Há um mistério que circunda a vida de Santa Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face, conhecida popularmente como Santa Teresinha. A Florzinha do Carmelo – apelido carinhoso – viveu uma vida escondida dos olhos do mundo. Viveu apenas 15 anos no mundo e outros 8 no Carmelo de Lisieux, na França. Morreu com somente 24 anos em 1897. Deixou um livro de memórias, algumas cartas e poemas escritos. No total, sua obra escrita não deve superar as 500 páginas.
No entanto, em 1997, São João Paulo II declarou Santa Teresinha Doutora da Igreja. Ora, basta compará-la com outros doutores da Igreja para perceber o quão surpreendente foi a decisão do Papa. Santo Tomás compôs uma obra teológica monumental. Santo Agostinho é considerado um dos maiores filósofos e retóricos da humanidade. Santo Antônio de Pádua deixou uma enorme quantidade de sermões riquíssimos. Mesmo Santa Teresa D’Ávila deixou obras importantíssimas de espiritualidade e é considerada um clássico da língua espanhola.
O título de Doutor, sinal de que a Igreja considera determinada doutrina de um santo confiável e universal, útil a todos os cristãos, foi concedido apenas a 36 santos. Qual seria, então, a utilidade e a universalidade da doutrina de uma pequena santa, morta aos 24 anos em uma pequena cidade, que escreveu apenas um livro de memórias?
A resposta se encontra escondida na própria pergunta: Santa Teresinha nos ensinou a ser pequenos, crianças. Ela nos ensinou a chamada Infância Espiritual.
O termo Infância Espiritual pode levar a equívocos. Não se trata de ser criança mimada, caprichosa, que deseja impor suas veleidades. Em Santa Teresinha, ser criança é viver a confiança e pobreza diante de Deus, na certeza de que ambas as atitudes atraem irresistivelmente o amor divino. O próprio Jesus prescreveu a necessidade de sermos como crianças para entrarmos no Reino do Céus (cf. Mt 3,18).
O fundamento dessa atitude espiritual surge da constatação de que o amor de Deus é “ciumento”. Deus nos quer inteiramente para Si e, quando encontra na alma um outro amor que a afasta d’Ele, entristece-se. O ciúme de Deus não pode ser compreendido como um defeito ou um exagero; ao contrário, ele revela a grandeza e a perfeição divinas, pois Deus nos quer dar o melhor: a Si mesmo. Como um pai cuja única alegria é ter o filho para si, para amá-lo plenamente, a alegria de Deus é ter-nos como filhos, de maneira ciumenta.
Se o amor de Deus é ciumento, ele também é gratuito. Deus não exige nada em troca para nos amar, pois Ele “nos amou por primeiro” (1Jo 4,10). Para compreendermos melhor essa realidade gratuita do amor, imaginemos o seguinte. Qual das duas pessoas é mais perfeita amar: uma mulher bonita, bem vestida, rica, cheirosa, amável, educada ou um mendigo feio, mal vestido, raivoso, mal agradecido? Amar a mulher bonita e rica não exige de nós grandes esforços e, por isso, o nosso amor para com ela se reveste, no fundo, de um profundo egoísmo, já que é agradável para nós ficarmos a seu lado. Já o amor ao mendigo é mais difícil, mas é mais perfeito, pois, amando-o, não ganhamos nada em troca. Não digo que não é possível amar de verdade a mulher bonita, mas esse amor deve ser aquele que não quer receber nada em troca.
O amor de Deus, portanto, é do segundo tipo, aquele que não procura nada em troca do seu amor. A alegria de Deus é jogar-se num coração pobre, que não tem nada para oferecer-Lhe a não ser sua miséria. Já um coração “rico”, cheio de si, que se acha superior aos outros, não atrai a Deus, pois Ele quer amar gratuitamente.
Apresente-se perante Deus com méritos, e Deus não se sentirá tão atraído por você. Apresente-se como uma criança, um pequenino, sem mérito algum, aí sim Deus se dará inteiramente.
Esse é o fundamento da Infância Espiritual. Deus quer nos amar e, para isso, a melhor forma de nos apresentarmos diante d’Ele é como crianças, pois, assim, Ele pode demonstrar mais abundantemente o seu amor. É esse o segredo da infância espiritual!
Como atingir essa infância? Como viver como criança diante de Deus? O caminho para atingir essa meta não é fácil. O pecado nos torna orgulhosos e apegados e, mesmo as boas obras que fazemos estão, de uma maneira ou de outra, eivadas de amor próprio. Quantas vezes não pensamos que somos pessoas boas porque ajudamos tal mendigo ou porque fomos à Missa ou rezamos o terço? Essa atitude de orgulho das boas ações impede que vivamos a Infância Espiritual, já que deixamos de nos apresentar a Deus como crianças desprovidas de méritos, mas como adultos cheios de boas obras, exigindo de Deus o pagamento pelas ações praticadas.
Se é tão contrário à nossa natureza decaída a prática da humildade, Santa Teresinha apresenta um caminho curto e certo para alcançá-la: a fidelidade às pequenas coisas e ao dever de estado. A chamada Pequena Via.
Teresinha parte da constatação de que é incapaz das grandes obras dos santos. Não consegue fazer grandes jejuns, não faz grandes obras de caridade e não proclama grandes sermões para a conversão dos pecadores. Essa percepção de sua pequenez inquieta o coração da Santa. Como ela poderia retribuir o amor infinito de Deus?
Eis que Santa Teresinha percebe uma realidade espiritual profunda: se admitimos nossa incapacidade para as grandes obras, só nos resta as pequenas; e se isso é verdade, ser fiel às pequenas coisas é um caminho certo para adquirir a pequenez necessária para a Infância Espiritual.
Assim, Santa Teresinha abriu um caminho de santidade para multidões de almas pequenas, como as nossas, que não podem fazer as grandes obras dos santos mas que podem humilhar-se com a fidelidade às obrigações do dia a dia.
Nisto reside a grande ‘novidade’ trazida por Santa Teresinha, que lhe mereceu o título de Doutora da Igreja: ser pequeno não significa ser pior ou menos amado por Deus. Não fazer milagres, não fazer grandes penitências ou obras de caridade não significa que Deus não quer que sejamos grandes santos. Entretanto, a novidade não se resume a isso. A Flor do Carmelo reverte ainda mais o que normalmente se pensa sobre santidade.
Para ela, aos olhos de Deus é melhor ser pequeno do que grande, porque, sendo pequenos, Ele pode nos amar mais perfeitamente, uma vez que – como dito acima – amar aquele que não pode dar nada em troca é próprio do amor de Deus. Assim, Santa Teresinha não ‘reclama’ de sua pequenez; ao contrário, essa é a única coisa à qual Teresinha se agarra e se ‘orgulha’. Seu grande sonho era apresentar-se a Jesus, depois da morte, de ‘mãos vazias’, para que Jesus Se sentisse como que obrigado a amá-la.
‘De mãos vazias’ não porque não realizou nenhuma boa obra, mas porque reconhece a sua pequenez e incapacidade de fazer qualquer coisa boa sem a graça divina.
Assim, a doutrina de Santa Teresinha é uma proclamação da ação soberana de Deus na nossa santificação. Quem nos santifica é Deus e não nossos esforços. Estes são importantes, mas apenas à medida que abrem espaço em nosso coração para a ação da graça.
Pensemos, então, como em nossas vidas podemos viver a Infância Espiritual. Às vezes, não podemos oferecer a Deus a não ser uma louça lavada ou um sorriso para quem precisa. Ofereçamos, então. Digamos: “Deus, sou pequeno e fraco, não posso fazer grandes coisas por Vós. Mas posso, agora, lavar esse prato com amor. Que, lavando-o, eu reconheça a minha pequenez e que Vosso amor venha rápido em meu socorro, porque Vós não podeis ver um coração pequeno sem se jogar imediatamente nele”.
Diminuamos de tamanho para crescer. Afinal, Nosso Senhor não disse: “Quem se humilhar será exaltado e quem se exaltar será humilhado” (Mt 23,12)?
Por Gustavo Catania Ramos

