Depois de uma primeira meditação sobre a Fé (da qual escrevemos na última edição do Informativo), o então Cardeal Joseph Ratzinger deu sequência ao retiro pregado em 1986 para o movimento Comunhão e Libertação distinguindo a verdadeira Esperança cristã do mero otimismo ideológico.
Esta diferença entre esperança e otimismo se nota com clareza, dizia ele, na história da conquista de Israel pelos exércitos de Nabucodonosor, rei da Babilônia. Uma análise objetiva e racional da situação descartava qualquer possibilidade de resistência militar aos babilônios, e recomendava a busca de um acordo honroso enquanto o adversário ainda estivesse disposto a transigir. As lideranças políticas e religiosas dos judeus, no entanto, insistiam na luta armada, e inventavam profecias sobre o socorro que – diziam eles – Deus não tardaria em prover. A este otimismo generalizado contrapunha-se o profeta Jeremias, que por ordem de Deus denunciava publicamente os descaminhos do povo, e prenunciava o cativeiro na Babilônia. Jeremias foi quase condenado à morte, “porque profetizou contra esta cidade” (cf. Jr 26-28).
Quando a fragorosa derrota militar de Israel tornou-se evidente, e o povo foi levado cativo a Nabucodonosor, caíram por terra todas aquelas falsas promessas de prosperidade, e sobrou apenas Jeremias, profetizando a verdadeira esperança da parte de Deus: o exílio seria árduo, mas teria fim após 70 anos (cf. Jr29). E é justamente neste momento de provação que Deus faz a promessa da “nova aliança” (Jr31,31-34) – cumprida séculos depois na Última Ceia, quando Nosso Senhor retomou as mesmas palavras ao instituir a Santa Missa: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vós”. (Lc22,20)
A história de Jeremias nos mostra a profunda união entre esperança e realismo: quem crê em Deus e em suas promessas não deve fechar os olhos para a possibilidade de provações temporais. Guerras, calamidades, doenças ou crises econômicas: tudo isto pode perfeitamente sobrevir tanto ao crente quanto ao descrente, e a religião não deve ser usada para distorcer o juízo sobre o mundo concreto e palpável, prometendo prosperidade e sucessos materiais. As dificuldades empíricas se julgam e enfrentam com critérios também empíricos, não com um artificioso otimismo teológico. O próprio da religião cristã não é, portanto, uma garantia de bem-estar terreno: antes, é a promessa divina da beatitude eterna, na vida do mundo que há de vir.
Ao contrário do que poder-se-ia supor, o otimismo irracional que pautava as ações das lideranças judias pré-exílio continua presente em nosso mundo, particularmente nos sistemas filosóficos que, nos últimos séculos, negam o papel de Deus – dos iluminismos liberais até os marxismos revolucionários. O que uns e outros têm em comum, num plano mais profundo que o das rixas políticas que os opõem, é sua unidade teórica na imanentização da esperança cristã: por não crerem já na ação pessoal do Deus Criador na história, que a governa e orienta à redenção do homem em Cristo Jesus, aquelas ideologias precisam postular a crença de que a história se encaminha naturalmente para o progresso e para o bem-estar. Este verdadeiro endeusamento da história se manifesta na ira com que se combate o “sacrilégio do pessimismo” (que consiste em simplesmente expressar dúvidas acerca da fatalidade do progresso).
Convém não confundir este falso otimismo ideológico com aquela tendência natural que muitas pessoas têm para o enfrentamento otimista dos problemas. Esta é mera inclinação do temperamento, que como tal é moralmente neutra: será boa ou má conforme se associe à verdadeira esperança cristã ou àquele contrafeito otimismo ideológico.
Podemos, portanto, distinguir a verdadeira esperança cristã deste otimismo ideológico (1) por seu objetivo final, (2) por sua garantia ou meta próxima e (3) por sua justificativa íntima. Em primeiro lugar, o (1) objetivo final da esperança não é a utopia da sociedade perfeita do bem-estar pleno e universal, mas o Reino de Deus, entendido como a união da criação em Deus por meio de um ato do poder e do amor divinos. A (2) meta próxima ou garantia da esperança, em segundo lugar, não se apoia no êxito de nosso poder-fazer e de nossa capacidade técnica, mas na presença amorosa constante de Deus junto a nós, socorrendo-nos em nossas limitações. Por fim, a (3) justificativa íntima da esperança não postula uma irracional crença na lógica inexoravelmente progressiva da história, mas antes no fato histórico da Encarnação do Verbo.
Esta comparação nos mostra que, no otimismo ideológico, o resultado deve ser produzido por nós mesmos, por nossos esforços e técnicas humanos. Porque nele não há o que esperar, não há, propriamente, espaço para a esperança. O otimismo ideológico não passa, assim, de uma máscara para esconder o desespero de um mundo que perdeu a esperança sobrenatural, mas que não consegue viver sem a crença de um futuro melhor. Daqui procedem a angústia e o pânico quando há um revés no desenvolvimento econômico ou técnico, ou quando a morte se aproxima.
A todas as máximas de bem-estar do otimismo mundano, o cristianismo apresenta seu programa por meio das bem-aventuranças (cf. Mt5,1-12). Estas raramente acumulam-se todas numa única pessoa, e devem ser entendidas não como uma espécie de decálogo do Novo Testamento, mas como maneiras diversas de concretização do paradoxo cristão. Nas bem-aventuranças Nosso Senhor ilustra com vários exemplos aquele seu “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc8,34).
Como resumia o Venerável Fulton Sheen, “Nas bem-aventuranças, Nosso Senhor toma estas oito deixas inconsistentes do mundo – ‘Segurança’, ‘Vingança’, ‘Riso’, ‘Popularidade’, ‘Desforra’, ‘Sexo’, ‘Força Armada’ e ‘Conforto’ – e vira-as do avesso. Aos que dizem: ‘Sem riqueza não há felicidade’, responde: ‘Bem-aventurados os pobres de espírito’. Aos que dizem: ‘Não deixarei que leve a melhor’, responde: ‘Bem-aventurados os mansos’. Aos que dizem: ‘Ri-te, e que o mundo se ria contigo’, responde: ‘Bem-aventurados os que choram’. Aos que dizem: ‘Se a natureza te deu instintos sexuais, deves dar-lhes plena satisfação, de outro modo serás um frustrado’, responde: ‘Bem-aventurados os puros de coração’. Aos que dizem: ‘Procura tornar-te popular e bem conhecido’, responde: ‘Bem-aventurados sereis, quando vos injuriarem e vos perseguirem e disserem todo o mal contra vós, falsamente, por causa de mim’. Aos que dizem: ‘No tempo da paz, prepara a guerra’, responde: ‘Bem-aventurados os pacíficos’.”
Tudo isto está muito bem: pode ser que com isso já tenhamos sido tocados a trabalhar não pelo alimento que perece, mas pelo que permanece para a vida eterna (cf. Jo6,27) – mas como fazê-lo? Como alcançar a pobreza de espírito, a mansidão, a misericórdia, a pureza, a longanimidade? Como enxergar com olhar sobrenatural as dificuldades da vida?
A chave para colocar em prática a esperança contida nas bem-aventuranças pode ser encontrada na conclusão do Sermão da Montanha, e no chamado a construir a casa sobre a rocha firme do Cristo (Mt7,24-27). Se aderirmos a Ele, podemos também nós tornarmo-nos perfeitos como Ele, por participação. O novo homem, que redimiu a corrupção do pecado, não é um mito utópico: ele existe na pessoa de Jesus Cristo, e, como dizia o Cardeal Ratzinger, “na medida em que estamos unidos a Ele, a esperança se faz presente, não é mero futuro”.
E uma etapa fundamental para esta adesão a Cristo é dirigir-lhe o espírito em oração. Dizia Santo Tomás de Aquino que rezar é colocar a esperança em ato, pois “Alguém desesperado não mais reza porque não mais espera; alguém seguro de si mesmo e do próprio poder não reza porque só confia em si.”
Unamo-nos, pois, a Ele, pela oração e pelas obras, e peçamos como nos ensinou: Pai, Venha a nós o Vosso Reino!
Por Gil Pierre de Toledo Herck
Referências
Joseph Ratzinger, Olhar para Cristo – Exercícios de Fé, Esperança e Caridade, ed. Quadrante, 2019, pp. 47-74.
Fulton Sheen, A Vida de Cristo, ed. Molokai, 2018, p. 176.
Você quer saber mais sobre algum ensinamento da Igreja?
Envie suas dúvidas para revistansb@gmail.com


