Sacerdócio Católico: Sinal de contradição na sociedade

“Quando o coração é puro não pode deixar de amar, porque encontrou a fonte do amor, que é Deus” – Cura d`Ars (1)

O sacerdote não pode viver sem o confessionário, o “lugar santo” no qual a misericórdia de Deus se encontra com a fragilidade humana. O sacerdote está chamado a redescobrir este aspecto do seu ministério e a vivê-lo com plena disponibilidade, comenta o cardeal Beniamino Stella, prefeito da Congregação para o Clero, ao jornal L`Osservatore Romano.

O mês de agosto, dedicado a refletir e a rezar pelas vocações cristãs, nos oferece um momento oportuno para extrairmos propósitos concretos desta bela expressão usada pelo Cardeal Stella para descrever o confessionário: lugar santo no qual a misericórdia de Deus se encontra com a fragilidade humana”.  Se o sacerdote não pode viver sem o confessionário no seu ministério, o que se dirá dos católicos sem a assistência do Sacramento da Penitência no seu viver cotidiano?

São João Batista Maria Vianey, o Cura d`Ars, modelo e patrono dos párocos, cuja festa litúrgica celebramos em 04 de agosto, sem dúvida, é a expressão concreta do sacerdote que fez do confessionário, o “lugar santo” para encontro das almas com a misericórdia divina.  Por horas infindáveis, ouvia atentamente os fiéis e administrava o sacramento da Penitência. E, se conhecermos um pouco sobre a vida do Cura d`Ars, veremos que havia até mesmo dúvidas se poderia vir algum dia se tornar Padre Católico.

São João Maria Vianey, trabalhador do campo e com poucas qualidades intelectuais, percebeu que Deus o chamava a ser sacerdote. Graças à bondade e a paciência do pároco de Balley, que foi seu preceptor, conseguiu penosamente terminar os seus estudos eclesiásticos e, se ordenar em 1815, quando contava com 29 anos de idade.

Segundo critérios humanos, o Cura d`Ars, era considerado de pouca valia em função da sua modesta capacidade intelectual e, por essa razão foi encaminhado para uma paróquia tida na época quase insignificante da diocese de Lyon: um povoado de cerca de 230 habitantes chamado Ars. Após anos sem pároco, essa pequena comunidade estava “espiritualmente gelada”. No entanto, a piedade deste humilde sacerdote transformou-a em extraordinário centro de irradiação apostólica por toda a França e, conhecida em toda a Europa.

“Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me…” (Mt 16, 24). O santo Cura d’Ars, segundo se afirmam, tinha meditado muitas vezes estas palavras de nosso Senhor e esforçava-se em colocá-las em prática (2).

A transformação ocorrida na vida de João Maria Vianey, nos ensina que o Padre participa das limitações e anseios da humanidade, mas ao mesmo tempo, é alguém invadido pelo mistério de Deus. O sacerdote, dizia São Josemaria Escrivá, Fundador do Opus Dei, foi consagrado duas vezes para Deus: no Batismo, como todos os cristãos e no sacramento da Ordem.

No sacramento da Ordem, o sacerdote é constituído ministro de Deus e dispensador dos seus tesouros, como o chama São Paulo. Esses tesouros são: a Palavra divina na pregação; o Corpo e o Sangue de Cristo, que administra na Santa Missa e na Comunhão; e a graça de Deus nos sacramentos. (3)

“O meu segredo é bem simples, dizia o Cura d´Ars, é dar tudo e nada guardar” (4). Com uma vida desapegada dos bens materiais, ele amou os desvalidos e os mais simples. Entregou-se com coragem extraordinária ao púlpito e ao confessionário pela conversão dos pecadores. Sua catequese tinha uma constante preocupação de ser acessível até aos mais rudes, porém com uma radical e filial fidelidade à Igreja e profunda sensibilidade pelos mistérios da fé católica.

O cardeal Dom Eugênio Sales dizia que “a vida cristã de uma sociedade tem íntima relação com os seus Padres. A santidade destes, promovem e preservam a saúde espiritual e moral dos fiéis com enorme e transformadora repercussão nas estruturas sociais e econômicas” (5). O que o Cura d`Ars fez em sua paróquia é uma prova desta assertiva.

Conta-se que certa vez, perguntaram a um advogado de Lyon que regressava de Ars, o que tinha visto ali. Ele respondeu: “Vi Deus num homem” (6). 

É o que devemos pedir ao Senhor que se possa dizer de cada sacerdote, pela sua santidade de vida, pela sua união com Deus, pela sua preocupação pelas almas. Mas, não somente aos Padres, a todos Cristo deixou o mesmo mandamento: “Sede, pois perfeitos, como vosso Pai celestial é perfeito” (Mateus 5, 48). Ainda, que obviamente, aos sacerdotes exige-se mais.

Que Nossa Senhora, Maria Santíssima, interceda por todos os sacerdotes e, a nós pecadores, para que tenhamos sempre o confessionário como o “lugar santo” no qual a misericórdia de Deus se encontra com a fragilidade humana.

Por Alecsandro Araujo de Souza

Referências bibliográficas:

  1. Carta Encíclica Sacerdotti Nostri Primordia do Sumo Pontífice Papa João XXIII sobre o Sacerdócio no Centenário da Morte do Santo Cura d`Ars. Ponto12.
  2. Carta Encíclica Sacerdotti Nostri Primordia do Sumo Pontífice Papa João XXIII sobre o Sacerdócio no Centenário da Morte do Santo Cura d`Ars. Ponto 11.
  3. Francisco Fernandez- Carvajal. Falar com Deus. 04 de agosto. Sobre o Cura d`Ars.
  4. Carta Encíclica Sacerdotti Nostri Primordia do Sumo Pontífice Papa João XXIII sobre o Sacerdócio no Centenário da Morte do Santo Cura d`Ars. Ponto12.
  5. Artigo: O Cura d`Ars.  Cardeal Dom Eugenio Sales. Agosto de 2009.
  6. Cit. por João Paulo I, Alocução, 7-IX-1978;

 

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