Contemplar os mistérios de Cristo pelos olhos de Maria
Era o dia 22 de dezembro de 2007. Junto com quarenta e sete diáconos, esperávamos — devo admitir com muita ansiedade — o tão esperado momento da ordenação sacerdotal. Para efeitos práticos e para evitar atrasos, todos fomos convocados a estar pontualmente três horas antes da cerimônia. Foram três longas horas na sacristia da Basílica de Santa Maria Maior em Roma, tempo suficiente para que muitos pensamentos e sentimentos aflorassem nas nossas mentes e corações.
As reações foram das mais variadas. Aqueles que não paravam sentados e andavam de um lado ao outro. Outros, com os olhos fechados, meditavam ou tentavam descansar. Outros ainda esboçavam uma conversa amena. Enfim, cada um à sua maneira, tentávamos que o tempo passasse mais depressa e, principalmente, tratávamos de conter um claro nervosismo. Para mim, a solução foi recorrer à oração do terço. Desde jovem criei o hábito de levar sempre um terço no bolso, mesmo que não o usasse muito. Foi principalmente a partir dos 23 anos, depois de ter tido uma forte experiência de encontro pessoal com Cristo, que passei a rezar o terço quase que diariamente. Mas este dia 22 de dezembro foi sem sombra de dúvida o dia em que mais terços rezei. Confesso que as contas não paravam de passar pelos meus dedos. E os frutos não tardaram em vir.
As portas da sacristia finalmente se abriram. Colocamo-nos em forma de cortejo, dois a dois, para o início da procissão de entrada. Ressoa ainda no meu coração o órgão e o coro do canto de entrada. Quando cruzei o umbral da porta, vislumbrei a nave central da Basílica. A sensação de paz foi arrebatadora e senti a mão de Maria pegando na minha. A Sua presença foi inegável. Se é verdade que o noivo entra na Igreja levado pelos braços de sua mãe terrena no dia do seu casamento, o sacerdote entra levado pelos braços de Maria, sua mãe celeste, no dia da sua ordenação. A paz e a presença de Maria perduraram durante toda a cerimônia de ordenação. Esta foi uma das experiências marianas que marcaram o caminho da minha vida e especialmente da minha vocação sacerdotal, fruto sem dúvida da oração do terço e da bondade e amor de Maria. Mas pensemos nas inúmeras graças e autênticos milagres que aconteceram para milhares de pessoas ao longo de tantos anos de devoção e prática do Santo Rosário.
Esta tradição remonta ao segundo milênio, quando teve o seu início e evolução até chegar à forma praticada nos dias de hoje. Podemos afirmar que o início desta oração remete-se às aparições de Nossa Senhora a São Domingos Gusmão (1170 – 1221). Segundo uma antiga tradição, em 1208, São Domingos, empenhado na luta contra a heresia Albigense na França, foi refugiar-se em oração num bosque, clamando a Nossa Senhora que lhe indicasse uma arma espiritual para combater tal heresia. Nossa Senhora lhe aparece, acompanhada de três anjos, recordando-lhe do caminho usado pelos monges através da oração do saltério (os 150 salmos contidos no Livro dos Salmos e que são recitados ao longo da liturgia das horas). No entanto Nossa Senhora fez menção do “seu saltério” mostrando ao santo o terço com as 50 Ave-Marias, que passou a ser conhecido como Saltério da Bem-Aventurada Virgem Maria.
A partir deste momento, o santo dominicano passou a difundir a devoção que teve grande repercussão especialmente entre as pessoas mais simples que não sabiam ler mas que tinham o desejo de imitar a prática dos monges que recitavam os 150 salmos. Mais tarde, Nossa Senhora aparece a outro monge dominicano, Alano de Rupe (1428-1475) e lhe pede reavivar a devoção. Afirma que seriam necessários volumes imensos para registrar todos os milagres obtidos por meio do terço. Foi o beato Alano, inspirado pela Virgem Maria, que agrupou em 50 Ave-Marias, criando os mistérios Gozosos, Dolorosos e Gloriosos. Adicionou o Pai-Nosso no início de cada dezena. Chegava-se assim à forma atual como nós conhecemos hoje. Além disso, Nossa Senhora reitera ao beato as promessas feitas ao santo:
1. Prometo minha proteção e as maiores graças aos que rezarem o terço.
2. Aqueles que rezarem-no com muita fé em vida, na hora de sua morte encontrarão a luz de Deus e a plenitude da sua graça.
3. As crianças devotas dele merecerão um alto grau de glória no céu.
4. Obterão tudo o que pedirem mediante
esta oração.
5. Os que propagarem esta devoção serão assistidos por mim em suas necessidades.
6. Os que acudirem a mim ao rezá-lo, terão como intercessora toda a corte celeste durante a vida e na hora da morte.
Por que tantos milagres e frutos? O que nos proporciona o terço? Por que tanta insistência por parte de Maria para que todos o rezássemos? Respondamos com os Sumos Pontífices.
São João Paulo II inicia a sua Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae – toda ela dedicada ao Santo Rosário – ressaltando a simplicidade e profundidade do terço. “Na sua simplicidade e profundidade, permanece, mesmo no terceiro Milênio recém iniciado, uma oração de grande significado e destinada a produzir frutos de santidade. Ela enquadra-se perfeitamente no caminho espiritual de um cristianismo que, passados dois mil anos, nada perdeu do seu frescor original, e sente-se impulsionado pelo Espírito de Deus a “fazer-se ao largo” (duc in altum!) para reafirmar, melhor, “gritar” Cristo ao mundo como Senhor e Salvador, como “caminho, verdade e vida” (Jo 14, 6), como “o fim da história humana, o ponto para onde tendem os desejos da história e da civilização”. O Rosário, de fato, ainda que caracterizado pela sua fisionomia mariana, no seu âmago é oração cristológica. Na sobriedade dos seus elementos, concentra a profundidade de toda a mensagem evangélica, da qual é quase um compêndio. Nele ecoa a oração de Maria, o seu perene Magnificat pela obra da Encarnação redentora iniciada no seu ventre virginal. Com ele, o povo cristão frequenta a escola de Maria, para deixar-se introduzir na contemplação da beleza do rosto de Cristo e na experiência da profundidade do seu amor. Mediante o Rosário, o crente alcança a graça em abundância, como se a recebesse das mesmas mãos da Mãe do Redentor.”
Leão XIII na Encíclica Supremi apostolatus officio (1 de setembro de 1883) indica o terço como instrumento espiritual eficaz contra os males da sociedade. Sixto IV disse que a oração é “é oportuna, não só para promover a honra de Deus e da Virgem, mas também para afastar os perigos que o mundo nos prepara” e Júlio III chamou o terço de “ornamento da Igreja de Roma”.
Diante do testemunho unânime dos Papas em favor do Santo Terço, podemos compreender a profundidade dessa oração: ela nos ensina a amar a Mãe de Deus e a meditar os mistérios de nossa fé. À repetição das Ave-Marias deve-se adicionar a contemplação do mistério correspondente. Se rezamos o mistério da Anunciação do Anjo Gabriel, devemos meditá-lo, imaginar a cena, fazer súplicas, atos de amor, de fé e de esperança. As Ave-Marias serão como a música de fundo da meditação do mistério, que permite uma maior concentração na oração e uma maior disposição de coração para colher todos os frutos do terço.
O Terço é uma verdadeira escola de oração: aprendemos a meditar os mistérios da fé guiados pelas mãos de Maria, que é o caminho mais curto para Jesus.
Por Padre Alessandro Enrico de Borbón,
Paróquia Nossa Senhora do Brasil[/vc_column_text]
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