Se por um lado a grande variedade de percurso na vida dos santos serve para mostrar-nos como um católico pode sempre configurar-se plenamente a Cristo, quaisquer que sejam as peculiaridades de seu estado de vida, há por outro lado um punhado de santos e santas que, por terem vivido santamente em vários estados, são modelo à quase universalidade dos fiéis. Dentre esses está Rita de Cássia (1381 – 22/05/1457) — que foi sucessivamente virgem, esposa, mãe, viúva, orfanada de seus filhos, eremita e monja.

Na primeira parte de sua vida, Rita foi esposa e mãe de família. Casou-se, ainda moça e meio que a contragosto, com o irascível Paolo Ferdinando — que, diferentemente de si, não tinha então elegido a santidade como objetivo de vida, e com cujo temperamento violento sofreu consideravelmente. Confiando-o sempre à misericórdia divina, com incessante oração e penitência, obteve a grande graça de sua conversão — o que não impediu, porém, que antigos inimigos políticos o assassinassem, em reprimenda de antigas ofensas.

Vendo-se viúva e com o desafio de educar seus dois filhos varões, Rita deu primazia ao que era verdadeiramente essencial aos meninos: não seu conforto material ou sua formação técnica, não a tranquilidade econômica ou a ausência de contrariedades, mas a salvação eterna de sua alma. É fácil supor que Rita rezasse com eles (ou quando menos por eles) algo semelhante à oração da noite de S. Thomas More e sua família, retratada em seu filme-biografia: “Amado Senhor, dai-nos o descanso nesta noite, ou, se devemos fazer vigília, dai-nos bom ânimo, e fazei-nos preocupados apenas com a salvação de nossa alma. Por Cristo Nosso Senhor. Amém”.

A radicalidade da confiança que Rita tinha em Deus se manifesta quando, vendo convictos seus pubescentes filhos no intento de vingar o assassínio do pai, pediu ela a Deus que antes os levasse para Si que permitisse pusessem em perigo a própria salvação, cometendo este pecado. Os dois rapazes vieram então a falecer – não sem antes converter-se e, contritos, receber os sacramentos.

Entregando marido e filhos a Deus, Rita não perdeu nenhum dos que lhe foram confiados (Jo18, 9). “Só por essa história belíssima — que muitos gostariam de ter repetida em suas famílias, vendo-as convertidas a Deus — a sua vida já mereceria um filme.”

Mas a providência divina ainda lhe reservava heróicos atos de amor, na segunda parte de sua vida. Tendo sido aceita a um mosteiro agostiniano — após uma negativa inicial e um milagre que as monjas tomaram como sinal divino de que Rita deveria ser admitida —, ela meditava com frequência o mistério da crucifixão. Impressionava-a sobretudo a coroação de espinhos — a ponto de, estando um dia a orar em êxtase diante de um crucifixo, pedir a Jesus desse-lhe participar deste mistério. Milagrosamente atendida, um dos espinhos saiu então do crucifixo e cravou-lhe a fronte, gerando uma chaga terrivelmente dolorosa, supurenta e malcheirosa.

Esta participação de Rita na coroação de espinhos ilumina-nos quanto à humilhação experimentada por Nosso Senhor quando o escárnio dos soldados fê-los, em suprema ironia, torturá-lo com símbolos régios: o manto escarlate, a coroa e o cetro (Mt27, 27-29). A humilhação, em Rita, foi que a chaga era a tal ponto repugnante que sequer as próprias monjas toleravam-lhe o odor, impondo à santa que vivesse reclusa e afastada das demais.

Certa vez, quando as monjas planejavam uma peregrinação a Roma e Rita pretendeu fazer-lhes companhia, negou-o a superiora em razão do mau cheiro da ferida. Tendo então rogado a Nosso Senhor que lhe retirasse a ferida para a peregrinação, foi atendida e desapareceu todo sinal ou cicatriz, durante todo o tempo da viagem. De volta ao mosteiro, ressurgiu a ferida, tal como antes.

Quando, após 15 anos de amorosa entrega, Rita faleceu, “‘a cela em que ela se encontrava ficou repleta de um perfume extraordinário, uma luz espantosa emanou do estigma que ela tinha na testa e conta-se que os sinos da cidade foram tocados alegremente pelos anjos’. Os fenômenos odoríferos e muitos outros milagres fizeram as autoridades civis e eclesiásticas ‘instalarem as suas relíquias em um lugar acessível aos peregrinos que visitavam continuamente o seu túmulo’. Antes de sua beatificação, em 1627, ‘o corpo foi cuidadosamente examinado e achado perfeitamente como no dia de sua morte, com a pele apresentando ainda a sua cor natural’, fato que salta aos olhos principalmente porque o seu corpo nunca tinha sido adequadamente sepultado, no correr de mais de 150 anos”. Seu corpo está até hoje exposto, incorrupto, aos peregrinos que visitarem a pequena comuna de Cássia, na Itália.

Roguemos, então, a Santa Rita de Cássia que nos alcance a todos a graça de Christo nihil praeponere — nada antepor a Cristo, e por nossa oração e penitência alcançar a conversão, própria e dos irmãos.

Por Gil Pierre de Toledo Herck

Referências
“Rita de Cássia, uma história de amor através do sofrimento”, publicada em 21 de maio de 2016, no site do Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior;
“Homilia diária 540 – Memória de Santa Rita de Cássia”, de 22 de maio de 2017 – site do Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior;
“Homilia diária 853 – Memória de Santa Rita de Cássia”, de 22 de maio de 2018 – site do Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior;
O homem que não vendeu sua alma, 1966, direção Fred Zinnemann, roteiro Robert Bolt.[/vc_column_text]

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