Quem ama busca estar próximo do amado. Deus, que nos ama infinitamente, não foge à regra. Por esse motivo, não nos abandonou no pecado e na morte e, por meio dos profetas do Antigo Testamento, exortava o povo judeu ao arrependimento. Vendo que isso não era suficiente, Deus enviou seu Filho Unigênito para estar conosco de uma maneira mais íntima. Assim, Ele tomou nossa natureza e conviveu conosco como homem. 

Sua natureza humana, igual à nossa com exceção do pecado, foi o princípio de proximidade que Deus inventou para estar próximo dos homens. Assumi-la foi o maior ato de amor de Deus. O Criador do céu e da terra, das estrelas mais longínquas ao ser mais insignificante; Aquele com relação a quem o universo inteiro não passa de um grão de areia; Aquele ser que sempre foi e sempre será, sem começo nem fim; Aquele, a quem Moisés teve medo de se aproximar e quem ninguém jamais havia contemplado, decidiu, num ato de amor extremo, assumir a nossa miséria, de criaturas fracas e mortais, para demonstrar seu amor e desejo de estar conosco. 

Jesus, Deus feito homem, não se furtou às realidades mais humanas para demonstrar sua proximidade. Sofrimentos, alegrias, necessidades e desejos, tudo Cristo sentiu e viveu para demonstrar cabalmente como buscava identificar-Se conosco. Pode-se dizer que, com exceção do pecado, Ele assumiu inteiramente a vida humana. 

Depois de exteriorizar seu amor de maneira tão plena na Cruz e Ressureição, Jesus subitamente sobe aos céus e nos abandona. Se é possível entender, para estar próximo dos homens, porque Deus se fez homem, como entender, então, sua súbita Ascensão aos céus, se afastando de nós e fugindo de nossa vista? 

Santo Agostinho nos responde da seguinte forma: “O Senhor Jesus não deixou o céu quando de lá desceu até nós; também não se afasta de nós quando subiu novamente ao céu”. 

Quando desceu do céu, Jesus lá permaneceu por ser Deus. Ele próprio o afirma quando diz: “Ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu, o Filho do Homem que está no céu” (Jo 3, 13). Afinal, se Jesus é verdadeiramente homem e Deus, não poderia sê-lo se, para ser homem, tivesse de deixar de ser Deus. 

Ao mesmo tempo se, antes da encarnação, o Verbo estava no céu apenas como Deus, depois da ascensão de Jesus, Ele está no céu também como homem. E esta é exatamente a primeira lição da Ascensão: Deus não se fez homem por apenas um breve período de tempo, para estar próximo de nós apenas neste mundo. Ao contrário, Ele se fez homem por toda a eternidade e continuará a ser homem por todos os séculos dos séculos. Assim, a resposta à pergunta começa a ser esboçada: Deus quis ser tão próximo de nós que não se contentou a ser homem por um breve tempo, mas por toda a eternidade. 

Se Jesus permanecesse neste mundo, sem ascender aos céus, poderíamos ainda pensar que Ele se fez homem, mas que deixaria de sê-lo um dia. Entretanto, com sua Ascensão, temos a absoluta certeza de que sua intenção ao se encarnar era permanecer junto a nós por todo o sempre! 

Mas Santo Agostinho, em sua resposta, diz ainda mais: que Jesus permanece conosco neste mundo, apesar de não o vermos! Em diversas passagens do Novo Testamento podemos atestar a presença de Jesus após sua Ascensão. 

Quando Saulo – que se tornaria São Paulo – cai do cavalo a caminho de Damasco, Jesus lhe diz: “Saulo, Saulo, porque me persegues?” (At 9,4). Se Jesus continua a sofrer e a ser perseguido, mesmo estando no céu, é porque continua presente e próximo.

No discurso escatológico do capítulo 25 do Evangelho de São Mateus, Jesus separa os salvos e os condenados a partir de um único critério: os salvos foram o que viram a presença de Jesus nos que sofriam e os condenados são os que a ignoraram. “Eu estava com fome e me destes de comer” (Mt 25,35). 

Se é assim, se Jesus continua sofrendo conosco nesta vida, se continua tão próximo de nós, podemos dizer – por mais óbvia que possa parecer esta conclusão – que nós também estamos próximos d’Ele. E, se Ele ainda compartilha nossos sofrimentos, nós compartilhamos sua alegria no Céu. Jesus está no céu, mas seu coração continua na terra; nós estamos na terra, mas nosso coração pode se dirigir ao céu, para experimentar nesta vida um pouco a alegria do céu. Nós compartilhamos com Cristo nossa tristeza por estarmos neste “vale de lágrimas”; Ele compartilha sua alegria por estar na “pátria celeste”. 

Assim sempre foi e sempre será o amor: sofre pelo amado para dar-lhe a felicidade. Jesus, no céu, ainda continua preso ao seu amor e, diante do Pai, na glória, na felicidade sem fim em que se encontra, nos faz participantes, já nesta vida, da mesma glória. 

Concretamente, então, como podemos sentir essa alegria? No capítulo 25 de São Mateus, Jesus nos ensina que a caridade para o com o próximo é um dos caminhos essenciais. Mas há outro, mais perfeito e pleno, que não exclui a caridade ao próximo, mas que a enche de sentido e profundidade: a Eucaristia.

A Eucaristia é a presença real e total de Jesus neste mundo: em sua alma, corpo, sangue e divindade. Nela, está substancialmente o mesmo Cristo que agora está no céu, à direita do Pai. Por meio dela, temos um acesso direto ao céu, pois comungamos o Cristo Vivo. 

Se estás cansado, comunga bem e descansarás por um momento no céu. Se estás sofrendo, come do Pão do Céu e ficarás pleno da alegria eterna. Se não encontras Cristo em tua vida, encontra-O escondido no Sacrário. 

“Vinde a mim vós que estais cansados e curvados, que Eu vos aliviarei” (Mt 11, 28). Cristo desapareceu aos nossos olhos, mas permanece vivo no coração daquele que crê. 

 

Por Gustavo Catania Ramos

Fonte: Sermão das Ascensão do Senhor – Santo Agostinho

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