“A Igreja, de maneira sábia, procede de maneira diferente. Não celebra o nascimento de seus filhos para este mundo; celebra, ao contrário, a sua morte. E quando o mundo se veste de luto, a Igreja alegra-se. A morte de um santo é também um nascimento para uma nova vida.”

 

A Igreja celebra o nascimento de apenas três pessoas: Jesus, no Natal; São João Batista, em 25 de março; e de Nossa Senhora, em 8 de setembro. Todos os outros santos são lembrados, normalmente, no dia de sua morte. 

O modo de proceder da Igreja contrasta frontalmente com o do mundo. Numa família, quando nasce uma criança, que alegria! Como os pais são felicitados! Entretanto, a felicidade trazida pela vinda de uma criança sempre está imersa num oceano de incertezas, que se não ignorado, pode pôr fim ou, ao menos, diminuir a alegria. Que será dessa criança? Será que terá uma vida feliz ou viverá pouco? Conquistará grandes coisas ou será medíocre?

No campo sobrenatural, as preocupações aumentam: será que a criança seguirá a Deus? Será santa? Ou será escrava do pecado e viverá de costas para Deus? Quando ela morrer, irá para o céu ou será privada da visão de Deus para sempre? A alegria do nascimento começa a ser contestada com as inúmeras perguntas, dúvidas e incertezas que surgem de uma nova vida. 

Essas dúvidas escondem apenas uma certeza sobre o novo ser que vem a este “vale de lágrimas”: ele, de uma maneira ou de outra, terá que passar pelo sofrimento. Nasce chorando, que é a única coisa que aprendeu sem a necessidade de ninguém o ensinar, como se já previsse que a vida para a qual foi chamado é uma luta dolorida e cujo resultado é incerto. 

A Igreja, de maneira sábia, procede de maneira diferente. Não celebra o nascimento de seus filhos para este mundo; celebra, ao contrário, a sua morte. E quando o mundo se veste de luto, a Igreja alegra-se. A morte de um santo é também um nascimento para uma nova vida. Entretanto, em oposição ao primeiro nascimento, o segundo nascimento não vem imerso em dúvidas, aflições e choro. É um nascimento para uma vida sem dor, sem pecado, de alegria infinita e eterna.

Enquanto vivermos, sempre poderemos, por nossa liberdade, nos afastar de Deus; é uma condição advinda do pecado original. “Quem está de pé, cuidado para não cair” (1Cor 10, 12), escreveu São Paulo. São Filipe Néri, um grande santo, costumava rezar: “Jesus, cuidado comigo, porque eu Te traio”. 

Após a morte, se formos para o céu, não haverá mais o risco de trair a Deus! Não haverá mais dor, mais tentações, mais lutas! Que alegria! Por isso, a Igreja celebra a morte de seus santos, que é o “dia do nascimento para o céu”, para a verdadeira vida, eterna, a única que pode ser celebrada sem receios de perdê-la. 

Mas a regra geral possui três exceções. A Igreja celebra o nascimento para este mundo de apenas três pessoas: Jesus, João Batista e Nossa Senhora. 

A razão das exceções é que, no nascimento dos três, pela missão especial de cada um, eles já estavam predestinados a nunca se separarem da graça de Deus. João Batista foi santificado no seio de Santa Isabel, antes de nascer, quando “deu um salto” na barriga de sua mãe ao aproximarem-se dela a Virgem Maria e Jesus em seu ventre. Jesus, por ser Deus, não poderia pecar e se afastar de Deus. Nossa Senhora, por ter sido preservada do pecado original desde sua concepção, nasceu já “cheia de graça”, sem parte alguma com o pecado.

Os três não poderiam ser escravos do pecado e do demônio, que é a pior incerteza no nascimento de uma criança, se olharmos com os olhos da fé. Nascendo já com o pecado original, depois de batizados ainda podemos pecar e ofender a Deus. Infelizmente, muitos pais se preocupam com o futuro de seus filhos em termos meramente materiais: dão-lhes uma boa escola, um bom plano de saúde, proporcionam-lhes a oportunidade uma carreira profissional, fazem de tudo para dar-lhes um futuro com o mínimo de sofrimento. Apesar de não existir, em si, nada de errado nessa conduta, muitas vezes ela nos faz esquecer o mais essencial: será que educamos as crianças para amarem a Deus e evitarem o pecado? Se não fazemos isso, a criança poderá ter tudo, menos o essencial.

Nossa Senhora, ao contrário, não teve uma vida sem sofrimentos: foi pobre, passou dificuldades, sofreu juntamente com Seu Filho na Cruz. Mas nunca se afastou de Deus pelo pecado e, por essa razão, a Igreja celebra seu nascimento, alegra-se com a vida terrestre de Nossa Senhora! 

Por isso, no dia da Natividade de Nossa Senhora, 8 de setembro, cantemos com a Igreja a vinda a este mundo da criação mais perfeita de Deus: “Com grande alegria celebramos a natividade da Santíssima Virgem Maria, pois o seu nascimento encheu de alegria todo o universo”. 

Por Gustavo Catania Ramos

 


 

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