Nesta edição do Informativo Nossa Senhora do Brasil inauguramos, por sugestão de nosso pároco, uma seção dedicada a tirar dúvidas que os paroquianos possam ter sobre a doutrina católica. Para isto, e inspirados no caprichado e abrangente quadro “A Resposta Católica”, do site do Padre Paulo Ricardo, nossa intenção é selecionar – dentre as perguntas que você, leitor, remeter ao e-mail revistansb@gmail.com – as dúvidas mais recorrentes e representativas, de modo a estarmos todos sempre prontos a dar a razão de nossa esperança a todo aquele que no-la pedir (1Pe 3,15).

No ensejo, então, da vindoura Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, queremos esclarecer as diferenças – infelizmente tão obscurecidas na concepção de muitos fiéis – entre a religião Católica e o espiritismo.
O primeiro ponto importante é saber se os espíritas são ou não cristãos: é que, embora eles frequentemente digam sê-lo, basta perguntar a um espírita se ele acredita que Jesus de Nazaré é Deus (e não um mero guia, ou espírito iluminado) para constatar, por sua resposta negativa, que eles não professam a divindade de Cristo. Quando, portanto, dizem ser cristãos, os espíritas impõem a essa palavra um sentido próprio, diferente de seu significado original – o que, naturalmente, leva a erro seus interlocutores: afinal, se eu usasse a palavra gato para significar um cachorro, meu interlocutor naturalmente tomaria minhas palavras como alusivas ao felino.

Como, porém, o termo cristão é às vezes utilizado com um sentido atécnico e muito vago (algo como “boa pessoa”, “caridoso”, etc.), convém deixar claro que, ao dizermos que os espíritas não são cristãos, não lhes queremos fazer injúria: trata-se simplesmente de esclarecer que, embora se autodenominem cristãos, eles não creem que “Jesus de Nazaré, judeu nascido duma filha de Israel, em Belém, no tempo do rei Herodes o Grande e do imperador César Augusto, carpinteiro de profissão, morto crucificado em Jerusalém sob o procurador Pôncio Pilatos no reinado do imperador Tibério, é o Filho eterno de Deus feito homem; que Ele ‘saiu de Deus’ (Jo 13, 3), ‘desceu do céu’ (Jo 3, 13; 6, 33) e ‘veio na carne’” (cf. Jo 4, 2-3) – e assim sendo, os espíritas não aceitam a doutrina cristã (CIC § 423-424).

Nesse sentido, assim como a própria Federação Espírita Brasileira, em sua declaração oficial de 2 de janeiro de 1978, declarou “imprópria, ilegítima e abusiva a designação de espíritas adotada por pessoas, tendas, núcleos, terreiros, centros, grupos, associações e outras entidades que, mesmo quando legalmente autorizadas a usar o título, não praticam a doutrina espírita” – isto é, “o conjunto de princípios básicos codificados por Allan Kardec” –, assim também nós católicos podemos, sob o mesmo princípio de razão, declarar imprópria, ilegítima e abusiva a designação de cristãos adotada por pessoas, centros, terreiros ou outras entidades que, mesmo que legalmente autorizados a usar o título, não praticam a doutrina cristã – ou seja, os ensinamentos dos apóstolos de Cristo e de seus sucessores, os bispos católicos (a respeito da autoridade magisterial da Igreja, para ensinar em nome de Deus, confira-se os textos que publicamos nas três últimas edições do Informativo).

Em segundo lugar, é importante estremar bem as concepções cristã e espírita acerca da Revelação. Para nós Cristãos, após ter Deus dado início à Revelação ao longo de muitos séculos, através dos profetas (Heb 1,1-2), Ele ultimou-a plenamente vindo em pessoa revelar-Se, pois “Cristo, Filho de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai” (CIC § 65). Já para os espíritas, existiriam três revelações: uma primeira revelação, com Moisés; uma segunda, com Cristo; e uma terceira, que supostamente “Chegou numa época de emancipação e maturidade intelectual, na qual o homem não aceita nada às cegas”.

Nós católicos, no entanto, professando a divindade do Verbo Encarnado, sabemos que “Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra – e não tem outra – Deus disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem para dizer. (…) Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho. E por isso, quem agora quisesse consultar a Deus ou pedir-Lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d’Ele outra realidade ou novidade” (S. João da Cruz, CIC § 65). Em outras palavras “A fé cristã não pode aceitar ‘revelações’ que pretendam ultrapassar ou corrigir a Revelação de que Cristo é a plenitude” (CIC § 67).

Em terceiro lugar – e mais particularmente relacionada ao Dia de Finados – está a questão do destino de nossas almas após a morte: a vida eterna.

Para os espíritas, as pessoas supostamente reencarnam em várias existências, progredindo ou regredindo em função das experiências que adquirem. Além disso, seria possível comunicar-se com os mortos (a quem chamam “seres humanos desencarnados”) através dos médiuns.

Nós católicos, por outro lado, sabemos que “está determinado que cada um morra uma só vez, e depois vem o julgamento” (Heb 9, 27). Não há reencarnação: cada um de nós tem apenas esta vida para conhecer, amar e servir a Deus, e será definitivamente julgado quando de sua morte.

Mas, se não reencarnamos, o que acontecerá conosco após esta vida? Há três possibilidade: o Céu – para aqueles que morrem em estado de graça, com todos os pecados graves perdoados, e já perfeitamente purificados através de suas boas obras e penitências –; o Purgatório – para aqueles que, embora seguros de sua salvação e mortos em estado de graça, necessitam ainda de purificação antes de contemplarem a Deus face à face –; e o Inferno – para aqueles que morrem fora do estado de graça (por exemplo, por não terem buscado o perdão sacramental de seus pecados). O Céu e o Inferno são definitivos – as almas ali ficarão por toda a eternidade. Já o Purgatório é provisório – findada sua purificação, aquelas almas irão todas para o Céu.

O que nós, fiéis católicos vivos nesta terra, podemos fazer por nossos irmãos que adormeceram na fé, é rezar por eles, para que tenham suas penas aliviadas – se estiverem no Purgatório –, e como forma de dar graças a Deus – se estiverem no Céu.

E, enfim, quanto à invocação dos mortos, a Igreja proíbe terminantemente esta prática, que expõe aqueles que se lhe entregam a gravíssimos perigos espirituais (Cf. Lv 20, 27; Dt 18, 10ss; 2 Rs 21, 6; 23, 24; 1 Cr 10, 13; Is 8, 19).
Sejamos, então, fiéis a Cristo (o Caminho, a Verdade e a Vida; cf. Jo 14,6) – e, por consequência, à sua Igreja –, rejeitando tudo aquilo que se lhe opõe.

Para a próxima edição, contamos com suas perguntas, caro leitor!
Esperamos sejam estas linhas, neste mês da Bíblia, estímulo a que também nós Católicos busquemos conhecer e beber mais desta que, junto com a Sagrada Tradição e o Sagrado Magistério, é fonte da Palavra de Deus — solum verbum Dei.

Por Gil Pierre de Toledo Herck
Referências:
A Resposta Católica n. 5, “Por que a Igreja condena o espiritismo?”, publicada em 10 de abril de 2011, no site do Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior;
A Resposta Católica n. 90, “Um espírita é ou não cristão?”, publicada em 26 de maio de 2012, no site do Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior;
A Resposta Católica n. 198, “Quais as consequências de se crer na reencarnação?” publicada em 3 de dezembro de 2013, no site do Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior;
Ao vivo com Pe. Paulo n. 81, “O espiritismo é cristão?”, publicada em 16 de março de 2014, no site do Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior;
“É possível dialogar com o espiritismo?, Frei Boaventura Kloppenburg, publicada em 22 de agosto de 2017, no site do Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior;
“Quem são os ‘finados’ pelos quais devemos rezar?”, Beato Tiago de Varazze, publicada em 1º de novembro de 2017, no site do Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior;
“A herança protestante do espiritismo”, Frei Boaventura Kloppenburg, publicada em 9 de maio de 2018, no site do Pe. Paulo Ricardo de Azevedo Júnior.

Charis

Em dezembro de 2018, o Papa Francisco constituiu um novo serviço para a “corrente de graças” que é a Renovação Carismática Católica (RCC). Este serviço que se chama CHARIS (Catholic Charismatic [...]

Ordem de malta

É com imensa alegria que recebemos o convite do nosso querido Pároco, Padre Michelino Roberto, da Paróquia Nossa Senhora do Brasil, também Capelão da Ordem de Malta, para escrever algumas linhas [...]

Comece a digitar e pressione Enter para pesquisar