Na última edição deste Informativo Nossa Senhora do Brasil, escrevemos sobre o Depósito da Fé: vimos como Deus, mostrando-Se ao homem, primeiramente e como que por detrás de um véu, através da luz natural da razão, revela-Se-lhe depois lenta e gradualmente através de seus profetas, até o ponto culminante em que assume pessoalmente a natureza humana para convidar-nos todos a entrar em Sua intimidade (cf. Lc 10,22). Ao ascender aos céus, constitui enfim Cristo Jesus a alguns homens (os apóstolos) como seus depositários, que guardassem inalteradas – que “observassem” (Mt 28,20) – as verdades que lhes ensinara.
Os apóstolos, porém, faleceram todos há quase dois milênios – e, no entanto, era crucial que “aquelas coisas que [Deus] revelara para a salvação de todos os povos permanecessem sempre íntegras e fossem transmitidas a todas as gerações” (CIC § 74).
Ninguém duvida, afinal, que qualquer mensagem que passe por uma cadeia de centenas de intermediários humanos naturalmente acaba sendo deformada: “Quem conta um conto, aumenta um ponto”, diz-nos a sabedoria popular. Que fosse, pois, por debilidade de formação, por interesses escusos, por pressões de conformar-se ao mundo, ou por pura imperfeição humana, ainda que bem intencionada: qualquer que fosse a causa da adulteração doutrinária, esta seria, ao cabo de um “telefone sem fio” de dezenas de gerações, simplesmente inevitável – a não ser que houvesse uma assistência divina sobrenatural.
E foi exatamente esta assistência sobrenatural que Jesus Cristo garantiu àqueles homens que chamara seus discípulos, até sua volta: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20).
É, pois, dogma da Igreja que aquele Depósito da Fé, originalmente entregue aos apóstolos pelo próprio Cristo, foi depois por estes transmitido fielmente a toda a Igreja, e mais particularmente a seus sucessores, os bispos, e assim até nossos dias (CIC § 77). A esta entrega da Fé, de geração em geração, que “transmite integralmente aos sucessores dos apóstolos a Palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos apóstolos para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles, por sua pregação, fielmente a conservem, exponham e difundam”, chamamos Sagrada Tradição (CIC § 81).
Além de fundamentadas na Escritura e na Tradição cristã, as sobreditas verdades – de que a Igreja (una, santa, católica e apostólica) mantém intactos há 20 séculos os ensinamentos de Fé e Moral que recebeu de Cristo, e de que toda denominação cristã que dela se separa é doutrinariamente instável no tempo – são fatos históricos objetivamente verificáveis.
Tomemos, por exemplo, o caso das práticas contraceptivas. Além de rejeitadas pela Escritura (cf. Gen 38,8- 10) e pelos Padres da Igreja desde os primeiros séculos (São Clemente de Alexandria, Santo Agostinho, etc.), foram elas unanimemente desaprova Tradição e das por todas as denominações cristãs até o primeiro quartel do século XX – quando os Anglicanos, que haviam entrado em cisma com a Igreja quatro séculos antes, decidiram na Conferência de Lambeth de 1930 (não sem certa influência, aliás, do movimento eugenista, então em voga) passar a aceitá-las em algumas circunstâncias. Nos anos que se seguiram houve, então, uma debandada geral: praticamente todas as denominações cristãs não-católicas inverteram radicalmente seu ensinamento tradicional.
A Igreja Católica tornou-se, então, a única grande confissão cristã fiel à doutrina constante de 20 séculos – a despeito das crescentes pressões externas e internas para se “adequar aos novos tempos”. Havia – mesmo da parte de membros da Igreja – clamores por uma “modernização” na doutrina, e até a Comissão de Estudos sobre o tema, criada pelo Papa João XXIII, chegou a conclusões contrárias à moral tradicional. A resposta do Magistério veio, enfim, com a encíclica Humanae Vitae, “sobre a regulação da natalidade”, do Papa Paulo VI. Apesar de escrever em julho de 1968 – no “olho do furacão” da chamada “revolução sexual” –, o Papa heroicamente reafirmou o ensinamento católico imutável, explicitamente invocando o “mandato que nos foi confiado por Cristo” (HV 6), “ao comunicar a Pedro e aos Apóstolos a sua autoridade divina e ao enviá-los a ensinar a todos os povos os seus mandamentos” (HV 4).
Para nós, católicos do século XXI, a Humanae Vitae talvez seja o mais claro exemplo da Sagrada Tradição, este penhor de incorruptibilidade doutrinária dado por Cristo à sua Igreja: todas as outras grandes confissões cristãs acabaram cedendo às pressões de um mundo cada vez mais materialista e egoísta, e alteraram seu ensinamento sobre a contracepção. Na Igreja Católica, porém, o Santo Padre, conquanto pressionado por todo o contexto da chamada “revolução sexual” e até mesmo por membros do clero, sustentou bravamente a verdade perene, pedindo ainda aos sacerdotes a coragem de, com “leal acatamento, interno e externo, do Magistério da Igreja”, “expor, sem ambiguidades, os ensinamentos da Igreja acerca do matrimônio” (HV 28) e “Não minimizar em nada a doutrina salutar de Cristo” (HV 29).
Diante destes fatos históricos, a grande verdade é que, se deixarmos de lado as emoções e analisarmos objetivamente a questão, enxergaremos com nitidez que toda “Igreja” que outrora ensinava um certo juízo moral objetivo (da imoralidade da contracepção) e hoje faz exatamente o oposto (da sua não-imoralidade), entra em estrita contradição consigo própria – e portanto, inescapavelmente, admite-se falível. É este o caso de todo pastor protestante que, como num “telefone sem fio” intergeneracional, ensina hoje o contrário do que ensinavam seus avós ou bisavós. Em toda a história da Igreja, por outro lado, nunca houve uma única alteração de verdade dogmática sobre Fé ou Moral – e nem tampouco pode haver, pois isto significaria que ela não é infalível, e, portanto, sempre mentiu ao pretender-se como tal.
Este “patrimônio sagrado da fé”, que nos foi transmitido pelos Apóstolos (CIC § 84), precisa, porém, ser fielmente interpretado – e justamente para isso existe o Sagrado Magistério, que Nosso Senhor constituiu ao dizer a seus discípulos : “Quem vos ouve a mim ouve” (Lc 10,16), e “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18).
Deste assunto, e de como a Sagrada Escritura se insere no conjunto a que chamamos Palavra de Deus, pretendemos tratar na próxima edição do Informativo, aproveitando o ensejo do vindouro mês da Bíblia (setembro).
Por Gil Pierre de Toledo Herck
Referências:
Catecismo da Igreja Católica (CIC)
Carta Encíclica Humanae Vitae “sobre a
regulação da natalidade”, do Papa Paulo
VI, 25 de julho de 1968
“Por que a Igreja Católica é contra os
métodos anticoncepcionais?”, matéria publicada no site do Padre Paulo
Ricardo, em 7 de setembro de 2018
“Contraception and Sterilization”, matéria publicada no site Catholic Answers,
em 19 de novembro de 2018, com o
imprimatur de S.E.R. Dom Robert
H. Brom, Bispo de San Diego, 10
de agosto de 2004


