Convidado em 1986 para conduzir um retiro com sacerdotes do movimento Comunhão e Libertação, o então Cardeal Joseph Ratzinger propôs-lhes Exercícios de Fé, Esperança e Caridade.
A finalidade de todo exercício, dizia, é sempre aprimorar uma determinada arte ou saber-fazer: um idioma, uma modalidade atlética, etc. Mas que arte, então, queremos desenvolver com exercícios espirituais? A arte do ser cristão, do viver a existência humana da forma mais plena possível – que pode por isso ser chamada a arte das artes. E através de qual ato se exercita esta arte? Através do ato de fé.
Para entendermos melhor em que consiste, partamos da fé que exercemos corriqueiramente em nosso dia-a-dia, quando subimos num arranha-céu, tomamos um avião ou ingerimos um medicamento. A maioria de nós não possui propriamente conhecimento sobre essas (e tantas outras) tecnologias que utiliza – e portanto atua aí com base em atos de fé, escorada, por um lado, na credibilidade dos engenheiros ou farmacólogos, tidos como autoridade credenciada no assunto, e, por outro, na percepção geral de que os prédios normalmente ficam de pé, os aviões não costumam cair, e os medicamentos, de hábito, sanam.
Este exame da fé na vida cotidiana nos permite afirmar, quanto ao seu valor, que ela, embora tida como inferior ao conhecimento – afinal, a opinião de um especialista sobre resistência de materiais vale mais que a minha – é inegavelmente imprescindível ao convívio social: a vida seria simplesmente impraticável se cada um só atuasse com base no próprio conhecimento, sem recorrer à fé. O mesmo exame nos mostra também que a fé, quanto à estrutura de seu ato, se decompõe em três elementos: primeiro, um pequeno punhado de pessoas que “sabem” o assunto, por conhecimento próprio; segundo, uma grande multidão que, sem rigorosamente conhecer, confia nas pessoas acreditadas; e terceiro, a verificação deste saber na experiência geral da vida.
Ao propormos esta abordagem didática para entender a fé enquanto ato fundamental da existência cristã, pode alguém logo nos objetar que, conforme admite a própria Igreja, existem na doutrina cristã algumas verdades que, por transcenderem o alcance da mera razão, “o homem de modo nenhum pode atingir por suas próprias forças” (a chamada Revelação; CIC n. 50) – e a cujo respeito, portanto, não pode haver um conjunto de especialistas que detenham, por investigação racional, conhecimento próprio.
Esta objeção é mais ponderosa se provinda de um agnóstico: pois a posição do ateu, de quem professa saber, em sentido estrito, que Deus não existe, é sempre carregada de um dogmatismo e pretensão exagerados. É sintomático que o biólogo Richard Dawkins – talvez o mais engajado prosélito do ateísmo em nossos tempos –, nem sequer quando apresenta o que chama de “the central argument of my book”, consegue provar logicamente o ateísmo: antes, conclui ele apenas que “God almost certainly does not exist” (The God Delusion, pp. 157-158). Ora: esta conclusão, como bem costuma advertir o apologeta americano William L. Craig, não basta ao ateísmo – ela nos deixa, no mais extremo dos casos, com a incerteza do agnosticismo.
E ao agnóstico, então, que poderíamos responder? Porventura não conviria à pessoa madura e crítica de nossos dias suspender o juízo sobre estas matérias, e esperar que a ciência consiga desvendá-las?
Esta proposta pode nos tentar a apontar, de bate-pronto, a incapacidade da ciência de abranger o todo do humano: “a sede do infinito faz parte da essência do homem”. Como dizia o mesmo Craig em seu célebre debate com o químico Peter Atkins, a ciência, por sua própria natureza, é incapaz de fazer juízos estéticos ou morais (v.g. distinguir o belo do feio ou o bom do mau), ou ainda metafísicos (v.g. afirmar a existência de outras mentes além da minha), e nem sequer é capaz de provar as leis da matemática ou da lógica (que são seu pressuposto de trabalho). A esta lista poderíamos acrescentar a uniformidade da causação – premissa necessária a todas as ciências naturais, da qual no entanto partem como postulado não demonstrado (e não demonstrável). Uma tal abordagem, no entanto, teria provavelmente pouca acolhida junto ao agnóstico, porque sequer se dá ao trabalho de analisar a viabilidade de sua proposta.
Se, por outro lado, propusermo-nos a mergulhar seriamente na proposta de abster-se de qualquer tomada de posição quanto à questão de Deus, enxergaremos o agnosticismo como brilhante na teoria, porém irrealizável na prática – e isso porque o que está em jogo não é uma investigação puramente especulativa (como, v.g., a pergunta sobre a existência de elementos químicos ainda desconhecidos), senão uma questão de prática de vida, que respondemos, de uma forma ou de outra, cada vez que nos levantamos do leito. “Se, portanto, faço valer o agnosticismo na teoria, na prática devo decidir entre duas possibilidades: viver como se Deus não existisse ou viver como se Deus existisse e fosse a verdade normativa da minha existência. No primeiro caso, adotei praticamente uma posição ateísta, fazendo de uma hipótese que pode ser falsa a base de toda a minha vida. (…) Para o homem, não há neutralidade possível diante da pergunta sobre Deus”.
A proposta agnóstica não deixa de aproximar-se, portanto, da parábola do rico cujas terras deram uma grande colheita (Lc12,16-21). É, sem dúvida, um sujeito bastante capaz: atua com base em sua expertise do mercado e da agricultura; confia apenas no que é seguro e mensurável (por isso, não pode ser ateu); e elege como objetivo de vida o bem-estar, a utilidade do intramundano e tangível. É, porém, insensato: no dia em que acredita ter assegurada sua felicidade, Deus chama-o a Si e pede-lhe contas de sua alma.
A verdadeira miopia, então, não está tanto do lado teísta, mas sim em limitar o olhar ao empírico e palpável, e excluir da investigação esta elevadíssima abertura e grito íntimo do homem ao transcendente. O homem verdadeiramente crítico é o vigilante para com a totalidade do ser, e disposto a curvar-se à majestade da verdade, mais como indigente que como altivo juiz. Ao perguntar seu Quid est veritas, (anagrama perfeito, aliás, para Est vir qui adest, “É o homem à tua frente”), Pilatos não desejava verdadeiramente saber “O que é a Verdade”, não estava disposto a aceitar as exigências dela – pois caso contrário teria esperado a resposta, ao invés de sair abruptamente da presença do Senhor (Jo18,38).
Além de apontar a inviabilidade prática de sua proposta, podemos ainda mostrar ao agnóstico que, embora haja conteúdos da Revelação inalcançáveis pela só razão humana (v.g. a união hipostática ou a transubstanciação), a existência de Deus, em si, é perfeitamente alcançável por nossas forças humanas: “Pela razão natural, o homem pode conhecer Deus com certeza, a partir das suas obras” (CIC ns. 50, 31-36). Uma excelente introdução a esta chamada teologia natural, por sinal, é o citado debate entre Craig e Atkins, facilmente encontrável na internet.
E nem sequer quanto aos conteúdos estritamente revelados é exato dizer que não há quem os conheça – pois também aqui a algumas pessoas foi dado enxergar: “Vosso pai Abraão exultou com o pensamento de ver o meu dia, viu-o e se alegrou” (Jo8,56). No antigo testamento, com efeito, eram os profetas aqueles a quem Deus concedia uma visão particular de Si – a Moisés que lhe pedia ver Sua glória, Deus mostrou-Se (ainda que só “pelas costas”), e o profeta, ao descer do Sinai, não percebeu que “a pele de seu rosto resplandecia depois de o Senhor ter falado com ele” (Ex33,23; 34,29). Na nova e eterna aliança sob que vivemos (Lc22,20), o caminho a esta contemplação especial do próprio Deus está aberto em Jesus: “Quem me viu a mim viu ao Pai” (Jo14,9).
Mas quem serão estas pessoas que, pela amizade especial que têm com Jesus, dispõem de uma visão particular de Deus? Os santos! Daí que S. Tomás advertia que a “visão” ou o “conhecimento” de Deus que os santos possuem é o ponto de referência e o ancoramento de toda investigação teológica – a qual, se desprendida do “realismo dos santos”, perde sua legitimidade.
Superada, portanto, a objeção ateia e agnóstica àquela figura didática da “fé cotidiana”, resta ver como cada um dos seus três elementos se aplica à virtude teologal.
Primeiro, assim como há um punhado de engenheiros que, por possuírem um conhecimento específico superior ao dos demais, são autoridade na aeronáutica, assim também o conjunto dos fiéis deve referenciar-se aos “especialistas” no assunto: os santos, que em todas as épocas vem professando a mesma e única Tradição.
Em segundo lugar, e da mesma forma com que a vida concreta nos mostra que o avião, de fato, voa (e assim confirma o ensinamento dos engenheiros), o mesmo vale para com a experiência na fé: pela vivência da fé e pelo encontro vivo com Jesus, ela se torna conhecimento. Os homens de Sicar, depois de primeiro crerem em Jesus “por causa da palavra da mulher que testemunhava” e conviverem com o Senhor, passaram já a crer “pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo” (Jo4,39-42). Um cristão que verdadeiramente se deixa formar e guiar pela fé da Igreja se torna, em toda sua debilidade, uma janela para a luz do Deus vivo. Foi assim, aliás, que a Igreja antiga cresceu, depois do fim da era apostólica: não por um esforço missionário institucional, mas pela unidade de vida, orientada pela fé, testemunhável em cada fiel – um convite irresistível ao mundo pagão circundante.
Por último, assim como a aeronáutica opera no mundo com um grande número de pessoas que, juntas, confiam na ciência dos engenheiros, o ato de fé também necessariamente nos coloca em comunhão com a totalidade dos que igualmente buscam se unir a Jesus: “a fé é necessariamente a fé eclesiástica”.
Por Gil Pierre de Toledo Herck
Baseado em Olhar para Cristo, Joseph Ratzinger, Ed. Quadrante.
Você quer saber mais sobre algum ensinamento da Igreja?
Envie suas dúvidas para revistansb@gmail.com


