Lembro com clareza dos dias que passei, em meados de 2015, no Cemitério Ecumênico São Francisco de Paula. As pessoas que conheci, em sua maioria, não queriam estar lá e tampouco gostavam da minha presença. Eu dividia com elas a sensação de que o meu estar ali era inoportuno — mas, armado de bloco e caneta e determinado a levar a cabo o trabalho que tinha ido realizar, persisti.
Um pouco de contexto para o leitor: em 2015 eu estava na faculdade, e minhas matérias dividiam-se em disciplinas teóricas e práticas. As teóricas funcionavam como qualquer outra matéria de qualquer outro curso de graduação na área de humanidades – leitura, leitura, leitura; e, nas práticas, nos enviavam a campo para investigar situações concretas da vida humana e, com alguma sorte, chegar a conclusões menos do que óbvias sobre o que havíamos visto. Nesta situação em particular, eu fora incumbido de aprender mais sobre o comportamento e as crenças dos que frequentavam o cemitério.
Uma das coisas que mais me chamou atenção foi como todos tinham pressa: ninguém corria, mas um ritmo curioso conduzia seus passos, similar ao que eu esperaria de alguém que caminha sozinho por uma rua escura. Não era medo. Não acho que as pessoas que estavam indo visitar seus entes queridos estivessem assustadas, e tampouco acredito que lhes preocupasse a ideia de assombrações ou algo assim. Todos estavam, simplesmente, desconfortáveis.
Mas por quê? Parece óbvio, eu sei – “as pessoas estavam desconfortáveis porque estavam no cemitério, e isso é motivo o suficiente”, pode dizer um leitor, e ele não estaria de todo errado, mas a pergunta permanece: por quê? Este nível de desconforto frente aos mortos e à morte num geral, pode parecer normal para nós, mas é um fenômeno recente: basta nos lembrarmos, por exemplo, das fotografias post mortem, comuns no século XIX, em que os mortos – especialmente crianças – eram vestidos, posados como se ainda estivessem vivos e fotografados junto ao resto da família.
Não digo que seja de todo incompreensível um certo desconforto ou temor diante da realidade da morte. Muito pelo contrário: em seu íntimo, o ser humano sabe que foi feito para a eternidade e reconhece a morte como algo inatural, fruto do pecado. Até os santos reconhecem a sensação: Santo Agostinho, por exemplo, comparava a morte a um inimigo que vinha separar, com violência, dois amantes – o corpo e a alma. Mesmo para o cristão bem formado e de vida espiritual ativa, a morte ainda é uma incógnita, ainda é um passo duvidoso que se dá no escuro, para uma realidade que, em última instância, permanece desconhecida: a morte é uma janela que se abre para um grande mistério e, frente a todo mistério, o silêncio e a reticência não só são compreensíveis, mas esperados.
Reticência é, entretanto, muito diferente das posturas atuais em relação à morte: por um lado, cultua-se a juventude, a vitalidade e o corpo, como se a chave da felicidade estivesse em preservar, até o último momento possível, o vigor físico; em varrer a certeza da morte para debaixo do tapete e ocultar todo sinal de nosso invariável retorno ao pó. Por outro lado, parece surgir um tipo de culto à morte: as temáticas de serial killers e massacres crescem no imaginário popular; defende-se o suicídio assistido e a eutanásia; tenta-se elevar o aborto, assassinato intrauterino de bebês, à condição de direito…
Sean Fitzpatrick bem diagnosticou, em seu artigo “Mantendo Contato com a Morte” , que “Há uma diferença quase religiosa entre a caveira numa jaqueta de couro e aquela que Charles Ryder tinha em Oxford, com ‘Et in Arcadia Ego’(‘Mesmo em Arcádia, ali estou’) gravada em sua testa. A última é mística, a primeira, niilista”. Uma diferença similar existe entre, por exemplo, as fotos post mortem de que falamos alguns parágrafos acima e as esculturas com cadáveres feitas pelo alemão Gunther von Hagens: enquanto aquele tipo de fotografia reforçava a humanidade do falecido, Hagens arranca do corpo a dignidade de ser humano e o reduz a um tipo de matéria prima genérica e desimportante.
Entre os dois polos da insanidade, persiste a sanidade da Cruz. A morte entrou no mundo como punição pelo pecado original, e é humanamente triste, tão triste que o próprio Cristo chorou pela morte de Lázaro (Jo 11:35), mas também foi Cristo que, pouco depois, o trouxe de volta a vida (Jo 11:43). Morrendo na Cruz por nossos pecados e ressuscitando ao terceiro dia, Jesus venceu a morte e garantiu, para todos aqueles que seguirem Seus passos, a ressurreição e a vida eterna.
Assim, desde os princípios do cristianismo, a Santa Igreja tem repetido: memento mori. Lembre-se de que é mortal. Lembre-se de que vai morrer. Ao passar seus dias tendo em vista o seu último, as coisas entram em perspectiva e assumem sua verdadeira dimensão – por isto que o Pe. André Paiva, no trecho com que iniciamos este artigo, chama a morte de “a verdadeira filosofia”: apenas olhando-nos e à nossa vida frente ao espelho da eternidade é que podemos viver bem e, dando à vida sua devida importância, morrer bem.
No meio do caos e do ruído da modernidade, das polêmicas e do corre-corre cotidiano, meditar junto aos santos e sobre nossa condição mortal é lembrar de que tudo o que fazemos não fazemos para nós, mas em continuação de tudo que fizeram antes de nós e para todos aqueles que virão depois. A vida humana, quando vivida sob a luz da eternidade, não é nem um exercício de vaidade, nem, como no poema de Dylan, um gesto de fúria contra a luz que se anuvia, mas, parafraseando Santa Teresinha, um brevíssimo instante onde nos preparamos para a vida eterna.
Por Rodrigo Gurgel Filho
Antropólogo. Mestrando em
Filosofia pela UNIFESP.


