O presente texto é o terceiro e último de uma série — que pode ser integralmente consultada no site da Paróquia Nossa Senhora do Brasil — dedicada a expor a resposta católica às perguntas “qual a mensagem de Deus para a humanidade?” e “por que devemos acreditar na autoridade da Igreja Católica nesta matéria?”.

Iniciamos esta série, então, na edição de abril/maio, tratando do “Depósito da Fé”: vimos como Deus, além de permitir-Se entrever por todos os homens pela luz de sua razão natural (daí, por exemplo, a universalidade temporal e espacial do sentimento religioso), interveio também concretamente na história, revelando-Se gradualmente e com crescente profundidade mediante sucessivas alianças com grupos cada vez maior de seres humanos — até o momento culminante em que assumiu uma natureza humana na encarnação de Jesus Cristo e derramou o próprio sangue por todos na “nova e eterna aliança”.

Esta aliança, justamente porque eterna, precisava estender-se a todos os povos de todas as futuras gerações: daí que tenha Deus atribuído a alguns homens (os apóstolos) o encargo de guardar a Fé (depósito da fé), transmitindo-a fielmente a cada nova geração de sucessores (os bispos), no que chamamos Sagrada Tradição.

Da Sagrada Tradição, entendida como a transmissão das verdades do depositum fidei de geração em geração, tratamos na edição de junho/julho, mostrando como, do ponto de vista histórico, todas as religiões que se afastam da Igreja Católica têm oscilações doutrinárias ao longo do tempo — ora condenando certas práticas, ora tolerando-as ou mesmo aceitando-as irrestritamente —, conforme os gostos e aspirações do século. Na Igreja Católica, por outro lado, a doutrina de Fé e Moral foi, é, e sempre será imutavelmente a mesma, porque é garantida pelo próprio Deus, que não muda.

Resta-nos agora abordar mais detidamente a doutrina católica do Sagrado Magistério e da Sagrada Escritura — para o que convém contrapor-lhes a (errônea) doutrina protestante do Sola Scriptura, segundo qual a totalidade da mensagem de Deus estaria contida na Bíblia, e supostamente inexistiria uma autoridade terrena exercida em Seu nome.

Diferentemente dos protestantes, nós Católicos acreditamos que os apóstolos transmitiram o Evangelho de duas maneiras: por sua pregação oral, em exemplos e instituições, e por escrito, através dos textos do que hoje chamamos Bíblia. Por isso, embora a Sagrada Escritura seja, certamente, digna de veneração como divinamente inspirada, ela não esgota o todo de nossa Fé.

Mas como dar uma resposta satisfatória às indagações protestantes? Aqui nos é de grande valia a breve “biografia” de Scott e Kimlerly Hahn, Todos os caminhos levam a Roma, livro altamente recomendado onde o casal de ex-pastores presbiterianos conta a história de sua conversão ao catolicismo, a partir de um estudo aprofundado da Sagrada Escritura.

Num certo momento deste percurso, quando Scott começava a se desconcertar com as verdades que enxergava na Igreja Católica, pediu para reunir-se com o Dr. John Gerstner, “um teólogo calvinista formado em Harvard e de forte convicções anticatólicas” — o qual sintetizou sua objeção protestante perguntando: “Scott, se você concorda que agora nós possuímos a Palavra de Deus e sem erros na Escritura, o que mais pode nos faltar?”

“— Doutor Gerstner, não creio que a questão principal seja saber o que é que precisamos. Mas uma vez que o pergunta, exponho-lhe o meu ponto de vista. Desde a época da Reforma, foram surgindo mais de vinte e cinco mil diferentes confissões protestantes, e os especialistas dizem que na atualidade surgem cinco novas por semana. Cada uma delas afirma seguir o Espírito Santo e o sentido autêntico da Escritura. Deus sabe que devemos precisar de algo mais.

O que eu quero dizer, doutor Gerstner, é que quando os fundadores da nossa Nação nos deram a Constituição, não se contentaram apenas com isso. Imagine o que teríamos hoje se a única coisa que nos tivessem dado fosse um documento, por muito bom que fosse, junto com a recomendação ‘que o espírito de George Washington guie cada cidadão’? Teríamos a anarquia, que é precisamente o que temos nós, protestantes, no que se refere à unidade da Igreja. Em vez disso, os nossos pais fundadores deram-nos algo mais do que a Constituição; deram-nos um Governo — formado por um Presidente, um Congresso e um Senado — todos eles necessários para aplicar e interpretar a Constituição. E se isso é necessário para governar um país como o nosso, o que é que será necessário para governar a Igreja que abarca o mundo inteiro?

É por isso, doutor Gerstner, que começo a acreditar que Cristo não nos deixou apenas com um livro e o seu Espírito. Aliás, o Evangelho não diz uma única palavra aos apóstolos a respeito de que deviam escrever; além disso, só menos da metade deles escreveram livros que foram incluídos no Novo Testamento. O que Cristo disse realmente — a Pedro — foi: ‘Sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja… e as portas do inferno não prevalecerão contra ela’. Por isso, veja mais lógico que Jesus nos tenha deixado juntamente com a sua Igreja — composta por um Papa, Bispos e Concílios — tudo o que é necessário para administrar e interpretar a Escritura.”

Após uma pausa para pensar, o seu interlocutor perguntou-lhe ainda qual seria a “questão principal” de que falara. A resposta de Scott Hahn foi:

“Doutor Gerstner, creio que a questão principal é o que a Bíblia ensina sobre a Palavra de Deus, já que em nenhum lugar reduz a Palavra de Deus apenas à Escritura. Pelo contrário, a Bíblia diz-nos em muitos lugares que a autorizada Palavra de Deus deve buscar-se na Igreja: na sua tradição (2 Tes 2,15; 3,6), assim como na sua pregação e ensino (1 Ped 1,25; 2 Ped 1, 20-21; Mt 18,17). Por isso, penso que a Bíblia apoia o princípio católico do solum verbum Dei, ‘só a palavra de Deus’, em vez do princípio protestante sola Scriptura, ‘só a Bíblia’”.

Neste ponto, o Dr. Gerstner arguiu que diversos papas e concílios haviam ensinado coisas contrárias à Escritura. A réplica de Scott Hahn não tardou:

“— Contrárias a que interpretação da Escritura? — perguntei — Além disso, todos os historiadores da Igreja estão de acordo em que recebemos o Novo Testamento do Concílio de Hipona, no ano 393, e do Concílio de Cartago, no ano 397, e ambos enviaram as suas decisões a Roma, para serem aprovadas pelo Papa. O senhor não acha que do ano 30 ao ano 393 é demasiado tempo para estarmos sem Novo Testamento?  Além disso, havia muitos outros livros que as pessoas de então pensavam que poderiam ser inspirados, como a Epístola de Barbané, o Pastor de Hermas e os Atos de Paulo. Havia também múltiplos livros do Novo Testamento, como a Segunda Carta de Pedro, a Carta de Judas e o Apocalipse, que alguns consideravam que deviam ser excluídos. Afinal, que decisão seria digna de crédito e definitiva se a Igreja não ensinasse com autoridade infalível?”

O protestante, então, replicou com uma pergunta: “Scott, como é que você pode pensar que Deus tornou Pedro infalível?”.

Respondeu-lhe Scott Hahn: “—Bom, doutor Gerstner, tanto protestantes como católicos estão de acordo em que Deus deve ter tornado infalível Pedro pelo menos em duas ocasiões: quando escreveu a Primeira e a Segunda Epístola de Pedro, por exemplo. Ora, se Deus o pode tornar infalível para ensinar com autoridade por escrito, porque é que não podia preservá-lo do erro ao ensinar com autoridade em pessoa? Do mesmo modo, se Deus pode fazer isso com Pedro e com os outros apóstolos que escreveram a Escritura, por que não podia fazer o mesmo com os seus sucessores, especialmente ao prever a anarquia a que se chegaria se não o fizesse? Por outro lado, como podemos estar seguros de que os vinte e sete livros do Novo Testamento são em si mesmos a infalível Palavra de Deus se foram Papas falíveis e concílios falíveis que nos deram essa lista?”

Neste ponto o Dr. Gerstner respondeu, com grande sinceridade intelectual, que “isso significa simplesmente que o que podemos ter é uma coleção falível de documentos infalíveis”, ou que “tudo o que podemos fazer são juízos prováveis baseados na evidência histórica”.

O que isto significa é que um protestante que tenha estudado a história da Igreja  e que portanto saiba que a lista (o cânon) dos 27 livros que compõem o Novo Testamento foram definidos pela autoridade de concílios da Igreja Católica, no final do século IV — se vê obrigado a reconhecer que não pode ter certeza de quais livros compõem a Palavra de Deus. Já Santo Agostinho enxergava este problema quando dizia que “Eu não creria no Evangelho, se a isto não me levasse a autoridade da Igreja católica” (CIC § 119).

Nosso propósito, com este texto, não é polemizar inutilmente com nossos irmãos separados protestantes — antes, é respeitosamente expor os motivos por que a negação da autoridade da Igreja Católica é incoerente com o próprio cristianismo.

Esperamos sejam estas linhas, neste mês da Bíblia, estímulo a que também nós Católicos busquemos conhecer e beber mais desta que, junto com a Sagrada Tradição e o Sagrado Magistério, é fonte da Palavra de Deus — solum verbum Dei.

Gil Pierre de Toledo Herck

Referências:

Scott e Kimberly Hahn, Todos os caminhos levam a Roma — O nosso percurso até o catolicismo, 14ª. ed., Cléogas, trad. Marta Mendonça, 2018, p. 100-103.

Catecismo da Igreja Católica (CIC).

 

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