A Anunciação

 

“O Anjo do Senhor anunciou a Maria

E ela concebeu do Espírito Santo”

Assim se inicia uma das mais antigas (e belas) devoções da Igreja: o Angelus. Nela meditamos o mistério da Anunciação do Anjo a Nossa Senhora. No entanto, será que, mesmo que tenhamos o hábito de rezar tal devoção, realmente meditamos e refletimos a respeito do seu significado?

Tal mistério nos é mais detalhado no Evangelho segundo São Lucas (1, 26-38), que nos fala que, no sexto mês da gravidez de Santa Isabel, o Arcanjo Gabriel foi enviado pelo Senhor a uma virgem da cidade de Nazaré, chamada Maria, e desposada de José. 

“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!”, com tão simples, mas grandiosa saudação é que Deus inicia sua manifestação definitiva entre os homens, perante a sua humilde e fiel serva, que fica intrigada com tais palavras, pensando no que poderiam significar. E que grandiosa atitude de Maria Santíssima: primeiro ela escuta e, em seguida, medita o que lhe é dito, porque, como nos diz Santo Tomás de Aquino, “Deus prepara e dispõe aqueles que elege para algo, de modo que se façam idôneos para o que são eleitos (2Cor 3, 6)”1 

Será que acolho a vontade de Deus para minha vida, meditando a respeito dela em minhas orações? Quantas vezes não me dou nem ao trabalho de acolher Sua Palavra, através das Sagradas Escrituras? Recebo-O de maneira digna no Sacramento da Eucaristia? Procuro constantemente me reconciliar com Ele, através da Confissão bem feita?

O anjo prontamente lhe indica para não ter medo, por ter encontrado “graça junto de Deus”, concebendo em seu seio o Filho do Altíssimo, aquele que receberia do Senhor Deus o trono de Davi: Jesus, o Cristo, ou Messias. E mais uma vez, Maria acolhe e compreende a vontade de Deus para ela, no entanto faz-lhe uma única pergunta, não duvidando do poder de Deus, mas querendo melhor colaborar com os Seus planos: “Como é que vai ser isso, se eu não conheço homem algum?”. Mesmo estando desposada de José, ambos ainda não coabitavam, como nos mostra o Evangelho segundo São Mateus (1, 18). E o Anjo lhe responde: “O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo vai te cobrir com a tua sombra; por isso o Santo que nascer será chamado Filho de Deus”. 

A virgindade perpétua de Maria e a sua Imaculada Conceição, conforme nos ensina Santo Tomás de Aquino, foi conveniente por três motivos: (i) pela condição do que iria nascer, que é o Verbo de Deus; (ii) em relação ao efeito da Encarnação, isto é, Cristo veio justamente para destruir nossa corrupção; e (iii) Deus não poderia diminuir a honra de sua própria Mãe, por ter sido Ele quem nos ordena honrar nossos pais2.

Quantas vezes coloco impedimentos no que Deus me pede, ao invés de pedir-Lhe a graça de me tornar verdadeiro colaborador de sua vinha? Por algum motivo adio a minha conversão e as minhas boas obras, tanto para com Deus, quanto para com o meu próximo? Ou prontamente respondo ao chamado de Deus, assim como Maria, que sem hesitar diz ao Anjo:

Eis aqui a serva do Senhor,

Faça-se em mim segundo a Tua Palavra

 

A partir dessa resposta de Maria, o Espírito Santo concebe em seu seio o Salvador de toda a humanidade. Foi assim que

O Verbo Divino se fez carne

E habitou entre nós.

 

E esse foi o primeiro sim de Maria (entre muitos outros), porque dedicou-se exclusivamente, a partir daquele momento, em exercer sua missão de Mãe do Altíssimo, o que não a livrou das dificuldades e provações. Afinal de contas, ela viu seu próprio Filho sofrer sua Paixão e morte de Cruz, estando com Ele ao longo desse momento derradeiro. Então, ela, acima de qualquer outra criatura, aceitou com muita humildade e Fé, dia após dia, a vontade de Deus para ela, mas jamais foi abandonada por Ele, podendo vê-Lo após a sua Ressureição e, hoje, participar de Sua Glória nos céus.

Dessa maneira, possamos todos os dias repetir de todo o coração: Infundi, Senhor, nós vos pedimos, a vossa graça em nossas almas, para que nós que conhecendo pela anunciação do anjo, a Encarnação de Jesus Cristo, Senhor Nosso, cheguemos por Sua Paixão e Cruz à Glória da Ressureição. Pelo mesmo Cristo, Nosso Senhor. Amém!

 

Por Henrique Chiozzotto

 

Fontes:

  • Suma Teológica, 3ª parte, questão 27
  • Suma Teológica, 3ª parte, questão 28

 


 

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