Algum tempo atrás, li um artigo que me causou grande estranhamento. Escrito pelo irmão Dominicano Joseph-Anthony Kress, o artigo falava sobre futebol – e foi exatamente este o motivo do meu incômodo: por que um religioso Dominicano, ao escrever para um site tomista, falava sobre futebol? Antes mesmo da metade do primeiro parágrafo, já surgia em mim – contra a minha vontade – uma desconfiança mal humorada sobre o que viria a seguir.

Eu estava, é claro, enganado. O artigo do Ir. Joseph não falava sobre futebol, mas usava do futebol para falar sobre a conquista das virtudes. O argumento principal do texto era o seguinte: o ritmo acelerado e a imprevisibilidade de uma partida de futebol a tornam uma boa analogia para a vida, visto que da mesma forma que um jogador precisa utilizar de sua razão prática para adaptar uma estratégia, elaborada antes do jogo, ao que de fato acontece durante a partida, o católico que busca as virtudes precisa ler as situações concretas da vida e agir de acordo. O católico, creio, não pode se apegar com unhas e dentes a um rigorismo inflexível, pois isto seria contra a prudência e a temperança – para não dizer farisaico -, mas também não pode abraçar o laxismo, pois fazê-lo seria jogar a estratégia pela janela, correr para fora do campo e invadir a arquibancada para comprar pastel.

O Ir. Joseph encerra o texto logo em seguida, mas não sem antes fechar com chave de ouro o paralelo que havia começado entre a conquista das virtudes e uma partida de futebol – ele fala sobre a virtude da eutrapelia, a “virtude dos jogos” como descrita por Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica. Mas há muito mais a se dizer sobre a eutrapelia do que, simplesmente, a necessidade da alma pelo descanso que encontra na diversão.
Santo Tomás aprofunda o conceito de eutrapelia – mais do que o aprofundar, na verdade, ele o cristianiza –, mas o termo é originalmente encontrado na obra de Aristóteles, especialmente na “Ética a Nicômaco”. A palavra é grega e já viu muitas traduções – de “espírito” (no sentido de espirituoso) e “vivacidade” até, simplesmente, “diversão” –, mas Aristóteles a utiliza para se referir a uma certa qualidade de espírito que torna alguém sagaz, divertido, espirituoso e agradável; para ele, a eutrapelia seria o ponto intermediário perfeito entre o palhaço rude, que só vive de piadas, e o sisudo demasiadamente circunspecto e sério, inflexível. Em outras palavras, a virtude da eutrapelia é, para Aristóteles, a virtude da leveza de espírito – quase dois mil anos depois, G.K Chesterton descreve algo muito parecido, quando diz que “os anjos voam por que não se levam a sério demais”.

Quando Santo Tomás aborda a questão da eutrapelia, ele utiliza o conceito para se referir à necessidade que a mente e a alma humana têm de descansar: assim como um homem que não descansa se torna incapaz de trabalhar, uma mente privada do repouso que encontra no prazer, nas conversas agradáveis, no divertimento e nessa leveza de espírito, para de funcionar. A alma a que se nega o relaxamento torna-se pesada e incapaz de alcançar as coisas do alto.

Ainda que seja tentador pensar nessa ideia da leveza de espírito simplesmente como “diversão” ou “alegria”, me parece que existem aspectos mais sutis – e, portanto, mais interessantes – a serem explorados na virtude da eutrapelia. A ironia, como demonstrada por muitos santos, é um bom exemplo desta harmonia mental à qual Santo Tomás se refere, e podemos vê-la com clareza em Santa Teresa de Ávila – conhecida não somente por ser Doutora da Igreja e responsável, junto com São João da Cruz, pela reforma da Ordem Carmelita, mas também por ter criado uma espiritualidade profundamente reverente e contemplativa. Conta-se que, certo dia, Santa Teresa estava viajando e caiu do burrico no qual montava, sujando-se inteira de lama e machucando a perna:

Esse tipo de diálogo pode soar desrespeitoso ao leitor – como também soou para mim na primeira vez que o li – e enchê-lo de questões: como alguém, ainda mais uma santa, pode se referir a Deus de forma tão jocosa, tão irreverente? A resposta, como grande parte das coisas que dizem respeito aos santos, é mais simples do que poderíamos imaginar: ela assim Lhe responde por que O ama, e, neste amor, encontra a autenticidade, a leveza de espírito e a tranquilidade para responder-Lhe como quem responde a um amigo querido, numa conversa agradável.

Muito da virtude da eutrapelia pode ser encontrado nesta passagem. Quando Santo Tomás fala de um equilíbrio, de uma harmonia, presume-se uma tensão – coisas ou sentimentos que devem ser equilibrados e harmonizados, da mesma forma que, em nosso exemplo inicial, o jogador deve equilibrar-se entre a estratégia e a realidade da partida. Santa Teresa nos mostra, nessa passagem, um tênue equilíbrio – e tê-lo alcançado é, sem dúvida, parte dos motivos pelos quais é santa: o equilíbrio entre a devoção e a naturalidade, que se eleva acima da tensão de uma criatura frente a seu onipotente criador, e se assenta numa serena e profunda amizade.

Mesmo se retomarmos a noção de eutrapelia somente como alegria e divertimento saudável, Santa Teresa segue sendo um bom exemplo: uma das suas orações mais famosas – ainda que provavelmente apócrifa – é “Livre-nos, bom Senhor, de devoções bobas e santos amargurados”. O que são as “devoções bobas” de que fala a Santa, se não fruto do mesmo estado de espírito desequilibrado que transforma a pessoa num palhaço? E como surgem os “santos amargurados”, se não do mesmo desequilíbrio que Aristóteles e Santo Tomás concordaram ser responsável pelo surgimento do homem pesado e incapaz de alcançar o alto? Vejam como não estamos longe de como este texto começou: o “palhaço”, adepto das “devoções bobas”, é o jogador que abandona a estratégia e corre para a plateia; o “homem pesado”, o “santo amargurado”, é aquele que se agarra a ela com firmeza demais, a ponto de não conseguir jogar a partida. Apesar de a eutrapelia ser descrita como uma espécie de “bom comportamento social”, referente à atitude do homem que reconhece a necessidade da diversão equilibrada e sabe vivê-la, ela ainda é uma virtude – e como toda virtude, seu exercício traz benefícios para a vida espiritual, e sua ausência, graves prejuízos.

Santa Teresa se manifestou com frequência a respeito dos perigos da melancolia, chegando a dizer que tinha “mais medo de uma irmã triste do que de uma multidão de espíritos malignos”. Santo Agostinho, também Doutor da Igreja, certamente concordaria com ela – para ele, profundamente influenciado por São Paulo, o “deleite é a única fonte possível de ação, nada mais é capaz de mover à vontade. Portanto, o homem só pode agir se puder mobilizar seus sentimentos, se for afetado por um objeto prazeroso”.

O ser humano tende naturalmente para Deus – Ele é a culminação de todos os nossos desejos, de toda a nossa existência; o objetivo e o sentido final de nossas vidas: pode existir algo mais prazeroso? Como poderíamos amar a Deus se ele não nos causasse “deleite”? Se nos curvássemos apavorados e contritos, em pânico, frente a cada um de Seus gestos? Deus é a nossa alegria e nós O glorificamos com a alegria e o amor que Ele mesmo nos dá.

Jared Staudt, professor, escritor e Oblato Beneditino americano, diz que a partir desta alegria direcionada a Deus, nossa vida transforma-se num “ato litúrgico em que nos unimos para glorificar a Deus por meio do companheirismo, da comida, da bebida, da música e da oração” – o que é muito diferente da visão que a cultura secular tem de diversão, em que a vida das pessoas não aponta para Deus, mas para si mesmas; onde não se encontra prazer em ser uma criatura de Deus, mas teme-se qualquer menção ao Seu nome como uma ameaça à liberdade.

Não devemos, entretanto, temer o mundo como ele teme a Deus. Em seu livro “Ortodoxia”, G. K. Chesterton faz um paralelo interessante – ele diz que, num conto de fadas, o herói não pode ter medo do gigante, pois, se o tem, será morto; mas se o herói não se impressionar com o gigante, não há história. Para Chesterton, toda a questão se resume a este ponto – sermos humildes o suficiente para nos encantarmos com o mundo, e confiantes o suficiente para desafiá-lo. Devemos “ser reverentes para com todas as coisas, a ponto de termos medo de pisar na grama, mas ter também por elas desdém o suficiente para que, na hora certa, possamos cuspir nas estrelas”.

Chesterton conclui seu raciocínio como eu gostaria de concluir este texto: “A perfeita felicidade do homem na terra (se ela vier) não será uma coisa sólida e constante, como a satisfação dos animais. Será um equilíbrio exato e perigoso” – será, no fim das contas, uma eutrapelia.

 

Por Rodrigo Gurgel Filho, Antropólogo.

Mestrando em Filosofia pela UNIFESP.

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