Certa vez, um rapaz resolveu conceder a si próprio um feriado. Era um dia ensolarado de primavera e havia um lago próximo do lugar onde morava, de forma que pensou em ir pescar no barco do pai, se este autorizasse. A mãe disse que era perigoso, que podia afogar-se, mais o pai concordou, achando que o menino já era suficientemente crescido para cuidar de si próprio. “Você vai perder-se, insistiu a mãe, e não voltarás a hora do jantar”, mas o rapaz prometeu que retornaria antes de que anoitecesse. Por fim, chegaram a um termo de compromisso: o filho levaria um lanche, para o caso de sentir fome. A mãe preparou-lhe um farnel com meia dúzia de pãezinhos; ele não queria tantos, mas afinal cedeu.

Divertiu-se muito no lago. Com a rede que ele mesmo tinha fabricado,conseguiu apanhar três peixes de tamanho médio, sem falar naquele que escapou. Deu-se conta, pela posição do Sol – obviamente era desse tipo de rapazes que não usam relógio –, de que a tarde avançava e de que estava faminto. Remou para a margem com a ideia de fazer uma fogueira e assar os peixes. Surpreendeu-se ao encontrar uma barca vazia na margem, pois o lugar era deserto e não havia nenhum povoado por perto. Assou os peixes o melhor que pôde, comeu um e achou-o muito bom, pois, afinal de contas, o cozinheiro tinha sido ele mesmo, se bem que, é verdade, estava insosso. Para acompanhar, comeu um pãozinho. Depois, pôs no cesto os dois peixes que sobravam, junto com os pães restantes, e começou a explorar aquela parte deserta das margens do lago. Estava intrigado com a barca. Pertenceria talvez a um bando de contrabandistas? Um atalho estreito subia pelo barranco, e pensou que descobria alguma coisa ao chegar ao alto.

Descobriu-o, com efeito, mas não era o que esperava. Ali, na ladeira de uma suave colina, estava não um bando de contrabandistas, mas uma imensa multidão, centenas de pessoas, que escutavam um homem jovem que lhe falava.

Pensou que se tratava de um comício – embora o lugar não lhe parecesse adequado –, pois seu pai lhe dissera que, tempos atrás, esse tipo de charlatão tinha pulado pelas redondezas. Como não gostava de política e toda essa multidão o intimidava um pouco, procurou manter distância. Sentou-se atrás de todos os que escutavam e pôs-se a tomar o peso dos dois peixes que restavam. Realmente, não eram tão grandes como tinha imaginado a princípio.

Passou por ele um homem simpático – pescador, pelo aspecto – que reparou no cestinho. “Tens uma mãe muito previdente”, disse-lhe, contemplando os pães e os peixes. O rapaz concordou, mas nesse momento correu um murmúrio entre a multidão. O homem que lhes vinha falando havia terminado, e o pescador afastou-se. Ao cabo de uns instantes, regressou e perguntou ao rapaz se não se importaria de dividir o lanche com alguns dos ouvintes, que não comiam desde a manhã. O rapaz assentiu e foi levado até o Homem jovem, a quem entregou todas as suas provisões.

Um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro, disse-lhe: Há aqui um rapaz que tem cinco pães e dois peixes, mas o que é isso para alimentar tanta gente? Porém, Jesus disse: Fazei-os sentar a todos. O lugar estava coberto de erva. Sentaram-se, pois, cerca de cinco mil homens. Jesus, então, tomou os pães e, depois de haver dado graças, repartiu-os entre o que estavam sentados; o mesmo fez com os peixes, dando a todos quanto queriam. (Jo 6, 8-11)

Demoraste muito a perceber que caminho levava a história? Não comecei este relato pelo princípio só para desorientar. Fi-lo porque este rapaz é um personagem sumamente importante no milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. Unicamente São João o menciona, mas não há dúvida de que não o fez por acaso, já que o Senhor não quis criar os alimentos do nada, como podia tê-lo feito. E, escolheu esse rapaz, que podia oferecer tão pouco; sim, mas alguma coisa. Isso era o importante. Porque o Senhor quer que lhe ofereçamos o pouco que temos, deixando à sua Onipotência o cuidado de fazer o resto.

O tema de que quero falar-te é, naturalmente, a Santa Missa. Se o Senhor dispôs que um rapaz, alheio ao que estava acontecendo, fornecesse os elementos materiais que permitiriam operar aquele milagre num lugar deserto, é porque queria mostrar-nos que, no Santo Sacrifício da Missa, o nosso papel é necessário, ainda que pequeno. A única coisa que quer é que lhe ofereçamos o que temos, por mais humilde que seja: um pouco de pão e um pouco de vinho.

A missa exige uma espécie de acordo prévio entre o sacerdote, por um lado, e os fiéis por outro. Não devemos pensar que é uma coisa só do sacerdote. Os fiéis participam ativamente no sacrifício: “Orai, irmãos, para que este sacrifício meu e vosso seja aceitável…”. E, quando o acólito oferece ao sacerdote o vinho que este vai por no cálice, não o faz para facilitar lhe o trabalho; realiza um ato simbólico ao apresentar-lhe, em nome dos fiéis, a matéria do sacrifício, um sacrifício que é do sacerdote e nosso. Somos como o rapaz do lago da Galileia, e o sacerdote é como Santo André, pois toma das tuas mãos a tua pobre oferenda e apresenta-o ao Senhor para que faça o milagre.

Pense no que o Senhor fez com cinco pães. Provavelmente, seriam pequenos, com capacidade para satisfazer no máximo cinco pessoas. Mas eram cinco mil pessoas a serem alimentadas… O mais “lógico” teria sido, pois, que tivesse criado 4.995 novos pães e os tivesse acrescentado aos outros. Teria podido fazê-lo, sim, mas não o fez. Não acrescentou nada aos pães já existentes. Tomou esses cinco pães e os multiplicou. Se pensa que isso é impossível, convém que recordes que Ele mesmo multiplica o grão de trigo que cai no solo, germina e se converte em espiga. Ao multiplicar os cinco pães, fez o que faz com cada colheita, mas imediatamente, sem ater-se ao processo habitual que se desenvolve entre a semeadura e a ceifa.

Eu diria que este milagre encerra para nós um valioso simbolismo. Quando oferecemos o pão e o vinho no Santo Sacrifício da Missa – esse pão e esse vinho que vão se converter no Corpo e no Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo –, estamos oferecendo tudo o quanto temos: as nossas súplicas, as nossas necessidades, as nossas aspirações, ambições e esperanças, nós mesmos. Tudo isso é assumido por Cristo, faz parte do seu Sacrifício. Deves pensar no Sacrifício de Cristo na Missa como um grande torvelinho que arrebata a tua oração e a tua vida e a integra na impetuosa corrente divina; ou como um forno que as abrasa e purifica, tornando-as incandescentes e luminosas como filamento de uma lâmpada elétrica. Se assimilas a fundo essa ideia, “ir à Missa” não suporá para ti uma obrigação penosa ou, no melhor dos casos, um momento de tédio em que permaneces passivo. Terá um significado enorme e, chegará a ser o ato mais importante do teu dia, pois serás tomado e vivificado pelo espírito do eterno Sacrifício de Cristo.

Como não hei de entristecer-me quando um universitário me diz que “se aborrece” na Missa e que já não vai senão aos domingos – e nem todos –, porque no colégio o obrigavam a ir todos os dias? Além de que essa suposta “obrigação” é mais ou menos discutível, é que não entendeu nada do Santo Sacrifício. Aborrecer-se na Missa! Será que pensa que vinha à Missa para divertir-se?

Aborreces-te porque estás trinta a quarenta minutos passivo, porque deixas que tua mente permaneça inerte, e está inerte porque não te esforças por pensar em nada, esperando que passe essa meia hora. Certamente não será a presença do sacerdote – vestido de roupas bastante caras repetindo gestos rituais que já presenciaste centenas de vezes – que te entusiasmará. O teu aborrecimento provém da tua inércia mental, de que nunca te esforçaste por entender a fundo o sentido do Santo Sacrifício.

Tens, pois que unir-te ao sacrifício que o sacerdote oferece, oferecendo por tua vez a Deus em sacrifício tudo o que tens no teu espírito, desde que não seja pecado; e mesmo que o seja, ainda pode aproximar-te dEle e pedir lhe que te limpe disso. Haverá certamente assuntos que te preocupam, necessidades próprias e alheias; este é o momento de pedir por elas. Talvez sejam coisas sem importância, ninharias: uma prova, um jogo de futebol… Pouco importa.

Fizeste algo que te envergonhas: pede perdão. Discutiste com alguém: deixa de lado a irritação, para que seja queimada no fogo da caridade divina. Tiraste um bom propósito: oferece-o a Deus. Lembras-te de algum amigo ou parente: pede por ele. Cada pensamento que passe por tua mente pode ficar purificado e brilhante, reverberar como as partículas de poeira num raio de Sol. Mesmo essas distrações que te assaltam podem converter-se em gravetos para o fogo do teu sacrifício, em matéria-prima do milagre que vai acontecer.

Não quero dizer com isto que o Ofertório seja a parte mais importante da Missa. Não o é. Muito mais importante é o que Deus realiza na Missa: a Consagração, o momento em que o próprio Cristo desce ao altar, renova o Sacrifício do Calvário e se oferece ao Pai. Não obstante, insisti no Ofertório porque creio que é uma parte da Missa cuja importância costumamos esquecer. Recorda: Onde encontramos pão para alimentar mais gente? Aqui há um rapaz que tem cinco pães e dois peixes. Onde encontramos matéria para o Santo Sacrifício? Diz o Senhor: “Olhai, Senhor, aqui tenho alguma coisa para
vos oferecer. É muito pouco, mas…”

E, agora, sem prejuízo de que lhe dedique outra meditação, quereria falar um pouco sobre a Comunhão, porque julgo que não há nada que frustre tanto o coração dos que recebem como o pouco efeito que, em meu entender, lhe produz. Devia fazer-nos mudar tanto, mas parece modificar-nos tão pouco…

A primeira coisa que é preciso compreender é que não há maneira de medir seus efeitos, que são a nossa transformação progressiva em Jesus Cristo. A Comunhão é um alimento, sim, mas não se pode compará-lo com os que nutrem o nosso corpo. Quando comemos alguma coisa, incorporamo-la ao nosso organismo, convertendo-a em parte de nós mesmos. Mas quando comungamos, acontece exatamente o contrário. Somos nós que nos incorporamos a Cristo: Vivo – diz São Paulo –, mas não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim, continuando a obra da sua Encarnação.

Tudo isso está muito bem – dirás –, mas a verdade é que eu não noto nada. Saio da Igreja, depois de comungar, e meia hora depois já tenho um mau pensamento, e me irrito ou insulto um colega… Arrependo-me, sim, e volto a confessar-me e a comungar, mas não progrido.

Bem, há muitas respostas para esta objeção. Antes de mais nada, ninguém é bom juiz em causa própria nem está capacitado para medir os seus progressos. Por outro lado, não é possível esquecer que o efeito produzido pela Eucaristia, é proporcional ao desenvolvimento espiritual de quem o recebe e, neste sentido, somos como crianças pequenas, como principiantes. Já é muito valioso que a Comunhão, de momento, só te sirva para manter sob controle as tuas faltas e os teus pecados, sem causar nenhum progresso, mas também sem dar lugar a retrocesso, que aconteceria logo que deixasses de comungar. Mas a questão fundamental não é essa. A resposta a teu descoroçoamento pode ser formulada por meio de outra pergunta: estás absolutamente certo de que a razão de que a tua Comunhão produza efeitos tão pobres não está em que te esforças pouco da tua parte? Não será que recebes pouco porque dás muito pouco?

Mas voltemos à Missa. Não é verdade que, às vezes, estás como que adormecido e só acordas quando, no momento de se iniciar a Consagração, tens que ajoelhar-te? “Bem – podes pensar –, afinal de contas o mais importante da Missa ainda não passou”. Sim, é verdade. O espantoso, o milagroso ainda não se produziu, mas desperdiçaste uma coisa muito valiosa: o momento em que, unindote à ação do sacerdote, terias podido oferecer-te a ti mesmo e colocar tudoo que tens – misérias, fraquezas, esperanças, alegrias, dores e trabalhos – nas mãos de Deus.

O Senhor – diz a Imitação de Cristo – derrama as suas graças quando encontra recipientes vazio  dispostos a recebê-la. Esvazias-te totalmente de ti mesmo, oferecendo a Deus livremente, antes de comungar, tudo o que tens e tudo o que és?Ou estás, mais ou menos conscientemente, reservando alguma coisa para ti? Que teria acontecido se o rapaz dos pães e dos peixes tivesse dito a Santo André que sentia muito, mas que esses pães e peixes eram seus?

 

Por Ronald Knox (1888–1957),
sacerdote inglês. Capelão na Universidade de Oxford de 1926 a 1938.
Fonte: Knox, Ronald. Deus e Eu – meditações para um retiro. Ronald Knox; tradução José Eduardo Viera Coelho: Quadrante, 1987.

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