Santa Josefina Bahkita: de escrava ao encontro amoroso com o “Patrão”
Uma criança raptada do convívio familiar, presa, chicoteada, humilhada e tratada como mercadoria, mas que, ao mesmo tempo, demonstra uma enorme generosidade a ponto de perdoar os seus malfeitores e de render graças ao conhecer e nutrir uma amizade com o amado “Patrão”: essa é a história da primeira santa africana. Santa Irmã Josefina Bahkita foi elevada ao altar dos santos em outubro de 2000 por proclamação do santo pontífice, São João Paulo II, cuja festa litúrgica é celebrada no dia 8 de fevereiro.
A Irmã Santa Josefina Bahkita, pertencente à Congregação das Filhas de Santa Madalena de Canossa, nasceu no Sudão em 1869 e faleceu em 1947, na comuna italiana de Schio, região do Vêneto, na Província de Vicenza. A trajetória de vida da santa africana e de sua consagração a Deus foi permeada por muito sofrimento e dor. Aos 7 anos de idade, ela foi raptada de sua família, ocasião em que passou à condição de escrava e comercializada no mercado negreiro sudanês.
O nome Bahkita não foi aquele recebido por seus pais, mas sim aquele imposto por seus sequestradores, que a submeteram a intensa flagelação, tortura e sofrimentos físicos e morais. Tamanha foi a crueldade das agressões perpetradas contra a criança, que ela havia esquecido o próprio nome diante da presença do torturador que a interrogava. Este, por sua vez, lhe impôs o nome de Bahkita, cujo significado é “afortunada”.
Após o sequestro, Bahkita foi colocada em uma cabana miserável e trancada em um quarto escuro, onde permaneceu durante um mês, após o que foi comprada por um traficante negreiro e depois comercializada por mais de cinco vezes a diferentes patrões. Durante o período em que estava a serviço de um general, Bahkita padeceu 3 anos de maior sofrimento de sua existência, afirmando que não houve um dia que não possuía novas feridas das chicotadas diárias que a afligiam.
Certamente Bahkita não morreu por um milagre diante das atrocidades contra ela praticadas. O primeiro suspiro de liberdade, iluminado pela graça de Deus que sempre permeou a vida da Santa, ocorreu quando Bahkita foi, finalmente, comprada por um cônsul italiano, que depois a levou consigo para a Itália. Foi a primeira vez em sua vida que a criança experimentou momentos de serenidade, carinho e a cordialidade.
Já em solo italiano, na cidade de Gênova, o cônsul italiano concordou que Bahkita vivesse junto à família de casal de amigos, Augusto Micheli e Maria Turina, de tal maneira que Bahkita passou a desempenhar a função de babá e amiga da filha recém-nascida do casal.
Ocorre que o casal teve de voltar para o Sudão. Neste contexto, Bahkita e a recém-nascida foram confiadas aos cuidados das Irmãs Canossianas do Instituto dos Catecúmenos de Veneza.
Foi neste momento que Bahkita veio a conhecer aquele Deus que desde pequena “sentia no coração, sem saber quem Ele era”. Nesta ocasião, Bahkita teria dito: “Vendo o sol, a lua e as estrelas, dizia comigo mesma: Quem é o Patrão dessas coisas tão bonitas? E sentia uma vontade imensa de vê-Lo, conhecê-Lo e prestar-Lhe homenagem”.
Depois de alguns meses de catecumentato, Bahkita recebeu os sacramentos de iniciação cristã, tendo recebido o nome de Josefina em homenagem a São José. Em 9 de janeiro de 1890, quando foi batizada, Josefina Bahkita estava radiante de alegria, transbordando de felicidade. Este momento em sua vida foi tão marcante que Josefina Bahkita frequentemente beijava a pia batismal, dizendo com júbilo: “Aqui me tornei filha de Deus”.
Dessa experiência de vida de Josefina Bahkita é possível extrair um importante aprendizado: a experiência de filiação divina a partir de uma relação íntima com Deus. Este não era mais um dos diversos patrões violentos com “p” minúsculo que passaram em sua vida, mas sim o Patrão com “P” maiúsculo, que a libertou dos grilhões da tirania da escravidão.
A alcunha de Deus como um “Patrão” pode soar um tanto estranho aos dias atuais, sobretudo para aqueles que enxergam o trabalho sob a ótica do tripalium, origem etimológica latina do termo trabalho que remete a um instrumento utilizado na lavoura e posteriormente utilizado como instrumento de tortura formado por três (tri) paus (pallium). Em verdade, a alcunha de “Patrão” revela uma íntima amizade haurida entre Deus e sua filha, a qual utilizava esta denominação carinhosa para retribuir infinito o Amor daquele Deus que a guiava por sua mão.
Quando a Sra. Maria Turina retorna do Sudão para buscar sua filha e Bahkita, que estavam sob os cuidados das Irmãs Canossianas, esta exprimiu a firme convicção de permanecer com as Irmãs e servir ao “Patrão” amoroso, de sorte que, a 8 de dezembro de 1896, a jovem africana foi consagrada à vida religiosa como Irmã Josefina Bahkita.
Santa Irmã Josefina Bahkita, em sua humildade e total abandono em Deus, revela um modelo de virtude e de santidade de vida, porque, em seu coração, superou todo o sentimento de ódio por aqueles que haviam feito mal a ela. A santa dizia: “Se encontrasse aqueles traficantes de escravos que me raptaram, e também aqueles que me torturaram, me ajoelharia e beijaria as suas mãos, porque, se não acontecesse tudo isso, não seria cristã e religiosa.”. O exemplo de santidade da santa africana ajuda a compreender, com profundidade, o verdadeiro significado do perdão diante das inúmeras injustiças sofridas.
Já no final de sua vida, Santa Bahkita proferiu no leito de sua morte as duas últimas palavras de sua existência terrena: “Nossa Senhora. Nossa Senhora”. Que este tocante exemplo de devoção a Nossa Senhora possa iluminar nossa vida para nos tornarmos mais fortes e confiantes em Cristo, sem reservas. Santa Irmã Josefina Bahkita, rogai por nós.
Por Fernando Augusto Frank de Almeida Alves
Fontes:
- Religiosa sudanesa da Congregação das Filhas da Caridade (Canossianas)- https://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20001001_giuseppina-bakhita_po.html
- Viagem pastoral a Benin, Uganda e Cartum – Celebração eucarística na “Green Square” em honra da Beata Josefina Bahkita – Homilia de São João Paulo II – 10 de fevereiro de 1993 – http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/it/homilies/1993/documents/hf_jp-ii_hom_19930210_khartoum.html
Discurso de São João Paulo II aos peregrinos reunidos em Roma para a beatificação da Irmã Josefina Bahkita – http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/it/speeches/1992/may/documents/hf_jp-ii_spe_19920518_beatificaz-bakhita.html
Você quer saber mais sobre algum ensinamento da Igreja?
Envie suas dúvidas para revistansb@gmail.com


