristo.
Ora, podemos fazer esse oferecimento porque somos um “sacerdócio real, uma nação santa” (1 Pe 2,9). Participamos do sacerdócio e da realeza de Cristo porque, por meio do batismo, participamos da sua natureza (cf. 2 Pe 1,4). O batizado é membro do corpo místico de Cristo. A cabeça deste Corpo é o nosso Sumo Sacerdote. Portanto, segue-se que também os fiéis são, de certo modo, participantes deste “sacerdócio real”. Quando a Cabeça oferece um sacrifício, também os membros devem participar no ato sagrado.
Logo, devemos compreender bem a intervenção dos fiéis no Santo Sacrifício da Missa. Obviamente, por vontade expressa de Cristo, nem todos os fiéis são sacerdotes. Porém, é preciso que fique claro que não devemos nos contentar com a assistência passiva, estando sentados em silêncio ou disperso durante a Missa ou, ainda, em tempos de pandemia, assistindo-a por um aplicativo (app) alheio ao ato sublime que está a se realizar no altar.
Devemos todos cooperar, porque temos de transformar o Sacrifício de Cristo no nosso próprio sacrifício pessoal. Com o batismo, formamos um tronco com Cristo, tornamo-nos, membros do Seu Corpo místico. Ora, se Cristo, a Cabeça, se sacrifica ao Eterno Pai, também nos sacrifica a nós, membros do Seu Corpo. Por consequência, também, estamos unidos a Cristo durante o tempo do sacrifício. Portanto, a assistência reta e proveitosa à Missa, exige dos fiéis participação ativa. Exigem que durante a Missa avivem na alma os sentidos e pensamento de sacrifício que naquele momento enchem o Coração de Cristo que oferece o sacrifício.
Não devemos pensar que a Santa Missa é coisa só de sacerdote, dizia o sacerdote inglês Ronald Knox. Nós também participamos ativamente no sacrifício: “Orai, irmãos e irmãs, para que o nosso sacrifício seja aceito por Deus Pai todo-poderoso”. Quando o acólito oferece ao sacerdote o vinho que este vai pôr no cálice, não o faz para facilitar o trabalho; realiza um ato simbólico ao apresentar-lhe, em nome dos fiéis, a matéria do sacrifício, um sacrifício que é do sacerdote e nosso. Nesse sentido, somos como rapaz do lago da Galiléia, e o sacerdote é como Santo André, pois toma das tuas mãos a tua pobre oferenda e apresenta-a ao Senhor para que faça o milagre.
Quando oferecemos o pão e o vinho no Santo Sacrifício da Missa – esse pão e esse vinho que vão se converter no Corpo e no Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo – estamos oferecendo tudo quanto temos: as nossas súplicas, as nossas necessidades, as nossas aspirações, ambições e esperanças, nós mesmos. Tudo isso é assumido por Cristo, faz parte do seu sacrifício.
Observemos que não só falamos da Missa, mas também do “Sacrifício da Missa”. O Santíssimo Sacramento não existe sem sacrifício e, o sacrifício visível oferecido na Missa deve exprimir o sacrifício invisível da nossa vida.
Ainda que os meios eletrônicos, sobretudo a Internet, nos tenha possibilitado assistir a Santa Missa durante a pandemia, já é hora de voltar a Igreja para oferecer um sacrifício agradável a Deus.
Sacrifício nas orações ao pé do altar! Enquanto o sacerdote, profundamente inclinado, pronúncia as palavras da confissão geral: “Mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa”, todos devemos sentir: com alma carregada de pecados não posso oferecer o meu sacrifício ao Senhor. Arrependo-me, pois, dos meus pecados com sincera contrição, faço a retratação deles, oferecendo-me a Deus.
Sacrifício na oblação! O sacerdote ergue na patena dourada a hóstia branca que será transubstanciada no Corpo de Cristo. Devo também colocar espiritualmente na patena as mortificações, provas, renúncias e sofrimentos daquele dia.
Sacrifício na elevação! Cristo sacrifica a Sua vida por meu amor. Olho para a hóstia erguida ao alto, depois olho para o cálice e, pronuncio as palavras do Apóstolo Tomé: “Meu Senhor e meu Deus”. Oferece em sacrifício a minha inteligência, a minha vontade, os meus desejos, os meus sentimentos, toda a minha pessoa.
Sacrifício na comunhão! Cristo une-se a mim na comunhão; mas une-se também à pessoa ajoelhada ao meu lado na Sagrada Mesa – a quem, talvez, trato mal há vários anos ou mesmo ignoro, e a quem não sei dirigir uma única palavra amável. Para poder participar no Sacrifício da Missa, devo agora fazer este sacrifício.
O nosso cristianismo será profundo e consciente, assinalava ainda o Bispo Tihamer Tóth, a qual devo muito deste texto, na medida que compreendermos, apreciarmos e amarmos a Santa Missa. E, dizia:
“O que for a tua Missa, assim será a tua fé. O que for a tua Missa, assim será a tua moral. O que for a tua Missa, assim será a tua vida. E o que for a tua vida neste mundo, assim, também será lá em cima, por toda a eternidade”.
Interessante, também, observar que em tempos de pandemia, vemos as pessoas tirarem suas máscaras durante a comunhão. Oxalá seja essa também a disposição interna de todos que se aproximam do Santo Sacrifício do Altar de Cristo.
Que Nossa Senhora, Maria Santíssima, nos ensine a procurar a intimidade com Jesus, a reconhecê-lo e encontrá-lo nesse instante supremo – o tempo que se une à eternidade – do Santo Sacrifício da Missa.
Por Alecsandro Araujo de Souza
Fontes:
- Tóth, Tihamer. A Eucaristia. Livraria Apostolado da Imprensa. Porto. Portugal, 1962.
- Knox, Ronald. Deus e Eu – Meditações para um Retiro. Editora Quadrante, São Paulo, 1987.
- Hahn, Scott. Trabalho Ordinário, Graça Extraordinária. Editora Quadrante, São Paulo, 2008.
- Escrivá, São Josemaria. Homilia: A Eucaristia, Mistério de Fé e Amor. 14 de abril de 1960.
Você quer saber mais sobre algum ensinamento da Igreja?
Envie suas dúvidas para revistansb@gmail.com


