Rezar seriamente significa até fazer “braço de ferro” com Deus ou “balbuciar”: o importante é não repetirmos palavras “vazias”. O Papa Francisco escolheu a expressão “estou a fazer o melhor” para indicar a atitude certa na oração, assim como em qualquer outro aspecto da vida “porque para rezar é preciso coragem”.
“Durante a Quaresma, preparamo-nos para a Páscoa com três obras: a oração, o jejum e a caridade”, afirmou o Pontífice. “Hoje na primeira leitura – observou, referindo-se ao trecho do livro do Êxodo (32, 7-14) – a Igreja fala-nos da oração e especialmente da oração de intercessão: isto é, a intercessão de Moisés. O Senhor, podemos dizer, irou-se: ‘Agora, deixa-me; a minha cólera vai inflamar-se contra eles e destruí-los-ei’ assim Deus diz a propósito do povo que fez um bezerro de ouro”. E Moisés, que deseja salvar o povo, porque se sente um deles, começa a rezar, ou seja, a convencer o Senhor para não os punir.
É a oração de intercessão, mas com persuasão e fala-lhe como um mestre ao discípulo: “Moisés implorou ao Senhor, seu Deus, dizendo-lhe: ‘Por que, Senhor, a tua cólera se inflamará contra o teu povo, que fizeste sair do Egito com tão grande poder e com mão tão poderosa? Não é conveniente que se possa dizer no Egito: ‘Foi com má intenção que Ele os fez sair, foi para os matar nas montanhas e suprimi-los da face da Terra!’ Não te deixes dominar pela cólera e abandona a decisão de fazer mal a este povo’”.
Portanto, Moisés, explicou o Papa, começa a persuadir Deus, com mansidão, mas também com firmeza: “Recorda-te de Abraão, de Isaac e de Israel, teus servos, aos quais juraste por ti mesmo: tornarei a vossa descendência tão numerosa como as estrelas do céu e concederei à vossa posteridade esta terra de que falei”. E “assim recorda a Deus as suas promessas, como se dissesse ‘mas, Senhor, não faças má figura, tu fizeste isto’. É uma oração de intercessão”.
“O Senhor, quando fala a Moisés da sua ira, faz-lhe uma promessa: ‘Farei de ti uma grande nação’. Mas Moisés: ‘Não, ou com o povo ou nada. Se tu fizeres morrer este povo, matas-me também a mim’. Esta é a intercessão com a persuasão. É um modo de interceder. E na Bíblia há muitos exemplos de intercessão: o de Abrão, quando o Senhor lhe diz que destruirá Sodoma. E Abrão, um homem que lutou durante a vida, que tinha um sobrinho que vivia lá, queria salvá-la. E não o faz com a persuasão mas com a negociação, como faz uma dona de casa com o preço quando vai ao mercado: negocia. Diz: ‘Mas, Senhor, espere um pouco… se fossem 40 justos?’; ‘Se são 40, não destruirei’. Depois, faz as contas e verifica que não são. ‘Mas desculpe-me Senhor, e se fossem 30?’. ‘Não destruirei’. ‘E se fossem 20, se…’. No final, dá-se conta de que só a família do seu sobrinho é justa. Este é outro modo de interceder: negociar com o Senhor. Assim faz Abrão a sua oração.
“Na Bíblia há muitos casos – prosseguiu Francisco – mas pensemos noutro modo de interceder: pensemos em Ana, a mãe de Samuel que, em silêncio, balbucia em voz baixa, move os lábios e permanece ali a rezar, a rezar, a rezar, balbuciando diante do Senhor, a ponto que o sacerdote que estava presente e a observava pensou que ela estivesse bêbada. Ela pedia um filho ao Senhor: a angústia de uma mulher; mas ali, diante de Deus, intercede. Depois outra senhora no Evangelho, também corajosa, a cananeia, que não usa a persuasão, nem a negociação, nem a insistência silenciosa. Quando Jesus lhe diz: ‘Não posso, porque sou para aqueles do povo de Israel. Não posso dar o pão aos cãezinhos’. Ela não desanima: ‘Mas os cãezinhos também comem as migalhas do pão que caem no chão’. E recebe o que quer”.
O Pontífice recordou que “na Bíblia há muitos exemplos de oração de intercessão, com diversas modalidades. É verdade, é preciso coragem para rezar assim, porque na oração devemos ter coragem. Aquela parrésia, aquela coragem de falar cara a cara com Deus. E, às vezes, quando alguém como este povo debate com o Senhor para obter algo, podemos pensar que o faz como se fosse um braço de ferro com Deus, e desta forma alcança o que pede: porque está convicto, tem fé em que o Senhor possa conceder a graça”.
“É preciso muita coragem para rezar assim – insistiu o Papa – e nós ao contrário muitas vezes somos tíbios. Alguém nos diz: ‘Reza porque tenho este problema…’. Sim, rezo dois “Pai-Nossos”, duas “Ave Marias”, e esqueço-me… Não, a oração do papagaio não está bem. A verdadeira prece é esta: com o Senhor. E quando tenho que interceder, devo fazê-lo com coragem”.
“As pessoas, na linguagem comum, usam uma expressão que a mim diz muita coisa, quando querem obter uma graça: ‘estou a fazer o melhor'”, afirmou o Pontífice. “Na oração de intercessão isto é válido também: ‘estou a fazer o melhor’. A coragem de ir em frente. Mas talvez depois surja uma dúvida: ‘Faço isto mas como sei que o Senhor me ouve?’ Temos uma segurança: Jesus. Ele é o grande intercessor. Ele subiu ao Céu, está diante do Pai a interceder por nós. Ele faz a oração de intercessão continuamente. Antes da Paixão, tinha dito a Pedro: ‘Pedro, Pedro, rezarei por ti, para que a tua fé não desfaleça’. Eis a intercessão de Jesus: Ele reza por nós, neste momento. E quando rezo, quer com a persuasão, com a negociação, quer balbuciando, quer debatendo com o Senhor, é Ele que recolhe a minha prece e a apresenta ao Pai”.
“Jesus não tem necessidade de falar diante do Pai: mostra-lhe as suas chagas” reiterou o Pontífice. “O Pai vê as chagas e concede a graça. Quando rezarmos, pensemos que o fazemos com Jesus. Quando recitarmos a oração de intercessão corajosa, façamo-lo com Jesus: Ele é a nossa coragem, Jesus é a nossa segurança, que neste momento intercede por nós”.
“Que o Senhor nos conceda a graça de empreender este caminho, de aprender a interceder” desejou o Papa. E “quando alguém nos pedir para rezar, não o façamos com duas ‘oraçõezinhas’ vazias, não: façamo-lo seriamente, na presença de Jesus, com Jesus, que intercede por todos nós diante do Pai”.
Fonte: texto adaptado. Missa em Santa Marta. 04 de abril de 2019. L’Osservatore Romano.
