O que me atraiu nas histórias de terror não foi o medo, nem o clima de tensão. É claro que, depois de anos lendo este tipo de história, criei gosto pela atmosfera de suspense e pelas sutilezas do pavor – mas isso veio depois, e sempre ocupou um lugar secundário na minha imaginação. Meu interesse vinha de outra fonte – a mesma que, anos mais tarde, me levaria ao curso de antropologia: uma profunda inquietação frente a condição humana.
Histórias de terror, quando bem contadas, sempre me pareceram terreno fértil para meditar sobre o conflito que, acreditava eu, estava no centro da experiência humana – o conhecido contra o desconhecido, o bem contra o mal. Se eu lia uma história sobre lobisomens, pensava sobre os impulsos animalescos do ser humano, sobre a necessidade de se encontrar um equilíbrio, algum meio termo entre a negação completa da natureza animal e a entrega aos impulsos primários; se lia um conto de H.P Lovecraft, com seu chamado “horror cósmico”, pensava sobre o aparente paradoxo entre o domínio humano sobre o mundo e sua insignificância na ordem universal; se folheava algo sobre vampiros sedentos por sangue, pensava sobre o comportamento predatório dos psicopatas.
As conclusões para essas indagações – quando eu me dava ao trabalho de levá-las até alguma conclusão, ao invés de só me divertir com as perguntas – não eram muito positivas. Parecia-me que o homem estava subjugado e que, de certo modo, a característica que o tornava único entre os animais era também responsável por sua invencível tendência para o mal: a mesma razão que nos separava dos macacos era, para mim, a que nos tornava vítimas de nossa própria maldade.
Eu estava, é claro, enganado. O problema das histórias de terror é que, para serem fiéis ao próprio gênero, elas não podem terminar bem – o investigador de “O Chamado de Cthulhu”, de H.P Lovecraft, termina louco; o vampiro sempre ataca alguém que ama; o lobisomem invariavelmente transforma-se em uma fera. Mesmo quando o bem vence no final, ele é sempre uma luz tênue, uma vela solitária flutuando sobre um oceano escuro, esperando pela onda que vai submergi-la. A experiência humana não é assim. As trevas existem, é claro, mas não são elas que definem nossa vida e, tampouco, que definem o homem enquanto tal.
O que o define, então? “Que é o homem para que nele penses, e o ser humano, para que dele te ocupes?” (Sl 8,5), já perguntava o salmista. A questão sobre a natureza do homem é uma das mais antigas da filosofia, e até mesmo o Concílio Vaticano II afirmou que o homem “permanece para si mesmo um problema insolúvel, apenas confusamente pressentido”1. Centenas de respostas já foram escritas, e uma boa parte delas parece estar apartada da experiência humana real e do que, de fato, um ser humano pode perceber sobre a própria condição.
Por isso, me parece que, se nosso intuito é pensar de forma clara sobre o que é o homem, devemos partir da experiência humana em si. Devemos encará-la como se apresenta a todos nós e, a partir dela, chegar não somente ao sujeito que tem as experiências – isto é, nós mesmos – mas a alguns traços concretos e universais, verdadeiros não somente para mim ou para você, mas para todos. Em outras palavras, me parece que a forma mais simples de se alcançar um universal pouco palpável é através suas manifestações que, apesar de individuais, são concretas.
Dentre as experiências disponíveis a todos nós, a primeira é, sem dúvida, a de viver. Sabemos que estamos vivos, temos um corpo e pensamos. Mas o ser humano não só existe e pensa – nós sentimos, também. Sentimos nos dois sentidos da palavra – de forma sensorial, pois percebemos o mundo por meio de nossos sentidos, e de forma emocional: sentimos alegria e tristeza, raiva e afeto, e se paramos para pensar sobre o que sentimos, somos capazes de encontrar uma medida de razão em nossos sentimentos: por tal motivo nos alegramos, por aquele outro, nos entristecemos.
Uma outra capacidade que todos temos é a de amar. Não pensem que me refiro aqui somente ao amor cristão, que é ato de vontade, ama a Deus primeiro e as coisas terrenas por consequência. Refiro-me ao amor como todos o sentimos, por mais supérfluo e passageiro que pareça. De acordo com Santo Agostinho, tanto esta espécie de amor quanto o amor cristão, nascem do mesmo lugar e são apenas diferentes manifestações – umas melhores que outras, é claro – do mesmo princípio. Para o bispo de Hipona, o amor que experimentamos é o motor de nossa vida: nós “vivemos em função de nosso amor, e o amor determina nossa vida de maneira boa ou má”2. De tal forma isto é verdade para Agostinho que toda a sua obra de filosofia e teologia moral baseia-se na correta ordenação dos amores, a fim de que o homem ame o que de fato merece ser amado e, assim, possa ter uma boa vida, conforme é a vontade de Deus.
Há mais uma coisa que precisamos levar em consideração: a existência de Deus. Sabemos que Deus existe, que criou o homem à sua imagem e semelhança e que, se existe uma razão das coisas e o conhecimento é possível, é porque seu Criador também é dotado de razão, e sua razão foi impressa no que criou. Só podemos conhecer o mundo que nos cerca porque as coisas são o que são, e não vão mudar – todo cachorro é cachorro da mesma forma, e não irá subitamente tornar-se um gato; o sol nasce e se põe todos os dias, um homem sempre será homem, uma mulher será sempre mulher; e nosso conhecimento do conjunto, de como um homem e um cachorro vivem juntos sob o sol, só é possível porque o homem, o cachorro e sol estão inseridos dentro de uma ordem lógica e se comportam seguindo certas regras.
Em resumo: até agora, sei que estou vivo, tenho um corpo, sou capaz de pensar de forma racional, tenho emoções e minha vontade é governada por meus amores. Sei que Deus existe, que ele criou a mim e a todas as coisas, e que o fez dentro de uma determinada ordem lógica e racional, o que me permite compreender o mundo em que vivo e, até certo ponto, compreender também a Deus.
Se Deus criou o ser humano, como sabemos que criou, e se nos fez à sua imagem e semelhança, como sabemos que fez, não podemos compreender o homem sem compreender sua relação com seu Criador – principalmente quando lembramos do primeiro capítulo do Gênesis: “E disse Deus: Façamos o homem a nossa imagem, conforme a nossa semelhança (…). E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou.” (Gn,1:26-27). O homem é imagem de Deus, mas não só do Pai, do Filho, ou do Espírito Santo – o homem é imagem e semelhança de toda a Santíssima Trindade, e carrega em si traços que são paralelos a Deus e que à Trindade nos remetem, como nos diz o teólogo Stephen J. Duffy: “Em seu ser, conhecer e amar, e na tríplice unidade de memória, intelecto e vontade, as pessoas são imagem do Pai, do Filho e do Espírito, da Origem, do Verbo e do Amor. Acima de tudo, a mente é imagem de Deus por sua capacidade de lembrar-se dEle, de compreendê-Lo e amá-Lo”3. A imagem do Verbo na mente do homem também se mostra na capacidade humana para compreender o mundo, como falamos no parágrafo anterior: reconhecer que existe uma ordem das coisas e, principalmente, ser capaz de compreendê-la, só é possível porque temos, em nossas almas, uma imagem da mesma Razão – o Logos divino, também chamado Verbo – que as criou.
O corpo também faz parte do homem – não como um acessório ou ferramenta dispensável, mas como parte essencial do que somos. Deus criou Adão com um corpo, e Jesus Cristo, o novo Adão, fez-se carne no seio de Maria, e ascendeu ao céu de corpo e alma. O homem bem-aventurado irá, no fim dos tempos, habitar na eternidade com seu corpo ressuscitado e glorificado, de forma similar a como foi glorificado o corpo de Cristo após sua ressurreição, e o de Maria, após sua assunção aos céus. Santo Agostinho, em um de seus sermões4, refere-se ao corpo como “esposo da alma”, e à morte como o “último inimigo” que, fatalmente, irá separá-los.
A morte irá, de fato, separar-nos de nosso corpo – e tão natural é a união do homem com sua carne, que a morte lhe parece uma violência, um ultraje. Então, por quê? Qual o motivo desta separação, desta angústia? A resposta é simples, mas dura: nós caímos. Fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, criados num gesto livre de amor para que, junto com a criação, pudéssemos dar glória a Deus e conhecê-lo. Mais do que isso – nos foi dada a capacidade divina de amar; fomos feitos para conhecer a Deus no amor, para estarmos inseridos no próprio amor divino. Assim como um filho faz parte do amor dos pais, o homem, criado por Deus, foi feito para participar do amor que existe entre as pessoas da Santíssima Trindade… mas deu-Lhe as costas, e caiu.
Quando Adão e Eva foram enganados por Lúcifer e comeram o fruto proibido, houve uma ruptura: o homem, que havia sido criado para amar Deus, conhecer a Deus e viver com Deus, renegou a seu próprio criador. Nós sentimos as consequências até hoje: ao separar-se de Deus e da própria Eternidade, o homem tornou-se mortal. Ao se rebelar contra Deus, a união perfeita de corpo e alma se partiu: o corpo humano rebelou-se contra a sua alma; sua vontade e seus desejos rebelaram-se contra sua razão. Quanto a isto, não posso ser mais claro do que São Paulo: “Quando quero fazer o bem, é o mal que se me apresenta. Eu me comprazo na lei de Deus, segundo o homem interior, mas percebo outra lei em meus membros, que peleja contra a lei da minha razão e que me acorrenta à lei do pecado que existe em meus membros.” (Rm, 7:22-23).
Aí está, em nossa frente e dentro de nós, o que, anos atrás, eu compreendia como uma tendência invencível para o mal: as marcas e as consequências do pecado original. Mas, naqueles tempos, eu não tinha a informação completa. Faltava-me um pedaço do quebra-cabeça, uma parte essencial da figura: Deus, que é puro bem, puro amor, e que estende a todo instante sua mão para o homem, esperando que, conscientes de nossa miséria, estendamos nossos braços em Sua direção e sejamos resgatados de nós mesmos.
A experiência humana não é, como eu havia pensado, a de uma vela solitária, flutuando sobre um oceano escuro. A noite é densa e, por vezes, sufocante – mas o céu está em chamas, e brilha com amor, justiça e misericórdia. Basta olharmos para cima, e veremos que nossa pequena vela não é uma vela solitária, que sua chama tênue é imagem daquela no alto, e que a noite, na verdade, não passa de uma sombra passageira.
Rodrigo Gurgel Filho.
Antropólogo. Mestrando em Filosofia pela UNIFESP.
Referências:
1. Constituição Pastoral Gaudium et Spes, 21
2. AGOSTINHO, Santo. Contra Faustum. Livro V, Cap. 11
3. DUFFY, Stephen J. “Agostinho Através dos Tempos: Uma Enciclopédia”
4. Sermão 55.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]


