Jesus veio ao mundo para nos redimir de nosso pecados e nos dar a vida eterna. Ensinou-nos por meio de palavras a amar e a perdoar; deu-nos ordens e preceitos. Entretanto, Cristo ensinou-nos também por meio de suas ações. Sendo Deus, não poderia haver nenhuma incoerência em seus atos; tudo o que pregava com a boca colocava em prática, ao contrário de nós, que tantas vezes pregamos o certo e agimos mal.
Dessa forma, para entrarmos no coração dos ensinamentos de Jesus não podemos nos deter em suas palavras, mas devemos mergulhar em suas ações e gestos, e tirar dessa meditação aquilo o que Ele quis nos ensinar.
Se toda a vida de Jesus nos ensina, não podemos ignorá-la em nenhum aspecto, mesmo se permanece oculto. Na vida de Cristo, até o oculto fala e exorta. Refiro-me aqui, principalmente, aos trinta anos da existência de Jesus antes de começar sua vida pública. Os Evangelhos nos relatam poucos acontecimentos desse período: seu nascimento; sua circuncisão; a fuga para o Egito; a apresentação no Templo e a perda e o reencontro do Menino Jesus por Maria e José no Templo.
Poucas passagens, mas tão profundas, que nos falam diretamente, pelo que está escrito, e indiretamente, pelo que não está.
A primeira constatação que pode ser feita é a de que Jesus viveu seus primeiros trinta anos no seio de uma família. Esse fato, até trivial, não pode ser considerado de pouca importância. Dos trinta e três anos de sua vida terrena, Jesus, o Deus feito homem, eterno, onipotente, onisciente e onipresente, viveu trinta anos escondido, sem se mostrar como Deus, no seio de uma família, obediente a seus pais e solícito com o serviço em casa.
Em tempos de quarentena, quando somos forçados a ficar em casa, a conviver diariamente e constantemente com nossa família, não nos seria útil adentrar nesse período da vida de Jesus, perguntar-nos acerca de suas atitudes, deixar que o silêncio dos Evangelhos nos fale? Não estávamos agitados pelo trabalho, pelo rebuliço da vida ordinária, sem nos atentarmos ao que, muitas vezes, revela seu valor apenas no silêncio?
Cristo, ao deixar sua vida familiar em mistério, não nos diz que ela teve pouco importância, mas que seu valor só pode ser reconhecido por um coração silencioso, que sabe reconhecer a relevância das pequenas ações do dia-a-dia em detrimento do tumulto do mundo.
A família de Nazaré é o modelo de família desejada por Deus. É a partir dela que se fundamenta a “Igreja doméstica”. São João Paulo II, na Exortação Apostólica Familaris Consortio, expôs com profundidade a doutrina segundo a qual a família cristã não se constitui apenas pelos laços de sangue, mas que reflete e encarna laços muitos mais profundos que nos unem à Igreja e a Cristo.
Se queremos que nossa família seja de fato uma “Igreja doméstica”, devemos responder, antes de tudo, a esta pergunta: que é a família nos planos de Deus? Apenas a partir da resposta a essa pergunta será possível reformar a nossa família para que ela, sempre mais, seja uma “Igreja doméstica”.
A família, nas palavras do Concílio Vaticano II, é uma “íntima comunidade de vida e de amor”. Ela tem início nos desígnios de Deus para todo e qualquer ser humano, que foi criado para participar do amor infinito da Trindade. Todos fomos criados por Deus para que O amássemos. Entretanto, essa afirmação ainda não explica a razão de Deus ter querido que os homens constituíssem famílias.
A razão torna-se mais clara se estudarmos mais de perto quais são as características do amor de Deus. Podemos dizer, entre tantas coisas, que ele é exclusivo, íntimo, indissolúvel e aberto à vida. O amor de Deus é exclusivo pois ama cada um de Seus filhos como se fosse o único. Deus não ama abstratamente. Ao contrário, seu amor é concreto, pois cuida de cada um como filho único. Respeita as individualidades e se alegra com as diferenças entre seus filhos.
O amor de Deus também é íntimo, pois Ele deseja estar em comunhão conosco a tal grau que habita em nossas almas e Se faz pão na Eucaristia para unir-se perfeitamente a nós. Ele não ama de longe, mas de perto, de tão perto que, às vezes, não conseguimos perceber Sua presença.
O amor de Deus é indissolúvel. Deus nos ama tanto que quer nos amar por toda a eternidade. Apenas um ato nosso de rejeição a esse amor pode nos afastar dele, mas não por desejo de Deus.
Por último, o amor de Deus é aberto à vida. O amor divino não se contentou em permanecer em si mesmo. Quis que outros participassem dele, e essa é a razão de todos nós termos sido criados.
Se fomos criados para o amor, e se o amor possui essas quatro características, seria natural que Deus criasse uma instituição em que elas se encarnassem de maneira clara. Essa instituição é a família.
Deus nos deu o próximo para que praticássemos o amor. Como somos criaturas fracas e débeis, teríamos dificuldade de amar a Deus diretamente, já que Ele é um ser perfeitíssimo e infinito. Por isso, Deus nos deu as outras pessoas para que praticássemos o amor a Ele amando-as. Entretanto, Deus facilitou ainda mais a nossa vida criando a família, que é composta pelos próximos mais próximos. Seria impossível a nós amar todas as pessoas com amor exclusivo, íntimo e indissolúvel. Imagine amar assim todas as 7 bilhões de pessoas que, hoje, vivem? Devemos amar e desejar o bem a todas essas 7 bilhões de pessoas, mas não somos capazes de demonstrar esse amor a não ser a um pequeno número de pessoas.
É na família que amamos com amor exclusivo. A mãe ama cada um de seus filhos como se fosse o único. O amor que o filho devota à mãe é exclusivo, no sentido que sua mãe é insubstituível. Os esposos se amam exclusivamente, porque não devotarão o amor esponsal a outra pessoa – inclusive, essa é a razão de o casamento ser monogâmico. E assim por diante. A família é a garantia da dignidade da pessoa, pois em seu seio ninguém é descartável, desde o bebê mais tenro até o idoso mais ancião. Não à toa, em sociedades nas quais a família não é valorizada, cresce o desrespeito à dignidade humana.
O amor da família também é íntimo. Amamos os de nossa casa intimamente, preocupando-nos com suas dificuldades, conhecendo a particularidade de cada um. Amar de longe é fácil, mas amar de perto – como na família – exige ascese, paciência, compreensão. É no convívio diário que aparecem os defeitos e é no convívio diário que aprendemos de fato a amar. Fácil é amar aqueles que vemos pouco; difícil e árduo aqueles que vemos todos os dias.
Deve ser, também, indissolúvel o amor familiar. O esposo ama sua esposa até a morte. A mãe nunca deixa de amar seus filhos e vice-versa. A indissolubilidade também é uma garantia da dignidade humana. Ela evita que as pessoas sejam trocadas ou descartadas. Por essa razão, Cristo nos ensinou acerca da indissolubilidade do matrimônio.
Por último, o amor na família deve ser fecundo, isto é, aberto à vida. Um amor fechado transforma-se em egoísmo. Aquele que ama de verdade deseja ver seu amor ser causa da vida de outros. Estes, gerados numa relação de amor, terão a consciência de que são fruto do amor de seus pais e de Deus. Essa é a razão, muitas vezes tão incompreendida, da doutrina católica acerca dos métodos anticonceptivos.
Não é necessário muito esforço para percebemos que nossas famílias ainda estão longe dos desígnios de Deus. O pecado deixa marcas em todas as realidades criadas por Deus, e a família, particularmente, é uma das mais afetadas. Quantas discussões e brigas, quanto ódio e indiferença, quanto egoísmo e amor-próprio onde deveria reinar a concórdia, a paz, o amor e o auto sacrifício!
Entretanto, não podemos desanimar e desistir, pois apenas a Sagrada Família de Nazaré não teve defeitos. O primeiro passo é conhecermos o que é a família e qual a sua missão para começarmos, aos poucos, a transformar a nossa numa verdadeira “Igreja doméstica”.
“Família, torna-te aquilo que és!”, foi o grito de São João Paulo II na Familiaris Consortio. Não seriam esses tempos de quarentena uma boa oportunidade para acolhermos em nossa família a súplica do Papa?
Por Gustavo Catania Ramos
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