Mais vale o dia da morte que o dia do nascimento” (Eclesiates 7,1). Apesar de ser a única certeza da vida, esquecemos constantemente da morte e vivemos como se ela não fosse um dia bater à nossa porta. A verdade de que um dia teremos de deixar esse mundo amedronta o homem. O medo do desconhecido e a separação de todas as coisas que conhecemos provocam a atitude humana de esconder de si mesmo a realidade última da vida.
Se somos tão apegados a essa vida e queremos desfrutar dela como se não tivesse um fim, a Igreja, na Quarta-Feira de Cinzas, nos propõe uma atitude diferente: a de encarar de frente a morte. Se esse olhar nos infunde temor, pode, por outro lado, iluminar a nossa vida.
Como pode isso ocorrer? Como pode a realidade que põe fim a tudo que temos, que conquistamos e que amamos iluminar a nossa vida? Não seria o contrário? Não seria melhor se não morrêssemos e pudéssemos aproveitar para sempre de todos os bens desta vida?
A Igreja responde a esses questionamentos com a esperança da vida eterna. Nada que podemos possuir e desfrutar nessa vida se compara com o que teremos no céu. “Olhos jamais viram, ouvidos jamais ouviram, coração jamais sentiu o que Deus preparou para os que O amam” (I Co 2,9), diz São Paulo. Deus, em sua Providência, transformou a morte – castigo do pecado original (cf. Gn 2) – em uma passagem necessária para sermos verdadeiramente felizes. Se a morte nos amedronta, sem ela não seremos felizes, pois não teremos eternamente a verdadeira fonte da felicidade: Deus.
Se é assim, a única questão importante para nossa vida é a morte. Preparar-se constantemente para ela é a atitude do homem prudente, que não coloca seu dinheiro num investimento que sabe desde já falido. Assim são os que vivem apenas para este mundo: colocam toda a sua felicidade em coisas que, sabidamente, terão um fim. O cristão, ao contrário, coloca suas fichas na vida eterna e evita atar seu coração às coisas passageiras.
Saber morrer bem torna-se o único conhecimento necessário, pois, morrendo-se bem, obtém-se a felicidade eterna e, morrendo-se mal, afastado de Deus, o que nos restará é a dor e a tristeza sem fim. Nada há de mais importante, não há investimento mais seguro e mais necessário, não há pretensão mais importante.
Como, então, morrer bem? É o que a Igreja nos ensina com a frase dita pelo Sacerdote quando nos impõe as cinzas na Quarta-Feira de Cinzas: “Lembra-te que és pó, e ao pó hás de voltar” (Gn 3, 19).
Uma dessas verdades é futura e a outra, presente. A futura é conhecida por todos; a presente desconhecida. A futura nos diz que voltaremos ao pó. Basta ir a qualquer cemitério e abrirmos qualquer sepulcro para vermos a certeza dessa verdade. A presente diz que já somos pó. Essa verdade é incerta e desconhecida, pois não vemos o pó que somos, apenas o pó que seremos. Entretanto, a frase é clara: já somos pó.
Mas não apenas isso nos ensina a Santa Igreja. A frase também nos ensina que, para morrermos bem, devemos morrer durante esta vida. Para retornar bem ao pó que seremos devemos nos lembrar do pó que somos. “Sê desde logo o pó que és, e não temerás depois ser o pó que hás-de ser. Sabeis, Senhores, porque tememos o pó que havemos de ser? É porque não queremos ser o pó que somos”, disse brilhantemente Padre Antônio Viera em um de seus sermões.
Morre bem aquele que morreu já nesta vida. Morrer nesta vida significa morrer para o pecado, para as desordens, para o egoísmo e para si mesmo. É desapegar-se dos bens passageiros para ater-se aos eternos. Quem morre dessa forma, não temerá a morte do corpo. Mas para aqueles que morrem apenas no corpo, a morte se apresenta terrível, pois tirará deles, forçadamente, tudo o que tinham.
Temos duas opções: ou nos desapegamos dos bens passageiros livremente e por amor, ou por coação. Ou nos preparamos para a morte desde já ou deixamos para pensar nela no último momento. Não há remédio para a morte depois, mas há remédio antes.
Portanto, não deixemos para amanhã a importante questão da salvação de nossa alma. Preparemo-nos desde já para encontrar a Deus. Desapeguemo-nos do passageiro, apeguemo-nos ao eterno. Morramos ao pecado o quanto antes. Se tivermos um pecado a ser confessado, confessemo-lo logo. O amanhã é incerto; a morte certa. Não vivamos para o incerto, para o passageiro. Vivamos na verdade, na certeza dada pela razão e iluminada pela fé: fomos feitos para Deus e, se não morrermos antes da morte com Cristo, não viveremos depois da vida com Ele
Por Gustavo Catania Ramos

