Desejava hoje falar-vos sobre a Confissão, e já no começo – a parte mais importante da conversa – vou contar uma piada. 

Um Padre amigo meu um dia foi ouvir a confissão das crianças de sua paróquia: “– Eu joguei o machado no riacho, Padre”, diz o primeiro. “– Isso não é pecado, meu filho”, assegura-lhe, um tanto intrigado. O menino sai do confessionário e é sucedido por um seu colega, que se acusa do mesmo pecado. E assim também um terceiro, e depois um quarto. Quando o quinto menino se ajoelha à sua frente, o sacerdote o interpela: “– E então, você também jogou o machado no rio, eu imagino?” A resposta: “– Não, não, Sr. Padre. Eu sou o Machado!”

Provado, então, que é possível falar sobre a Confissão sem constrangimento, avancemos a este tema tão atual. A nossa época, de fato, tem uma posição única quanto à Confissão, porque é a primeira época que sistematicamente nega a existência do pecado. Como notou o famoso psiquiatra Karl Menninger em seu O que aconteceu com o pecado?, nós reduzimos a realidade do pecado primeiro ao conceito de ilícito civil, e depois ao de patologia psíquica. O que chamávamos luxúria hoje não passa de uma “manifestação de sensualidade”; a antiga ira se transformou em “espontaneidade para com as próprias emoções”. Vivemos num mundo de imaculados, de concebidos sem pecado.

A verdade, porém, é que somos sim pecadores – um pecado na alma de uma pessoa é como um transplante de coração rejeitado, que o organismo não assimila por ser-lhe um corpo estranho, ou ainda como um osso quebrado, que dói por estar fora de seu lugar devido. 

Negar a realidade do pecado não altera em nada sua existência, e ainda por cima nos impede de alcançar o perdão e a Graça: o braço quebrado, se não for imobilizado, não cicatriza. E por mais que tentemos muitas vezes reprimir a voz de nossa consciência com todo tipo de distração sensorial (bebida, tumulto, barulho), ela continua nos doendo sempre que o silêncio se instala.

Já Shakespeare o notara, séculos antes do surgimento formal da psiquiatria, ao descrever as neuroses e psicoses sentidas por Macbeth e Lady Macbeth quando conspiraram em seu regicídio: consumado o crime (e ocultada a autoria), o marido via sempre uma invisível faca diante de si, e a mulher, por mais que lavasse as mãos a cada quinze minutos, não conseguia deixar de enxergá-las cruentas.

Algo de semelhante aconteceu quando uma mulher uma vez me pediu que conversasse com seu irmão: há cinco anos ele vinha sem sucesso buscando ajuda psíquica com vários médicos, e definhava até pesar por volta de 40 kg. Disse a ela que o trouxesse para uma conversa – se seu problema tivesse um fundamento moral, e não só psíquico, eu poderia ajudá-lo. Ouvi-o, então, sem interrompê-lo durante uns 45 minutos, até que perguntei subitamente “Quanto dinheiro você roubou?”. “Eu não roubei nada!”. Repeti a pergunta mais uma vez, e depois uma terceira, até que ele admitiu: “Três mil dólares. Mas como o Sr. sabia?” “Eu não sabia, mas quando você me disse que sempre limpava o dinheiro antes de colocá-lo no cesto das oferendas, imaginei que talvez tivesse dinheiro sujo”. E ele efetivamente havia furtado a empresa onde trabalhava, sem depois conseguir restituir-lhe, e guardava o segredo para si.

Imaginemos, então, meus irmãos, como estará este país daqui a algumas décadas, quando todas as mulheres que agora celebram a legalização do aborto sentirem as consequências psíquicas do grave pecado que terão cometido.

Além deste tipo de somatização, o pecado também pode se manifestar num clamoroso anseio por justiça social. Foi o caso do rei Davi  (2Sm11-12) : depois que suas tentativas de persuadir o soldado Urias, com bebida e banquetes, a esquecer da guerra e repousar com sua mulher Betsabé (para assim ocultar o fato de que a criança recém-concebida era na verdade resultado de adultério com o rei), Davi arquitetou uma forma de fazer Urias morrer na guerra – ainda que à custa de muitos outros soldados também inocentes. Consumado o crime e assumida Betsabé como sua concubina, Davi não mais pensou na questão, até que o profeta Natã foi-lhe enviado com uma  parábola sobre o homem rico que, para satisfazer o estranho que viera se hospedar em sua casa, e embora possuísse ovelhas e bois em grande número, despojou seu vizinho pobre da única ovelhinha que possuía quase como uma filha, e preparou-a ao visitante. O rei Davi imediatamente revoltou-se, clamando por justiça social: “Pela vida do Senhor, o homem que fez isso merece a morte! Pagará quatro vezes o valor da ovelha, por agir assim sem a mínima consideração”, e o profeta então bradou-lhe, com o dedo em riste, “Esse homem és tu!” Foi nesta ocasião, aliás, que Davi sentou-se e escreveu o belíssimo Salmo 50, “Tem piedade de mim, ó Deus, segundo a tua misericórdia” (magnificamente musicado por Gregorio Allegri).

Coisa análoga aconteceu com Judas Iscariotes, que também clamou por justiça social quando uma mulher derramou um bálsamo caríssimo aos pés de Jesus, questionando-a “Por que não se vendeu este bálsamo por trezentos denários e não se deu aos pobres?”. Judas, porém, se revoltou não porque amasse os desvalidos, “mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, furtava o que nela lançavam” – e daí a censura que lhe dirigiu Nosso Senhor: “Deixai-a; ela guardou este perfume para o dia da minha sepultura. Pois sempre tereis convosco os pobres, mas a mim nem sempre me tereis” (Jo12,1-8). É, aliás, uma marca dos santos serem muito duros consigo próprios, e muito indulgentes com os demais.

Felizmente, porém, a negação do pecado (e seus rastros psíquicos) não é o único caminho de que dispomos: podemos também recorrer à Confissão, em que a alma se mostra a Deus despida de todas as justificativas, pretextos e desculpas para suas faltas.

E a Confissão e o pecado não têm a ver só com esta nudez da alma, mas em certo sentido também com a nudez do corpo. Antes da queda, Adão e Eva viviam nus, mas não constrangidos, pois eram como que vestidos com a glória de Deus. Quando, porém, pecaram e “conheceram que estavam nus”, arranjaram umas tangas de folhas de figueira (Gn3,8) – mas, sendo elas inadequadas para vestir, “o Senhor Deus fez para Adão e sua mulher umas vestes de peles, e os vestiu” (Gen3,8 e 21). Reparem bem nestes três pontos sobre o remédio à consequência do pecado: (1) foi Deus, e não o homem, quem atuou, fazendo roupas a partir de peles de animais, (2) o remédio foi vicarial, i.e. não foi feito com o sacrifício dos próprios pecadores, mas de outrem em seu lugar, e (3) foi necessário o derramamento de sangue. Estes três elementos estarão presentes na verdadeira e definitiva Redenção operada por Nosso Senhor na Cruz. De todo modo, podemos dizer que a insistência do mundo moderno na nudez física é uma tentativa de voltar para o Éden sem subir o Calvário: este caminho já não é mais possível, porque nós mesmos o fechamos.

Outra verdade sobre a Confissão, bastante adequada aos dias atuais, é a que ela opera uma reciclagem – já não de resíduos, mas de lixo humano. Por mais corrompida que seja a vida de alguém, a Confissão lhe permite recomeçar do zero, apagando inteiramente sua culpa. Quantos Santos não nasceram de um Confessionário (o Beato Charles de Foucauld, por exemplo)!

É bem verdade que um prego, quando retirado de uma tábua, não a deixa exatamente como antes – permanece o vazio do buraco. Da mesma forma, a Confissão é capaz de perdoar os pecados e apagar as penas eternas, mas resta ainda certa desordem em nossa alma (a chamada pena temporal), que em seu tempo será também sanada. É para ajudar nesta reparação, aliás, que os confessores também impõem uma penitência – em si mesma pequena, mas valiosa aos olhos de Deus. E o temido Purgatório é simplesmente o lugar onde as almas, já com a salvação garantida, purificam-se das desordens que eventualmente ainda possuam, antes de contemplar a Deus face a face.

Nós não devemos nos assustar com a Confissão: ela é o caminho ordinário, instituído por Deus (cf. Jo20,22-23; 2Cr5,18-20), para o perdão de nossos pecados – e um caminho em que Deus, em sua misericórdia, nos dá, com a fórmula da absolvição e o sinal da cruz feito pelo sacerdote, um sinal sensível da realidade espiritual operada.

A pior coisa do mundo não é o pecado: é a negação do pecado. Quem se recusa a reconhecer que está nas trevas jamais poderá buscar a luz e enxergar, e quem se recusa a reconhecer-se pecador tampouco poderá alcançar o perdão e a paz. Se é verdade que a misericórdia de Deus é ilimitada, é também verdade que nós precisamos nos tornar disponíveis a ela. E então poderemos dizer O felix culpa! – “Ó culpa feliz!”, sem a qual não poderíamos chamar o Verbo de Jesus, “O Salvador”.

 

Por Fulton J. Sheen

Adaptado por Gil Pierre de Toledo Herck

Fonte: Homilia Confession, disponível em vídeo na internet.

 


 

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