Que nada te perturbe e nem te assuste. Deus não muda!

“A pandemia de coronavírus nos despertou bruscamente do perigo maior que sempre correram os indivíduos e a humanidade, o do delírio de onipotência”

Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia. 

 

Muitas vezes, lendo os salmos, tenho aquela sensação de que o profeta sabe colocar em palavras nossos mais intrincados e inefáveis pensamentos. Entre alguns versos que me têm vindo à mente nesses tempos de pandemia, cito esses:

“Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes: Que é o homem – digo-me então –, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles?” (Salmo 8, 4-5)

É o que muitas vezes lembro também, quando ao longo da minha carreira como geriatra, me deparo tantas e tantas vezes com a doença, o decaimento físico e mental, o sofrimento moral de pacientes e familiares e com a própria morte. 

Dentre os muitos efeitos da pandemia que estamos vivendo, há dois que atingem a todas as pessoas, porém, de modo especial, afetam mais diretamente aos idosos: o isolamento social e o medo da morte. Nesses dois pontos vemos o quão paradoxal são as atitudes que precisamos tomar para tentar minimizar o impacto das infecções. Por um lado, para nos proteger e salvar, precisamos nos separar fisicamente uns dos outros; por outro, pelo medo de morrer, tivemos que deixar de viver.

Claro que as drásticas atitudes que tomamos serão mais ou menos passageiras, e que o isolamento social e o “deixar de viver” não serão para sempre. Entretanto, pode ser que essa pandemia mude realmente alguns ou muitos dos hábitos da nossa sociedade e da nossa forma de viver. 

Não pretendo aqui fazer conjecturas de que aspectos da nossa vida mudarão para sempre. Seguramente algumas mudanças irão fazer a vida um pouco mais complexa, mas outras irão certamente nos trazer benefícios, ao menos a médio e longo prazo, quando nos habituarmos com as novas circunstâncias. 

Isso posto, como me dirijo a cristãos, gente que procura colocar a sua confiança no lugar certo, na Pessoa certa (cfr. 2 Tim 1, 12), não podemos deixar de aproveitar esse momento crucial para refletir no que realmente é essencial nessa vida. 

A pandemia mais devastadora que temos bem documentada, foi a peste negra que assolou a Eurásia (Europa e Ásia) inteira no século XIV. Parece que a infecção começou na região asiática da Mongólia. Não temos os números certos daquela época, mas as estimativas são de que entre os anos de 1346 e 1353 tenham morrido de 100 a 200 milhões de pessoas. A população foi reduzida em 30 a 50%, dependendo da cidade. 

Mais recentemente, em 1918 a gripe causada pelo vírus Influenza H1N1, conhecida como gripe espanhola, matou até 50 milhões de pessoas no mundo. Alguns historiadores acreditam que tenha chegado a 100 milhões!

Uma pandemia pode nos trazer muitos problemas, como de fato traz. Mas pode também nos fazer refletir sobre os nossos valores, sobre o tempo e energias que temos dedicado para nossas famílias e amigos, sobre o excesso de deslocamentos, de velocidade, de informações, de afazeres… 

Na última Sexta-feira Santa, o Padre Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia, foi preciso quando disse que “a pandemia de coronavírus nos despertou bruscamente do perigo maior que sempre correram os indivíduos e a humanidade, o do delírio de onipotência” (Fr. Raniero Cantalamessa, OFMCap, Pregação da Sexta-feira da Paixão na Basílica de São Pedro 10/4/2020 https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2020-04/pregacao-sexta-feira-paixao-raniero-cantalamessa-vaticano.html) .

Acima de tudo, uma pandemia nos recorda que somos seres finitos e muito frágeis porque a morte parece muito mais próxima. Nossos antepassados conviviam com a morte dentro de casa, tinham que aceitar como coisa frequente a morte de crianças e jovens, de gente de todas as idades. Sendo assim, somos realmente felizardos, temos muito a agradecer a Deus, porque não vivemos mais aquela realidade tão cruel e, é um fato, essa geração conquistou a longevidade como nunca visto pela humanidade. 

Mas, curioso, os idosos de hoje, os que têm mais risco de desenvolverem as formas graves da COVID-19 e de falecer devido a ela, são os últimos remanescentes, as últimas testemunhas, de um mundo que era muito diferente do nosso: os nonagenários de hoje nasceram quando a cidade de São Paulo apagou definitivamente os seus últimos lampiões a gás que iluminavam as ruas até 1929. Os septuagenários foram as primeiras gerações de crianças que começaram a ser salvas pelos antibióticos. De fato, ainda que a penicilina tenha sido descoberta acidentalmente em 1928 e, em 1935, as sulfas, ambos antibióticos só começaram a ser comercializados e usados em humanos após 1940, durante a Segunda Guerra mundial. 

Desde então, nos nossos tempos, a morte foi desafiada: ameaçamos tirá-la de cena, ela foi, inclusive, hospitalizada, porque foi afastada do núcleo familiar: são poucos os que hoje assistem aos seus entes queridos falecerem. Passamos não só a nos esconder da morte, mas também a escondê-la. Muitas vezes, até exageramos em terapias que não servem de verdade ao paciente, mas que só fazem o desfecho inexorável mais prolongado porque morrer parece que até se tornou uma espécie de traição. 

Entretanto, essa pandemia veio nos recordar, de uma forma inevitável, a nós que tentamos esquecer da única realidade certa dessa vida, que todos vamos de fato morrer e que isso pode ocorrer em qualquer idade e que pode nos fazer perder as pessoas próximas a nós, a quem amamos. E, então, quanta gente que temos perto e que precisaríamos valorizar mais! 

Pensar na morte não serve para nos arrancar a paz e alegria. Ao contrário: só quem se lembra que vai morrer, sabe de verdade viver! Depois dessa pandemia, todos podemos viver melhor, mais plenamente, valorizando o que precisa ser valorizado e deixando de dar importância a coisas, que por fim, realmente não são importantes. 

Assim sendo, quando consideramos, ainda que brevemente, o ínfimo cisco que é nosso planeta no quase infinito universo, topamos sempre com essa constatação: a vida humana é tão fugaz e tão infinitesimal no panorama do tempo e do espaço que quase parece absurdo que o nosso sofrimento seja tão intenso. E justo por isso, podemos vislumbrar a imensidão da misericórdia divina porque, apesar da nossa insignificância, nada da nossa vida é desconhecido ou desprezado por Deus e, por menor que sejamos no panorama de tudo o que existe, nosso “pequeno” sofrimento, será sempre sério e significativo para o único que realmente importa e se importa. 

Por isso, esses tempos, certamente duros e desconcertantes, são também uma chamada à confiança e à esperança. Confiança de que a força de Deus não nos faltará nos momentos de real necessidade (ainda que pareça faltar nos momentos de necessidades imaginárias) e esperança de que tudo haverá de ficar bem. Mas, atenção, a esperança a que me refiro é muito diferente da mera certeza humana de que essa epidemia, como todas as outras, terá o seu pico e depois sua estabilização e resolução, com maiores ou menores consequências sociais e econômicas. 

A verdadeira esperança, para alguém que crê em Cristo, é aquela que se baseia no fato histórico da sua ressureição. Ou seja, no final, Cristo vence todo o mal do mundo e a Vida vence a morte. Essa é a verdadeira certeza que recebemos em cada tempo da Páscoa: no final, tudo passa… e quando passar tudo, teremos a Vida Eterna. 

Com essa convicção, entendemos como nunca a belíssima poesia de Santa Teresa de Ávila, escrita em momentos tão ou mais conturbados que os nossos, e por isso tão atual quanto necessária para nós:

Nada te perturbe,
Nada te assuste:
Tudo passa,
Deus não muda!
A paciência tudo alcança.
Quem a Deus tem,
Nada lhe falta:
Só Deus basta!

 

Por Dra. Luciana Pricoli Vilela

Médica geriatra e clínica geral. Médica do Núcleo Avançado de Geriatria (NAGe) do Hospital Sírio-Libanês. Master (MBA) em Bioética pela Università del Sacro Cuore/Istituto Giovanni Paolo II (Roma)

 


 

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