Alguns de nossos paroquianos mirins certamente já disseram algo como “Eu não quero ir à Missa: não ganho nada com isso!” E eles, de fato, têm razão: não ganham nada com a Missa – mas isso porque não trazem a ela nada consigo!

Pelo mesmo motivo é que, por um lado, muitos pais e mães não veem graça nos videogames ou desenhos que tanto comovem seus filhos (falo dos bons, pois hoje há muitos que de fato não prestam), ou que, por outro lado, muitas pessoas não têm qualquer desfrute em assistir a uma ópera: se não levarmos conosco algum conhecimento prévio sobre os desenhos, o videogame ou a ópera, está claro que nada disso trar-nos-á muito deleite. Ou ainda: se pudéssemos visitar a colina do Areópago, ignorantes contudo de que aquele fora o lugar da famosa Apologia de Sócrates, durante o processo que culminou com sua condenação à morte por cicuta, ou ainda de que ali mesmo S. Paulo fizera aos atenienses seu famoso discurso sobre o “deus desconhecido” (At17,16-34) – ignorando tudo isso, que grande proveito espiritual teríamos da visita, além de talvez um algum prazer estético com o lugar, ou mesmo certo incômodo com o número de afluentes?

De modo que só poderemos ganhar algo da Missa se soubermos do que se trata, e se trouxermos-lhe algo conosco. Muito simplesmente, então, a Missa é a continuação do Calvário: é pegarmos com nossas mãos a Cruz, com o Crucificado nela, e plantarmo-la aqui e agora. E para tirar fruto dela, devemos trazer conosco nossas pequenas cruzes: para as crianças, a dificuldade com as matérias da escola ou a obediência aos pais; os adultos têm suas cruzes próprias.

Mas por que ir tantas vezes à Missa? Ela não é sempre igual? Assim não raro nos indaga o mundo. Imaginemos que pudéssemos viajar até a Grécia Antiga e testemunhar a representação de uma grande tragédia, uma capaz de mover os corações e purificar as almas – o que para os sábios gregos era a própria razão de ser do teatro. “Que grande pena!”, diríamos, “Toda a humanidade deveria assistir a esta peça!” Mas como fazê-lo? Seria preciso estabelecer companhias de teatro, que pudessem levá-la a todo o orbe, a cada vez usando atores novos, que no entanto diriam as mesmas falas, e representariam sempre o mesmo drama, em diferentes palcos do mundo. Da mesma forma Cristo, quando instituiu a Missa, deu a seus discípulos a ordem de repeti-la sempre, em sua comemoração (cf. Lc22,19; 1Cor11,24).

A Missa pode também ser chamada de uma grande tragédia – que, como tal, tem três Atos. No Primeiro (Ofertório), nos oferecemos a Cristo; no Segundo Ato (Consagração) nós morremos com ele; e enfim no Terceiro (Sagrada Comunhão), tendo morrido com Cristo, dele ganhamos uma nova vida.

No Ato Primeiro, portanto, pede-nos Jesus, em sua natureza glorificada, que lhe emprestemos nossa natureza humana, para que possa nela renovar sua paixão e morte. Daí que no Ofertório apresentemos pão e vinho ao altar, como se fossem nós mesmos: primeiro porque são as duas substâncias que melhor simbolizam a unidade (a uniformidade do pão e do vinho advêm da multiplicidade de grãos de trigo e de uvas), e segundo porque, sendo os dois alimentos que mais tradicionalmente alimentaram a humanidade, remetem eles ao sacrifício de nossa vida. Adicionalmente, ao fazermos desde já a inteira submissão a Deus de uma parcela da criação, no pão e no vinho, antecipamos a submissão total do universo que se dará com o Novo Céu e a Nova Terra.

No Segundo Ato (Consagração), então, nós morremos com Cristo. Se a Missa, com efeito, é o atualizar ou re-presentar (no sentido de tornar novamente presente) a morte de Cristo, e se dela participamos unidos a Ele, então naturalmente nós também devemos morrer – sem o que nunca poderíamos reviver com Ele.

E esta morte consiste na separação do sangue e do corpo. Cristo, afinal, morreu drenado de praticamente todo seu sangue: os soldados certificaram-se de que Ele “já estava morto” quando, abrindo-lhe o lado com uma lança, “saiu sangue e água” (Jo19,33-34). No Antigo Testamento, aliás, Deus já antecipava que nossa redenção viria por este preciosíssimo sangue quando dizia que “a vida da carne está no sangue, e eu o dei a vós, sobre o altar, para expiar por vossas vidas, pois o sangue faz a expiação pela vida” (Lev17,11; cf. Dt12,23).

Na Santa Missa, esta separação é simbolizada pela Consagração segregada do pão e do vinho – o Padre, afinal, não diz “Isto é meu Corpo e meu Sangue”, senão “Isto é meu Corpo” e “Isto é meu Sangue”. Devemos, então, morrer com Cristo: morrer para o orgulho, a luxúria, a inveja, a gula, a preguiça, a avareza e a ira.

Na verdade, as palavras da Consagração devem também ser entendidas em seu sentido secundário. Bem sabemos que em seu sentido primário a Consagração, quando dita por um Padre validamente ordenado, significa e produz realmente a mudança do pão no verdadeiro Corpo de Cristo, e do vinho no verdadeiro Sangue de Cristo (cf. Jo6,30-58). Ao mesmo tempo, porém, cada fiel deveria na Consagração dizer mentalmente aquelas palavras em seu sentido secundário: “isto é o meu corpo”, “isto é o meu sangue”. Algo como: “Pouco me importa se depois desta Missa os acidentes da minha vida permanecem como estão: meus deveres, minha profissão e meus lazeres, minhas responsabilidades na vida – tudo isso são espécies (aparências)! Que fiquem todas como estão, mas aquilo que eu sou, substancialmente – corpo, alma, inteligência, vontade: eu sou todo teu, Senhor! Eis a totalidade de mim mesmo: eu morro contigo!” Eis a Consagração.

No Terceiro Ato (Sagrada Comunhão), enfim, ganhamos uma nova vida. Existe em toda a natureza uma lei biológica da transformação, pela qual as formas de existência inferiores dizem às superiores: “Se não me comes, não tens a vida em ti”. Assim o dizem os minerais às plantas, e estas aos animais, e assim também o dizem as plantas e os animais ao homem: “Se não me comeres, não terás a vida biológica em ti”. Semelhantemente nos diz Cristo, presente na Eucaristia, porém acerca da vida do espírito: “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos” (Jo6,53). Numa analogia com o sacramento do Matrimônio, poderíamos mesmo dizer que a união nupcial do marido e da mulher está para a vida conjugal assim como a Sagrada comunhão está para a vida espiritual: ela produz a união de nossa alma em Cristo.

Para que esta nova vida brote em nós, contudo, é também preciso que neguemos a nós mesmos, e de certa forma morramos para nossa existência pretérita. De fato, naquelas mesmas relações entre as diversas hierarquias de seres da natureza, cada um deles diz ao que lhe são inferiores: “Não podes viver em mim do jeito que és: tens de ser mudado! Morre para ti mesmo, e então podes viver em mim.”

As plantas dizem-no aos minerais: “Se quereis tomar parte da minha vida orgânica, deveis morrer para vossa forma de existência antiga”; os animais o dizem às plantas: “Se quereis participar de minha vida superior, deveis ser arrancadas da terra, trituradas e digeridas”; o homem di-lo às plantas e aos animais: “Se quereis participar de meu organismo racional, submetei-vos à navalha”. E da mesma forma só podemos participar da vida divina de Cristo se algo em nós morrer: “Quem não carrega sua cruz e não vem após mim, não pode ser meu discípulo” (Lc14,27). De fato, todas as vezes que comemos desse pão e bebemos desse cálice proclamamos a morte do Senhor, até que ele venha (cf. 1Cor11,26).

Quando acabar nosso brevíssimo tempo desta milícia sobre a terra, e formos apresentados diante do trono do Juízo, é bem possível que nosso maior arrependimento seja nossa infidelidade e leviandade para com a Santa Missa. Quantas vezes não comparecemos de má vontade, sem zelo, enxergando a Missa como uma obrigação que só deve ser cumprida nos dias de preceito. Se entendêssemos minimamente o que ela é, desejaríamos ardentemente poder tomar parte da Missa todo dia. A Missa é, verdadeiramente, o Céu na Terra.

 

Por Fulton J. Sheen

Adaptado por Gil Pierre de Toledo Herck

Fonte: Homilia The Meaning of the Mass, do Ven. Fulton Sheen, disponível em vídeo na internet.

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