Entre o Céu e a Terra: O seu Coração

O sacerdote não pode viver sem o confessionário, o ‘lugar santo’ no qual a misericórdia de Deus se encontra com a fragilidade humana”, nos lembrou o cardeal Beniamino Stella, prefeito da Congregação para o Clero, em entrevista ao jornal L’Osservatore Romano.

Se o sacerdote não pode viver sem o confessionário, o mesmo pode ser dito de nós, os leigos católicos. E a Igreja Católica, como um grande Hospital de Campanha, reservou esse “lugar santo” para que as nossas feridas sejam curadas por meio da misericórdia divina. Mas será que estamos conscientes do papel do sacramento da Penitência em nossa vida cristã?

O Catecismo da Igreja Católica o expressa assim: “aqueles que se aproximam do sacramento da Penitência obtêm da misericórdia de Deus o perdão da ofensa a Ele feita e, ao mesmo tempo, são reconciliados com a Igreja, que tinham ferido com o seu pecado, a qual, pela caridade, exemplo e oração, trabalha pela sua conversão”. (Catecismo, 1422).

Somos chamados à santidade, assim nos ensina a Igreja desde sua fundação por Cristo, e o sacramento da Penitência é um dos meios pelo qual podemos atingir essa perfeição ao qual todos os batizados são chamados. Por meio dele somos perdoados de nossos pecados e também instruídos a levar uma vida ordenada à vontade de Deus.

“Livrar-me dos meus pecados”, essa foi uma das respostas dada pelo escritor inglês G.K. Chesterton quando se converteu ao catolicismo e como não poderia deixar de ser, causou na época forte furor e impacto na sociedade inglesa. Um dos grandes escritores ingleses do início do século XX e com forte presença nos meios intelectuais da Inglaterra, Chesterton, em uma das inúmeras respostas que deu sobre o porquê de sua conversão disse o seguinte:
“Quando as pessoas me perguntam… por que você se juntou à Igreja de Roma? A primeira resposta essencial, mesmo que parcialmente ambígua, é para ‘livrar-me dos meus pecados’. Pois não há nenhum outro sistema religioso que realmente professe livrar-se dos pecados das pessoas”. (Cf. livro: Autobiografia)

Sem dúvida, podemos dizer que Chesterton tinha plena consciência do papel reservado por Cristo à sua Igreja, conforme nos narra o evangelista Mateus: “Em verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra, será ligado no Céu; e tudo o que desligardes sobre a terra, será desligado no Céu” (Mateus 18, 18).

Jesus confiou a Pedro uma autoridade específica: o “poder das chaves” que designa a autoridade para governar a Casa de Deus, que é a Igreja. […] O poder de “ligar e desligar” significa a autoridade para absolver os pecados, pronunciar juízos doutrinais e tomar decisões disciplinares na Igreja. Jesus confiou esta autoridade à Igreja pelo ministério dos Apóstolos e particularmente pelo de Pedro, o único a quem confiou explicitamente as chaves do Reino, conforme nos ensina o Catecismo da Igreja Católica. (Catecismo, 553).

Este santo Sacramento oferecido somente pela Igreja Católica, ao longo dos séculos, tem sido responsável por promover e preservar a saúde espiritual e moral da sociedade humana. Por isso, acessar esse lugar santo requer de cada católico uma sincera conversão do coração e uma forte disposição de ordenar a vida em direção à eternidade.

Temos que ter o cuidado de não fazer do confessionário depósito de angústias ou desejos humanos não satisfeitos, mas que nem sempre nos levam a cumprir a vocação na qual fomos chamados por Deus: a de sermos santos.

A conversão do Coração

Já é sabido por todos nós, mesmo que não tenhamos parado para refletir na questão detalhadamente, que no seu interior o homem preocupa-se com o que ama, o seu pensamento e a sua vontade gravitam em torno desta preocupação fundamental que inspira tudo o que virá a fazer. “Porque onde está o teu tesouro, aí está também o teu coração” (Mateus 6, 21), já nos advertia Cristo.

O termo coração, perdeu hoje, quase que por completo, o seu sentido específico, e é empregado atualmente no sentido que o empregaram Rousseau e os escritores românticos, para designar o sentimento ou a sensibilidade, o que nos impede de compreender o verdadeiro significado dos textos antigos, levando-nos a entender por sentimento o que na realidade é o elemento mais profundo do ser em que a vontade escolhe o seu fim de um modo absoluto, amando-o acima de tudo e subordinando-o absolutamente tudo.

É nesta orientação essencial do ser, que no vocabulário do Novo Testamento, os Padres da Igreja, os autores espirituais recobram o sentido deste texto do Evangelho de São Lucas: “O homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem; o homem mau, do mau tesouro tira o mal; porque a boca fala da abundância do coração”. (Lucas 6,45)

Logo, conhecer e amar a vontade divina – esse bom tesouro – torna-se o cerne da vida interior do cristão, pois deste conhecimento procederão todos os pensamentos e atividades do homem; isso é o que explica verdadeiramente o homem e a direção de sua vida.

A conversão do coração, a penitência interior é o apelo que Cristo faz a todos os cristãos. Sem ela, as obras de penitência são estéreis e enganadoras. Assim expressa o Catecismo da Igreja Católica, em seu ponto 1431:
“A penitência interior é uma reorientação radical de toda a vida, um regresso, uma conversão a Deus de todo o nosso coração, uma rotura com o pecado, uma aversão ao mal, com repugnância pelas más ações que cometemos. Ao mesmo tempo, implica o desejo e o propósito de mudar de vida, com a esperança da misericórdia divina e a confiança na ajuda da sua graça. Esta conversão do coração é acompanhada por uma dor e uma tristeza salutares, a que os Santos Padres chamaram animi cruciatus (aflição do espírito), compunctio cordis (compunção do coração).

A penitência não é obra exclusivamente humana, um reajustamento interior resultante dum forte domínio de si próprio, que coloca em jogo todos os impulsos do conhecimento próprio e uma série de decisões enérgicas. “A conversão é, antes de mais nada, obra da graça de Deus, a qual faz com que os nossos corações se voltem para Ele: ‘Convertei-nos, Senhor, e seremos convertidos’ (Lm 5, 21). Deus é quem nos dá a coragem de começar de novo” (Catecismo, 1432).

Que Nossa Senhora, Maria Santíssima, que soube guardar e meditar todas as coisas em seu coração, nos ensine, sobretudo nesse tempo quaresmal que em breve se inicia, a conhecer e a amar a vontade de Deus e a tirar bons propósitos deste encontro da misericórdia de Deus com a fragilidade da alma humana nos confessionários.

Por Alecsandro Araujo de Souza
Referências:
Daujat, Jean. Viver o Cristianismo. Coleção Éfeso, 1954.Editorial Aster. Lisboa.
Chesterton, G.K. Autobiografia. Ecclesiae Editora
Evangelho de São Mateus 6,21; 8,18 e Lucas 6,45.
Catecismo da Igreja Católica pontos 553, 1422, 1431 e 1432.

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