Como era justo”, assim o Evangelho de São Mateus menciona São José. Numa única e breve palavra, o evangelista encerra tudo a respeito de José – justo –, como bem destaca Michel Gasnier, em seu livro magistral “José, o silencioso”. E, se pensarmos um pouco, nem poderia ser diferente para aquele que iria ser o Pai de Cristo, o custódio de sua casa na terra.

O “justo” do Antigo Testamento é aquele a quem o Evangelho dá o nome de santo, ou seja, nesse contexto justiça e santidade exprimem a mesma realidade. “Justiça”, no contexto do Evangelho em que é citado São José não é apenas a virtude moral que consiste em “dar aos outros aquilo que lhes é devido”. Muito mais do que isso, é o conjunto de perfeições que fazem com o homem esteja totalmente de acordo com a Lei de Deus, em harmonia completa com sua vontade. A palavra “justo” designa, pois, na linguagem bíblica, todas a virtudes reunidas conforme a vontade e a graça de Deus, ou seja, a santidade.

Eis a maneira simples e direta com que o evangelista deixou registrado a participação daquele cujo desígnio divino reservou a belíssima missão de ser esposo de Maria, Mãe de Deus e, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. “São dele os pesos, as responsabilidades, os riscos e as fadigas da pequena e singular família. É dele o serviço, o trabalho, e o sacrifício, na penumbra do quadro evangélico, no qual é agradável contemplá-lo” (Paulo VI, Homilia de 19 de março de 1969).

Inspirando-se no Evangelho, os Padres da Igreja, desde os primeiros séculos, puseram em relevo que São José, assim como cuidou com amor de Maria e se dedicou com empenho jubiloso à educação de Jesus Cristo, assim também guarda e protege o seu Corpo místico, a Igreja, da qual a Virgem Santíssima é figura e modelo. (Cf. S. Ireneu, Adversus Haereses, IV, 23, 1: S. Ch. 100/72, pp. 692-694)

Ora, não devemos esquecer do que São Paulo nos exorta em sua Carta aos Tessalonicenses por parte de Cristo, Nosso Senhor: “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1Ts4,3). Logo, é preciso aproveitar o exemplo do Patriarca São José para crescermos em vida interior. Crescer em vida interior é uma exigência da nossa vocação divina.

O sacrifício total, que José fez da sua existência inteira, às exigências da vinda do Messias à sua própria casa, encontra a motivação adequada na “sua insondável vida interior, da qual lhe provêm ordens e consolações singularíssimas; dela lhe decorrem também a lógica e a força, própria das almas simples e límpidas, das grandes decisões, como foi a de colocar imediatamente à disposição dos desígnios divinos a própria liberdade, a sua legítima vocação humana e a felicidade conjugal, aceitando a condição, a responsabilidade e o peso da família e renunciando, por um incomparável amor virgíneo, ao natural amor conjugal que constitui e alimenta a mesma família”.

O que sabemos sobre São José, que se tornou patrono da Igreja Católica, por Pio IX, em 1870, é muito pouco.

Porém, como destaca o Santo Papa João Paulo II, o “texto evangélico especifica o tipo de trabalho, mediante o qual José procurava garantir a sustentação da Família: o trabalho de carpinteiro. (…) Se a Família de Nazaré, na ordem da salvação e da santidade, é exemplo e modelo para as famílias humanas, é o analogamente também o trabalho de Jesus ao lado de José carpinteiro. (…) Graças ao seu banco de trabalho, junto do qual exercitava o próprio ofício juntamente com Jesus, José aproximou o trabalho humano do mistério da Redenção. Trata-se, em última análise, da santificação da vida cotidiana, no que cada pessoa deve empenhar-se, segundo o próprio estado, e que pode ser proposta apontando para um modelo acessível a todos: São José”.

E continua: “São José é o modelo dos humildes, que o Cristianismo enaltece para grandes destinos; é a prova de que para ser bons e autênticos seguidores de Cristo não se necessitam “grandes coisas”, mas requerem-se somente virtudes comuns, humanas, simples e autênticas. Os Evangelhos falam exclusivamente daquilo que José “fez”; no entanto, permitem-nos auscultar nas suas “ações”, envolvidas pelo silêncio, um clima de profunda contemplação. São José estava cotidianamente em contato com o mistério “escondido desde todos os séculos”, que “estabeleceu a sua morada” sob o teto da sua casa. Isto explica, por exemplo, a razão por que Santa Teresa de Jesus, a grande reformadora do Carmelo contemplativo, se tornou promotora da renovação do culto de São José na cristandade ocidental”.

PAPA FRANCISCO

No encontro com as famílias filipinas em Manila, em janeiro de 2015, o Papa Francisco revelou quem o ajuda a resolver problemas e superar dificuldades: São José, o pai adotivo de Jesus e patrono da Igreja. O pontífice contou como se confia à intercessão do santo:
“Eu gostaria de dizer a vocês também uma coisa muito pessoal. Eu gosto muito de São José porque é um homem forte e de silêncio. No meu escritório, eu tenho uma imagem de São José dormindo, e dormindo, ele cuida da Igreja. Quando eu tenho um problema ou uma dificuldade, e o escrevo em um papelzinho e o coloco embaixo da imagem de São José, para que ele sonhe sobre isso. Isso significa: para que ele reze por este problema”, afirmou.

O Papa falou sobre esse hábito durante discurso às famílias, ao citar o santo como modelo de silêncio, abandono em Deus, mas também de ação. São José é citado nos Evangelhos repousando enquanto lhe é revelada a vontade divina em sonho.

Para evitar que o amor se perca, o pontífice pediu as famílias que nunca deixem de lado a capacidade de sonhar, e que estejam atentas a três atitudes: repousar no Senhor, levantar-se com Jesus e Maria e ser voz profética. Ele destacou que Deus se manifesta ao homem nos momentos de repouso e que é essencial encontrar tempo para rezar, em meio aos afazeres diários.

“Esses momentos preciosos de repouso, de descanso com o Senhor na oração são momentos que gostaríamos, talvez, de prolongar. Mas, como São José, quando ouvimos a voz de Deus devemos despertar, levantar e agir”, disse.

PATRONO DA IGREJA CATÓLICA

Recordando que Deus confiou os inícios da nossa Redenção à guarda desvelada de São José; e, ainda, a graça de caminhar diante do mesmo Deus pelas vias da santidade e da justiça, amparados pelo exemplo e pela intercessão de São José, a Igreja celebra a Festa do Patriarca, patrono da Igreja Católica, no dia 19 de março.

Em tempos difíceis para a Igreja, Pio IX, em 1870, desejando confiá-la à especial proteção do Santo Patriarca José, declarou-o “Patrono da Igreja católica”. Nos dias de hoje, dizia o Santo Padre João Paulo II, temos ainda numerosos motivos para rezar da mesma maneira: “Afastai de nós, ó pai amantíssimo, esta peste de erros e de vícios…, assisti-nos propício, do céu, nesta luta contra o poder das trevas …; e assim como outrora livrastes da morte a vida ameaçada do Menino Jesus, assim hoje defendei a santa Igreja de Deus das ciladas do inimigo e de todas as adversidades”. Hoje ainda temos motivos que perduram para recomendar todos e cada um dos homens a São José.

No crescimento humano de Jesus “em sabedoria, em estatura e em graça” teve uma parte notável a virtude da laboriosidade, dado que “o trabalho é um bem do homem”, que “transforma a natureza” e torna o homem, «em certo sentido, mais homem». O Papa Pio XI, numa oração riquíssima e que recomendamos sempre usá-la antes de iniciarmos os nossos trabalhos, nos diz assim:
“Ó Glorioso São José, modelo de todos os que se dedicam ao trabalho, alcançai-me a graça de trabalhar com espírito de penitência, em expiação dos meus pecados; de trabalhar com consciência, pondo o culto do dever acima de minhas inclinações; de trabalhar com consciência, pondo o cumprimento do meu dever acima de minhas inclinações naturais; de trabalhar com agradecimento e alegria, olhando como uma honra o poder de desenvolver por meio do meu trabalho os dons recebidos de Deus.

Alcançai-me a graça de trabalhar com ordem, constância, intensidade e presença de Deus, sem jamais retroceder ante as dificuldades; de trabalhar, acima de tudo, com pureza de intenção e despego de mim mesmo, tendo sempre diante dos olhos todas as almas e as contas que prestarei a Deus: a do tempo perdido, das habilidades inutilizadas, do bem omitido e das vaidades estéreis em meus trabalhos, tão contrárias à obra de Deus.

Tudo por Jesus, tudo por Maria, tudo à vossa imitação, ó Patriarca São José! Esse será o meu lema na vida e na hora da morte. Amém”

Que a Santíssima Virgem Maria, esposa de São José, que teve nele o seu guardião e protetor para as horas mais difíceis, nos ensine a amá-lo, a respeitá-lo e a ir a José para conformar a nossa vontade com a vontade de Deus.

Por Alecsandro Araujo de Souza
Referências:
1. José, o silencioso. Michel Gasnier. Editora Quadrante.
2. Exortação Apostólica Redemptoris Custos. Papa João Paulo II.
3. Entrevista do Papa Francisco ao site Aleteia: A Imagem de São José dormindo que o Papa Francisco guarda no quarto. 19 de março de 2015
4. Oração do Trabalho. Seleta de Orações. Editora Quadrante.

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