Aqueles com mais idade tendem a olhar as gerações mais novas com um olhar crítico. Veem com clareza os defeitos da juventude, a sua imaturidade, a sua inconsequência e o seu egoísmo. Há aquele famoso jargão – “Na minha época, não era assim” -, repetido sempre que se repara em algum jovem um erro. Entretanto, muito dessas críticas – que até podem ser verdadeiras – decorrem de uma visão distorcida da realidade, segundo a qual em épocas anteriores os jovens tivessem sido santos e irrepreensíveis. Esquecem-se os inúmeros bons exemplos que muitos jovens ainda dão nos dias atuais. Exemplos de generosidade, de ardor missionário e de luta por algum bom ideal. Se Deus chama todos à santidade, os jovens não escapam desse desejo divino.
Nada melhor para demonstrar essa realidade do que a história de um jovem falecido em 2006, com apenas 15 anos, que está a um passo de ser declarado Beato.
Carlo Acutis nasceu em 1991, em Londres. De família italiana, seu pai trabalhava no mercado financeiro e mudou-se para a Inglaterra com a família. Pouco tempo depois de seu nascimento, a família retornou para Milão, onde Carlo viveu por toda a sua vida.
Seus pais não eram católicos “praticantes”. Sua mãe – ainda viva – diz que, antes do nascimento de Carlo, tinha ido à Igreja apenas para a sua primeira comunhão, para a crisma e para seu casamento. Seu pai também não frequentava a Igreja. De onde surgiu, então, a fé tão grande desse jovem?
A família Acutis era abastada e tinha muitos funcionários em sua casa. Um desses funcionários era uma babá polonesa, contratada para ajudar na criação de Carlo. Muito católica, a babá foi ensinando os rudimentos da fé católica ao bebê. A tal ponto os ensinamentos da babá foram impressos na alma de Carlo, que ele passou a perguntar a sua mãe sobre a fé. Ela, por sua vez, não sabia responder a nenhum dos questionamentos de Carlo. Insatisfeita com sua ignorância, a mãe foi procurar um sacerdote para que a ajudasse a responder as questões do filho. O sacerdote, então, lhe disse: “A senhora deveria estudar a fé e responder você mesma as perguntas de seu filho”. Foi o que ela fez. A partir daí, ela passou a frequentar a Igreja e se converteu verdadeiramente. O bebê Carlo, já em tenra idade – com aproximadamente três anos -, foi instrumento de conversão de sua mãe. E, ao longo de sua curta vida, será instrumento de conversão de muitos outros parentes e amigos.
Aos sete anos, Carlo demonstrou um enorme desejo de receber a Eucaristia. Pedia constantemente por ela, a tal ponto que os pais foram procurar o Bispo para que autorizasse a comunhão à criança. O Bispo, vendo a seriedade do pedido do garoto, autorizou que recebesse o Corpo de Cristo. A partir desse momento, Carlo deu passos de gigante na vida espiritual. Insistia para ir à missa o mais frequentemente possível. Quando os pais não podiam levá-lo, um empregado hindu o acompanhava à missa. Um dia, conversando com esse empregado sobre a Eucaristia, a caminho da missa, Carlo o convenceu a receber o batismo para poder receber tão grande dom. E, assim, simplesmente falando de Deus, inflado por seu amor, o pequeno Carlo ia evangelizando os seus coleguinhas de escola, incentivando-os a comungarem e a confessarem.
Com sua bicicleta e um terço na mão, Carlo parava nas portarias dos prédios para falar com os porteiros sobre Deus. A maioria desses porteiros tinha origem hindu ou muçulmana.
Num primeiro relance, seria possível criar a impressão de que Carlo fosse um jovem chato, daqueles que não fazem nada além de falar de Deus. Tal impressão surge da falsa ideia de que se dedicar a Deus impede que se saboreie a vida. Ao contrário, aqueles que realmente amam a Deus não se tornam chatos, pois passam a alegrar-se com as pequenas coisas e a ver a beleza da criação. Carlo não foge à regra. Digitando seu nome no Youtube, por exemplo, é possível assistir a vídeos gravados por ele mesmo ou por sua família, que retratam um jovem alegre, cheio de vida e de energia. Sim, a vida com Deus implica abandonar o pecado, mas não implica abandonar a alegria.
Carlo viveu no começo da explosão da internet e soube usar do novo instrumento para evangelizar, razão pela qual muitos já o chamam de Padroeiro da Internet. Aos 11 anos, já começou a criar sites sobre os milagres eucarísticos, sobre as aparições de Nossa Senhora e sobre outros temas da fé católica (as páginas podem ser vistas no seguinte endereço: http://www.carloacutis.com/pt/association/). Para alimentar de conteúdo as páginas, Carlo viajou o mundo todo para ver de perto sobre o que escrevia. Seus sites tornaram-se mostras em museus de todo o globo que continuam a ser expostas.
Soube usar da internet para o bem. Nas pesquisas feitas depois de sua morte, não se descobriu em seu computador nenhum acesso de site impuro ou que tangencie a impureza.
Fez vídeos explicando verdades da fé. Um deles, que pode ser visto no Youtube, explica o mistério da Transubstanciação, quando o pão e o vinho transformam-se em Cristo substancialmente. Essa fé na Eucaristia era um dos sustentáculos de sua vida espiritual. Carlo passava longos períodos diante do sacrário. Chegava sempre antes na missa para rezar e ficava um bom tempo depois da missa em ação de graças.
Carlo acreditava tanto que Jesus está nos sacrários das igrejas, que um dia recusou uma viagem proposta por seu pai para a Terra Santa, dizendo que preferia ficar em Milão, pois nessa cidade há mais sacrários em que se pode encontrar o Cristo Vivo, enquanto que em Jerusalém há poucos sacrários. Afirmou: “Por que vou ao lugar por onde Cristo andou há dois mil anos quando posso visitá-Lo vivo no sacrário?”
Carlo não tinha aversão a viagens, mas sempre procurava o sacrário por onde ia. Seu destino favorito era Assis, onde respirava a espiritualidade de São Francisco.
Ao fim de sua vida, confidenciou ao seu diretor espiritual – que visitava todos os meses – que já conseguia ficar diante do sacrário sem nenhuma dispersão ou distração. Tal oração, chamada de recolhimento, é própria dos santos.
Há algumas pessoas que são como flores belas num jardim. O jardineiro não consegue resistir de colhê-las a partir do momento que florescem. O jardineiro, que é Cristo, quis para Si o menino Carlo, não o deixando muito nesta vida.
Um dia, uma gripe forte atacou Carlo, quando ele tinha apenas 15 anos. A princípio, os médicos desconfiavam que se tratasse de caxumba. Mas, depois de exames, diagnosticou-se leucemia, e do tipo mais grave. Quando descobriu o diagnóstico, Carlo, com grande serenidade, disse: “Deus acaba de programar o alarme”.
Pressentindo a sua morte, quando entrou no hospital para internação, Carlo afirmou à sua mãe: “Daqui, eu não saio mais”. Apenas quatro dias depois, em 12 de outubro de 2006, entregou a sua alma a Deus. Carlo viveu extraordinariamente esse curto período de internação, sem nunca esmorecer ou perder a esperança. Seus pais são testemunhas de que Carlo ofereceu todos os seus sofrimentos decorrentes da doença ao “Papa e à Igreja”.
O Funeral ocorreu em Milão, com a Igreja lotada. Carlo foi enterrado em Assis, devido a um desejo que havia expressado anos antes à mãe, que tinha um jazigo na cidade.
A fama de santidade de Carlo se espalhou e, já no ano passado, pouco tempo depois de sua morte, o Papa Francisco reconheceu suas virtudes heroicas e o declarou Venerável.
Contemplando um exemplo tão próximo de santidade, devemos ser impelidos a imitá-lo. Deus continua chamando todos à santidade. Carlo não fugiu à regra e muito menos nós. Venerável Carlo Acutis, rogai por nós.

