Que Nossa Senhora Aparecida, a quem o imperador dom Pedro I consagrou o Brasil na ocasião da independência, vele solícita sobre o nosso futuro”, assim nos lembrou Dom Luiz de Orleans e Bragança, chefe da Casa Imperial do Brasil, nas comemorações de 7 de setembro do ano de 2017.
É interessante observar quanto podemos ir mais adiante quando recorremos à proteção da Mãe de Deus e nossa mãe, Maria Santíssima. Dom Pedro I, sem dúvida, tinha plena consciência da poderosa intercessão da Virgem Maria na história humana e no futuro das nações e não se furtou a pedir sua solícita atenção maternal.
A história registra que Dom Pedro, então príncipe regente, viajando do Rio de Janeiro para São Paulo, quis deter-se diante da imagem da Aparecida para pedir aos pés da imagem, encontrada em 1717, no Rio Paraíba, a sua proteção. A situação política da época impunha-lhe muitas pressões por parte de seus compatriotas para que proclamasse a nossa independência de Portugal. Uma decisão difícil e de profundo impacto em nossas vidas.
O príncipe regente prometeu consagrar o Brasil à Senhora da Conceição em sua oração, realizada em 22 de agosto de 1822. 15 dias depois, a 7 de setembro, na colina do Ipiranga, em São Paulo, nascia o Brasil independente, pelo brado do príncipe que assim se tornava nosso primeiro Imperador. Dom Pedro I cumpriu sua promessa: o Brasil tornou-se independente sob a proteção de Nossa Senhora Aparecida.
Oficialmente, a Igreja Católica deu a Nossa Senhora da Conceição Aparecida o título de padroeira do Brasil em 16 de julho de 1930, quando o então Papa Pio XI atendeu às súplicas dos bispos brasileiros. Em seu decreto, dizia o Santo Padre:
“Na plenitude de nosso poder apostólico, pelo teor das presentes Letras, constituímos e declaramos a Beatíssima Virgem Maria concebida sem mácula, sob o título de Aparecida, Padroeira Principal de todo o Brasil diante de Deus, acrescentando os privilégios litúrgicos e as outras honras que pelo costume competem aos Padroeiros dos lugares principais. (…)”.
“Concedendo isto para promover o bem espiritual dos fiéis no Brasil e para aumentar cada vez mais a sua devoção à Imaculada Mãe de Deus, decretamos que as presentes Letras são e permanecerão sempre firmes e eficazes, e surtirão seus plenos e inteiros efeitos”. Foram anos de devoção à Nossa Senhora Aparecida, propagados graças aos milagres que a cercaram desde seu encontro no Rio Paraíba, na Vila de Guaratinguetá, em outubro de 1717 pelos pescadores Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso.
O nome “Aparecida” deve-se ao fato de o pescador Felipe Pedroso ter levado consigo a imagem milagrosamente encontrada, a imagem “aparecida”, como diziam, para a sua casa, onde a conservou por mais ou menos 15 anos. Depois disso, fez presente dela a seu afilhado Atanásio, o qual construiu um tosco altar e nele colocou a imagem “aparecida”.
Desde então, a fama dos milagres e das graças alcançadas foi ganhando regiões cada vez mais distantes e de todas elas começaram a vir peregrinos em romaria para venerar a Imagem da Virgem Aparecida. Na história recente, o Papa Francisco, em sua primeira viagem apostólica, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude de 2013, na cidade do Rio de Janeiro, a exemplo do que havia feito o imperador dom Pedro I, recorreu à proteção de Maria, nossa Mãe, pelo bom êxito da Jornada Mundial da Juventude e colocou aos seus pés a vida do povo latino-americano.
Aparecida: chave de leitura para a missão da Igreja
Em Aparecida, Deus ofereceu ao Brasil a sua própria Mãe. Mas, em Aparecida, Deus deu também uma lição sobre Si mesmo, sobre o Seu modo de ser e agir, disse o Papa Francisco em discurso ao Episcopado Brasileiro.
Nesse mesmo discurso, proferido em junho de 2013, o Papa dizia-nos:
“Há um ensinamento que Deus quer nos oferecer. Sua beleza refletida na Mãe, concebida sem pecado original, emerge da obscuridade do rio. Em Aparecida, logo desde o início, Deus dá uma mensagem de recomposição do que está fraturado, de compactação do que está dividido. Muros, abismos, distâncias ainda hoje existentes estão destinados a desaparecer. A Igreja não pode descurar esta lição: ser instrumento de reconciliação.
Os pescadores não desprezam o mistério encontrado no rio, embora seja um mistério que aparece incompleto. Não jogam fora os pedaços do mistério. Esperam a plenitude. E esta não demora a chegar. Há aqui algo de sabedoria que devemos aprender. Há pedaços de um mistério, como partes de um mosaico, que vamos encontrando. Nós queremos ver muito rápido a totalidade; Deus, pelo contrário, faz-Se ver pouco a pouco. Também a Igreja deve aprender essa expectativa”.
“Depois, os pescadores trazem para casa o mistério. O povo simples tem sempre espaço para albergar o mistério. Talvez nós tenhamos reduzido a nossa exposição do mistério a uma explicação racional; no povo, pelo contrário, o mistério entra pelo coração. Na casa dos pobres, Deus encontra sempre lugar”.
“Os pescadores agasalham: revestem o mistério da Virgem pescada, como se ela tivesse frio e precisasse ser aquecida. Deus pede para ficar abrigado na parte mais quente de nós mesmos: o coração. Depois é Deus que irradia o calor de que precisamos, mas primeiro entra com o subterfúgio de quem mendiga. Os pescadores cobrem o mistério da Virgem com o manto pobre da sua fé. Chamam os vizinhos para verem a beleza encontrada; eles se reúnem à volta dela; contam as suas penas em sua presença e lhe confiam as suas causas. Permitem assim que possam implementar-se as intenções de Deus: uma graça, depois a outra; uma graça que abre para outra; uma graça que prepara outra. Gradualmente Deus vai desdobrando a humildade misteriosa de Sua força”.
E continuou Francisco: “Há muito para aprender nessa atitude dos pescadores. Uma Igreja que dá espaço ao mistério de Deus; uma Igreja que alberga de tal modo em si mesma esse mistério que ele possa encantar as pessoas, atraí-las. Somente a beleza de Deus pode atrair. O caminho de Deus é o encanto que atrai. Deus faz-Se levar para casa. Ele desperta no homem o desejo de guardá-Lo em sua própria vida, na própria casa, em seu coração. Ele desperta em nós o desejo de chamar os vizinhos para dar-lhes a conhecer a Sua beleza. A missão nasce precisamente dessa fascinação divina, dessa maravilha do encontro. Falamos de missão, de Igreja missionária. Penso nos pescadores que chamam seus vizinhos para verem o mistério da Virgem, sem a simplicidade do seu comportamento, a nossa missão está fadada ao fracasso”.
“A Igreja tem sempre a necessidade urgente de não desaprender a lição de Aparecida; não a pode esquecer.
As redes da Igreja são frágeis, talvez remendadas; a barca da Igreja não tem a força dos grandes transatlânticos que cruzam os oceanos. E, contudo, Deus quer se manifestar justamente por nossos meios, meios pobres, porque é sempre Ele que está agindo”.
A Igreja Católica dedica o dia 12 de outubro, feriado nacional no Brasil, a Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Uma data em que devemos intensificar nossas orações e nosso trato filial com a Mãe de Deus e nossa Mãe, Maria Santíssima.
Aparecida surgiu em um lugar de cruzamento, ainda nos lembra o Papa Francisco. “A estrada que ligava Rio, a capital, com São Paulo, a província empreendedora que estava nascendo, e Minas Gerais, as minas muito cobiçadas pelas cortes europeias: uma encruzilhada do Brasil colonial. Deus aparece nos cruzamentos”. Novamente, o Brasil parece estar numa encruzilhada. Logo, tenhamos a plena convicção de que não estamos sozinhos neste momento de escolhas para o futuro da nação.
“Me disseram, porém, que eu viesse aqui”, canta Renato Teixeira na belíssima música Romaria. “Para pedir em romaria e prece/Paz nos desaventos.” Sem dúvida, um dos versos mais bonitos dedicados a Nossa Mãe, Maria Santíssima, registrado em nossa música popular sertaneja. “Como eu não sei rezar, só queria mostrar/ Meu olhar, meu olhar, meu olhar”.
Basta apenas um olhar para que Nossa Senhora Aparecida “vele solícita sobre o nosso futuro”. Basta apenas um olhar! É preciso darmos graças a Nosso Senhor Jesus Cristo por ter nos dados a Sua Mãe, a Virgem Maria, como Padroeira do Brasil entre os “rios e a lama da história”. Uma graça que sempre precisamos agradecer, a todo o momento.
Que Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, continue a estender o seu olhar sobre o chão de nossas vidas, sobre nós e nossos lares, sobre a nossa pátria e o seu futuro, e a confirmar-nos na unidade.
Por Alecsandro Araujo de Souza
Fontes:Rainha do Brasil – A maravilhosa história e os milagres de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Gustavo Antônio Solimeo e Luiz Sérgio Solimeo. Editora Diários das Leis Ltda.
Visita Apostólica do Papa Francisco ao Brasil por ocasião da XXVIII Jornada Mundial da Juventude. Encontro com o Episcopado Brasileiro. Discurso do Santo Padre. 27 de julho de 2013.


