Ao escrevermos estas linhas, em meados de março, uma aura de pavor e mistério envolve o Covid-19: as manchetes dizem que as “Bolsas desabam em todo o mundo por pânico com os impactos do coronavírus” ou que o “Pânico pelo coronavírus afunda Bolsas pelo mundo em queda livre”. De fato, ainda não sabemos com segurança os dados reais de difusão nem as possíveis consequências da tão alardeada pandemia. O que, no entanto, bem sabemos é que na história da Igreja as pestes sempre foram consideradas flagelos divinos, contra os quais o principal remédio era a oração e a penitência. Foi o caso de Roma, em 590, quando foi eleito o Papa Gregório I.
A Itália estava então devastada por doenças, fome, enchentes, agitação social e a onda devastadora dos lombardos. Entre 589 e 590, uma violenta epidemia de peste, a terrível lues inguinaria, tendo devastado o território bizantino no leste e o dos francos no oeste, semeara a morte e o terror na península e se abatera sobre a cidade de Roma. Os cidadãos romanos interpretaram essa epidemia como um castigo divino pela corrupção moral da cidade. A primeira vítima da peste foi o Papa Pelágio II, morto em 5 de fevereiro de 590 e enterrado em São Pedro. O clero e o senado romano elegeram Gregório como seu sucessor – o qual, tendo sido praefectus urbis, vivia em sua cela monástica no Monte Célio. Consagrado em 3 de outubro de 590, o novo Papa imediatamente enfrentou o flagelo. Seu contemporâneo e cronista homônimo Gregório de Tours (538-594) registra que, em um memorável sermão proferido na igreja de Santa Sabina, o Papa exortou o povo a seguir, contrito e penitente, o exemplo dos habitantes de Nínive: “Olhai ao redor: aqui está a espada da ira de Deus brandindo sobre todo o povo. A morte súbita nos arrebata do mundo, quase sem nos dar um minuto de tempo. Neste exato momento, quantos são levados pelo mal, aqui à nossa volta, sem sequer pensar na penitência!”
O Papa, portanto, pediu que se levantasse os olhos a Deus – que permite tais tremendos castigos para corrigir seus filhos –, e, para apaziguar a ira divina, ordenou uma ladainha septiforme, ou seja, uma procissão de toda a população romana, dividida em sete cortejos, de acordo com sexo, idade e condição. Cada cortejo partiu de uma igreja diferente em direção à Basílica do Vaticano, acompanhando o passo com o canto das ladainhas – essa é, aliás a origem das chamadas Ladainhas Maiores da Igreja, ou Rogações, com as quais oramos a Deus para nos defendermos das adversidades. Os sete cortejos moviam-se vagarosos entre os prédios da Roma antiga com a cabeça coberta de cinzas e os pés descalços. Enquanto a multidão viajava pela cidade, imersa em um silêncio sepulcral, a praga atingiu um furor tal que, no curto espaço de uma hora, oitenta pessoas caíram no chão mortas. O Pontífice, porém, não cessou um momento de instar o povo a continuar orando, e queria que a imagem da Virgem preservada em Santa Maria Maggiore e atribuída ao evangelista São Lucas fosse trazida adiante da procissão (Gregorii Turonici Historiae Francorum libri decem, Basileae, per Petrum Pernam, 1568, pp. 529-534)
A Legenda Aurea de Tiago de Voragine (1228-1298), compêndio das tradições transmitidas desde os primeiros séculos da era cristã, complementa a crônica de Gregório de Tours e relata que, à medida que a imagem sagrada progredia, o ar se tornava mais são e límpido e os miasmas da praga se dissolviam, como se não pudessem suportar sua presença. Chegados os cortejos à ponte que liga a cidade ao mausoléu de Adriano, conhecido na Idade Média como Castellum Crescentii, ouviu-se subitamente um coro de anjos cantando: “Regina Coeli, laetare, Alleluia – Quia quem meruisti portare, Alleluia – Resurrexit sicut dixit, Aleluia!”. O Papa respondeu então em alta voz: “Ora pro nobis Deum, Aleluia!”
Assim nasceu a Regina Coeli, a antífona com a qual na Páscoa a Igreja saúda Maria, Rainha do Céu, pela ressurreição do Salvador. Entoado o canto, os Anjos se dispuseram em círculo ao redor da imagem de Nossa Senhora – desde então conhecida como Salus Populi Romani –, e Gregório, olhando para cima, viu no topo do Castelo um Anjo a secar a espada cruenta e embainhá-la, como um sinal da cessação do flagelo. Gregório entendeu que a praga havia terminado – e assim, de fato, aconteceu. Esse castelo passou a ser chamado de Castelo do Anjo (Tiago de Voragine, Legenda Aurea, edição crítica editada por Giovanni Paolo Maggioni, Sismel-Edizioni del Galluzzo, Florença, 1998, p. 90).
O Papa Gregório I foi depois canonizado e proclamado Doutor da Igreja, e entrou para a história com o epíteto “Magno”. Após a sua morte, os romanos começaram a chamar o Monte Adriano de “Castel Sant’Angelo” e, em memória do prodígio, apuseram-lhe uma imagem de São Miguel Arcanjo, príncipe das milícias celestes, no topo do castelo.
Ainda hoje há no Museu Capitolino uma pedra circular com as pegadas que, segundo a tradição, teriam sido deixadas pelo Arcanjo quando ele parou para anunciar o fim da praga.Também o cardeal Cesare Baronio (1538-1697) – reputado, pelo rigor de sua pesquisa, um dos maiores historiadores da Igreja – confirma a aparição de São Miguel no topo do castelo (Odorico Ranaldi, Annali ecclesiastici tratti da quelli del cardinal Baronio, Appresso Vitale Mascardi, Roma, 1643, pp. 175 -176).
Observamos apenas que, se o Arcanjo, graças ao apelo de São Gregório, embainhou a espada, isto significa que a tinha antes desembainhado para corrigir os pecados do povo romano. Os anjos são de fato os executores das correções divinas dos povos – como nos lembra a visão de Fátima, em que o Anjo brandia uma espada de fogo e apontava para a terra, clamando “Penitência, Penitência, Penitência!”
Este apelo à penitência continua sendo a primeira urgência de nosso tempo e o primeiro remédio para garantir nossa salvação, tanto nesta vida passageira como na outra, eterna. A penitência sincera e contrita foi a salvação do povo de Nínive e dos romanos sob São Gregório Magno. Rezemos, então, para que, chegados ao fim desta pandemia, possamos exclamar jubilosos: Regina Coeli, laetare, Alleluia!
Por Roberto de Mattei
Texto adaptado por Gil Pierre de Toledo Herck
Fonte: “San Gregorio Magno e il Coronavirus del suo tempo”, Corrispondenza Romana, 19 de fevereiro de 2020.

