São José – um excelso exemplo

São José – um excelso exemplo

Todos podem encontrar em São José – o homem que passa despercebido, o homem da presença cotidiana discreta e escondida – um intercessor, um amparo e um guia nos momentos de dificuldade” – Papa Francisco

Nesse ano que se inicia temos a oportunidade de meditar com maior profundidade acerca da vida do glorioso São José, tendo em vista que por meio da Carta Apostólica Patris Corde o Papa Francisco convoca o “Ano de São José”. Com alegria devemos receber essa notícia, pois ao que tudo indica 2021 ainda será um ano de dificuldades, contra as quais a poderosíssima intercessão de São José será um grande auxílio, já que diversos santos, dentre eles Santa Teresa D’Ávila, recorriam a ele com admirável confiança. 

Por que se confia tanto nesse humilde carpinteiro? Por que não recorrer, por exemplo, aos apóstolos que conviveram com Nosso Senhor Jesus Cristo durante sua vida pública? A resposta é simples: São José é a mais perfeita das criaturas depois da Virgem Maria, de quem é esposo. De acordo com Santo Tomás de Aquino, há uma hierarquia de graça que é concedida por Deus aos homens em diferentes ordens. É comum ouvir que São João Batista foi o maior de todos os santos, em decorrência da passagem do Evangelho de São Lucas: “Eu vos digo, entre os nascidos de mulher não há um maior do que João” (Lc 7, 28). Todavia, São José está acima da ordem a que pertence São João Batista, pois pertence à soberana ordem da união hipostática, cujos integrantes são apenas Jesus, Maria e José.

É verdade que José está abaixo da Virgem Maria, que por sua vez está a uma distância inconcebível de seu Filho que é o próprio Deus. Porém, apenas por pertencer ao grau mais baixo dessa ordem, o pai nutrício de Nosso Senhor já supera todos os demais em graça por meio da insigne função que lhe foi atribuída “de alimentar educar e proteger o Deus feito homem. Ademais, essa particular função o faz ser superior em dignidade inclusive aos anjos, os quais possuem natureza superior à humana. 

As Sagradas Escrituras corroboram essas afirmações, pois no episódio de Jesus aos doze anos no templo (5° mistério gozoso do rosário) São Lucas narra a resposta que deu aos seus pais “Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devia estar na casa de meu Pai?” e, adiante, afirma que “Eles não entenderam o que lhes dizia. E desceu com eles, vindo para Nazaré, e lhes era submisso. Essa passagem é interessante para compreender duas coisas: a primeira, Nosso Senhor fazia distinção de quem honrava como pai no céu e como pai na terra; a segunda, que era sujeito a Maria e José, embora em segundo plano em relação ao Pai que está no céu. Segundo Fulton Sheen, “As únicas ações recordadas da infância de Cristo são ações de obediência – obediência ao Pai Celeste e aos pais da terra.

Por isso, em função da abundância de graças que recebeu, é necessário que imitemos suas ações e virtudes. Dentre elas, está a de ser justo não apenas com os homens, mas principalmente em relação a Deus. No livro “José, o silencioso”, Michel Gasnier diz: “ele considerava que o mais urgente era orar”. É notório que para ser santo é preciso rezar (e rezar muito) – é impossível imitar ou se espelhar minimamente em seu testemunho se não fizermos o básico: reconhecer nossas próprias limitações e saber que sem a graça de Deus não é possível perseverar na prática das virtudes rumo à santidade. Decerto, não se está a defender uma passividade perante as adversidades, mas diante das preocupações da vida terrena o auxílio divino é fundamental, sem o qual sucumbimos com facilidade. 

A importância da oração e da vida interior pode ser vista também no aparente silêncio em relação a São José nos Evangelhos, pois são poucos os atos de sua vida que são descritos e não existe nenhuma referência a qualquer palavra que tenha pronunciado. “São José, diferentemente da maioria dos mestres, tem algo a ensinar-nos não tanto com suas palavras, mas justamente com seu silêncio.”.  Por estar tão próximo do Menino Jesus e da Virgem Maria e pela ênfase na vida de oração, compreendemos que em verdade não há muito o que falar quando se está imerso na contemplação do divino. Em diversas ocasiões, supostas “questões urgentes” tomam um precioso tempo e afastam o foco daquilo que realmente é importante. Salvo acontecimentos excepcionais, a maioria das informações recebidas pelas mídias sociais ou até mesmo em canais de notícias são meras trivialidades que, além de nada acrescentarem, nos afastam “do santuário de nossa alma, onde Deus habita e quer falar conosco”.

São José é modelo de recolhimento e oração a todos, mas é exemplo sobretudo aos homens pela nobilíssima função de ser pai. É evidente a crise que a família como instituição passa atualmente, pois imersa na crise de vocações, tanto sacerdotais quanto para o próprio matrimônio, está a crise da paternidade. São inúmeros os exemplos de pais que não exercem seu encargo com a dignidade que se espera deles, entretanto, tratar a esposa e os filhos com o devido respeito, provê-los de todas suas necessidades e protegê-los dos perigos é a mais básica obrigação esperada de um pai, que deve ter São José como o maior mentor, já que “nosso modelo de patriarcado não é o coração decaído de Adão, mas sim o coração puríssimo de São José”.

Na Carta Apostólica Patris Corde, o Papa Francisco afirma que “São Lucas, de modo particular, tem o cuidado de assinalar que os pais de Jesus observam todas as prescrições da Lei”. Assim, o primeiro passo para ser um bom pai é justamente crer em tudo que ensina a Santa Igreja Católica e transmitir as virtudes cristãs à prole: essa é a pedra fundamental de todo o edifício que será construído durante o amadurecimento da criança. Adiante, Francisco assevera que “José não é um homem resignado passivamente. O seu protagonismo é corajoso e forte”. Nem poderia ser diferente, pois certamente todos os pais passam por dificuldades, para as quais a coragem e a força são decisivas para afastar as desilusões. 

Todavia, como já dito, nenhum homem possui sozinho a força necessária para atravessar as adversidades pelo caminho correto, já que “Só o Senhor nos pode dar força para acolher a vida como ela é, aceitando até mesmo as suas contradições, imprevistos e desilusões. Já me disseram em tom um tanto jocoso que as obrigações de um pai podem ser resumidas em: procriar, prover e proteger. Não deixa de ser verdade, e precisamente em relação ao prover, inclusive o maior exemplo possível a ser seguido trabalhou honestamente para sustentar sua família, ensinando ao seu Filho a dignidade que advém dele. 

Por fim, imperioso citar um trecho do Papa Francisco que deve ser mantido na cabeceira da cama a fim de não ser esquecido: “A felicidade de José não se situa na lógica do sacrifício de si mesmo, mas na lógica do dom de si mesmo. Naquele homem, nunca se nota frustação, mas apenas confiança. O seu silêncio persistente não inclui lamentações, mas sempre gestos concretos de confiança. O mundo precisa de pais, rejeita os dominadores, isto é, rejeita quem quer usar a posse do outro para preencher seu próprio vazio”. Rezemos para que sejamos (ou que continuemos sendo) dignos de dizer com entusiasmo que somos pais à imagem de São José. 

 


 

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