Nosso paroquiano João nos envia por e-mail a seguinte mensagem:
“Eu acreditava que o matrimônio e o celibato tinham valores equivalentes, mas recentemente, estudando mais sobre o assunto, me dei conta de que o celibato é um chamado superior ao do matrimônio, sendo um bom e o outro melhor. Desde então, minha dúvida vocacional entre o matrimônio e a vida celibatária cresceu, pois algumas dúvidas vêm me incomodando bastante:
Se eu me casar e não for religioso, sacerdote ou leigo consagrado, Deus e a Virgem Maria me amarão menos? Pois ouvi falar, por exemplo, que a Virgem tem os sacerdotes como filhos preferidos.
Se eu for casado e conseguir alcançar a santidade, necessariamente serei menos santo do que um celibatário? Minha capacidade de amar será necessariamente menor se eu escolher pelo matrimônio?
Já que é sempre por graça de Deus que alguém consegue viver a castidade no celibato, então qualquer pessoa poderia viver o celibato?”

Caro João, obrigado por compartilhar conosco suas dúvidas.
Começando pelo final da sua pergunta, você tem razão em acreditar que cada um de nossos atos virtuosos – até o menor deles! – depende da graça de Deus. “Sem Vosso auxílio, ó Espírito Santo, nada há de inocente no homem”, cantamos no Veni Sancte Spiritus. Negar isso seria incorrer na heresia do pelagianismo. Quando, portanto, um celibatário consegue guardar fielmente a castidade em atos e pensamentos, ele só o faz porque é auxiliado da graça.

Disso não se segue, porém, que Deus não destine certas almas a caminhos específicos para segui-lo. De fato, ao mesmo tempo em que ensina que cada homem é chamado por Deus à perfeição da caridade (vocação universal à santidade), a Santa Mãe Igreja adverte-nos também que existem chamados próprios a cada indivíduo: alguns são vocacionados à vida matrimonial, e outros à fecundidade espiritual do celibato (os leigos consagrados, os religiosos e os sacerdotes). Não se trata, portanto, de “escolher” uma dentre várias opções que nos são oferecidas; antes, cada um de nós deve procurar assentir, dizer Fiat!, ao plano que Deus tem para si: “Não fostes vós quem me escolhestes; fui eu que vos escolhi e vos designei” (Jo15,16).

Qualquer que seja a nossa vocação particular, ela é imerecida e grandiosa. E não pense que a vocação laical seja algo de pequeno. Fato é que existem muitos “locais e circunstâncias em que só por meio dos leigos a Igreja pode ser o sal da terra” (Lumen Gentium, 33): uma fábrica, uma corte de justiça, uma empresa, etc. – e desta constatação fica evidente que existe um apostolado próprio dos leigos. Em verdade, todos os atos, trabalhos, amizades e descansos do leigo, e até as incomodidades da vida, se suportadas com paciência, podem ser oferecidas como sacrifícios espirituais agradáveis a Deus (1Ped2,5; LG 34) – e de modo todo especial no altar da Eucaristia. Não é à toa que aquele tão belo “Mãe, vem nos ensinar a fazer da vida uma oblação!” foi escrito como hino de ofertório do Santo Sacrifício da Missa.

Outro ponto em que você tem razão é perceber que algumas pessoas recebem sim graças especiais de Deus, que lhes permitem alcançar níveis maiores de santidade. É claro que todos aqueles que, morrendo na amizade de Cristo, são salvos e chegam um dia ao Céu fruem da perfeita felicidade – no entanto, alguns gozarão mais dela do que outros. Uma metáfora pode ajudar a entendê-lo: um cadinho, um galão e uma piscina olímpica podem todos estar igualmente repletos – e no entanto cada um terá muito (muito mesmo!) mais água que outro.

Estas graças especiais, no entanto, não necessariamente estão vinculadas ao estado de vida de cada fiel: em verdade existem muitos santos não-sacerdotes que chegaram a níveis de santidade enormemente maiores que muitos sacerdotes – pensemos, por exemplo, no seráfico São Francisco de Assis, que nunca foi ordenado. Ou, ainda, pensemos na mais gloriosa de todos os santos; aquela que, sozinha, tem mais glória que todos os demais santos e anjos juntos: Maria Santíssima – ela não era religiosa, muito menos sacerdote.

Tampouco devemos ceder à tentação de sentir inveja dos chamados especiais que nossos irmãos recebem: com todos os batizados, somos verdadeiramente membros de um único corpo místico, e as graças que Deus concede a um seu filho repercutem no bem de todos. Analogamente: se Mozart recebeu dons musicais tais que, aliados à sua muita diligência e labor, produziram um legado musical inigualável, nós todos nos beneficiamos disso, ouvindo Requiems, Sonatas, Sinfonias e Concertos.

Por fim, um conselho prático para você, que está passando por dúvidas vocacionais: procure o acompanhamento de um bom sacerdote: um que lhe recomende a assiduidade aos Sacramentos (a Sagrada Eucaristia mas também a Confissão, profundamente sincera e penitente!), e dedique generoso tempo cotidiano à oração e ao aprofundamento nas doutrinas da Fé.

Um abraço fraterno em Cristo.
Equipe do Informativo Nossa Senhora do Brasil.

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