“O bem-aventurado Domingos tinha uma sede ardente e um zelo sem limites pela salvação das almas”
Guilherme de Pierre
É com grande alegria que no dia 8 de agosto celebramos a memória litúrgica de São Domingos de Gusmão, fundador da Ordem dos Pregadores, popularmente conhecidos como dominicanos. E essa é uma oportunidade de nos recordarmos quem foi esse grande santo e qual foi seu papel como reformador da Igreja, além de criador de uma das mais importantes ordens religiosas, que alcançou mais de 800 anos de existência e trouxe grandes santos para a História da Igreja, como Santo Tomás de Aquino, Santa Catarina de Senna e Santa Rosa de Lima, só para citar alguns.
Contexto Histórico de seu nascimento
São Domingos nasceu na segunda metade do século XII, período em que a Igreja passava por um momento turbulento da sua História devido a diversos acontecimentos, entre eles: a ampliação do Cisma do Oriente; o fracasso da segunda cruzada; e, por fim, a perda do domínio cristão sobre Jerusalém em 1189 para os turcos. Simultaneamente a tudo isso, a Igreja sofria com alguns problemas na sua relação com mundo: o clero enriqueceu de maneira exagerada, tendo em muitos lugares uma vida repleta de luxos; a nobreza europeia influenciava e se infiltrava no alto clero; e o governo eclesial se tornava cada vez mais uma fonte de poder secular.
Como resposta a esses acontecimentos, no sul da França surge a heresia cátara ou albigense a qual juntava duas heresias: a primeira delas era a maniqueísta, originada nos século III, a qual defendia as coisas espirituais como totalmente boas e as coisas materiais como totalmente más, estando a vida humana nessa constante luta entre o bem e o mal.
A outra heresia era a dos Valdenses, que criticava o exagero do clero, defendendo como impossível a salvação da Igreja pela Igreja, pois esta teria sucumbido ao aceitar bens temporais, supostamente tornando-se a prostituta do Apocalipse (mãe e amante de todo errado). Os valdenses negavam a autoridade do Papa sobre a Igreja, e também defendiam que deveria haver o fim do dízimo ao clero, para que este vivesse pelo seu próprio trabalho. Tal heresia era apoiada por homens poderosos, como o conde de Tolouse, Raimundo VII.
Nascimento e primeiros anos
São Domingos nasceu em 1170 no povoado de Caleruga, no Reino de Castela, sendo o terceiro filho de uma nobre família local. E uma situação bastante interessante antecede ao seu nascimento: sua mãe tem um sonho em que um cão branco com manchas pretas, fruto do seu ventre, segura um facho aceso para incendiar o mundo, prevendo o futuro de Domingos. Desde cedo ele foi incentivado a viver as virtudes, de maneira particular a pureza e a oração, além de dedicar-se aos estudos e estar sempre aberto à Graça Divina.
Aos 15 anos foi enviado para estudar na Universidade de Valência, no reino de Leão, onde dedicou-se aos estudos por 10 anos. Lá empreendeu primeiramente o estudo de letras e filosofia e, depois, de Teologia e das Sagradas Escrituras, nas quais aprofundou-se muito. Durante esse período, desenvolveu um grande espírito de sabedoria, inteligência e oração, também crescendo em serviço e caridade.
Diante de todos esses fatos, Domingos chegou aos 25 anos de idade sem ter claro para si a vontade de Deus para ele. Nessa época, é convidado a ser cônego regrante da diocese de Osma, tendo a primeira oportunidade de viver os conselhos evangélicos pela regra de Santo Agostinho. Lá viveu por nove anos uma vida de intensa oração, quase sem deixar a igreja, aprofundando-se na contemplação e buscando a própria conversão e a de todos os pecadores. Assim, cresceu em virtude e preparava-se para a sua missão que estava por vir.
Vocação
Em 1203, São Domingos acompanha o novo bispo de Osma, Dom Diogo de Azevedo, na missão de negociar o casamento do filho do rei de Castela com a princesa da Dinamarca, que aconteceu no norte da Alemanha. No percurso, foram obrigados a pernoitar em uma hospedaria em Tolouse (França), cidade tomada de albigenses, sendo o dono da hospedaria um deles. Como estavam só de passagem, Domingos não quis que o homem se mantivesse no erro, por isso pregou-lhe o verdadeiro Evangelho a noite toda e conseguiu tocar o coração do herege de tal maneira, que antes do nascer do sol o homem voltara à verdadeira Fé. Esse episódio fez com que Domingos enxergasse a vocação para qual o Senhor o chamava: criar uma ordem consagrada a defender a Igreja por meio da pregação, especialmente diante do erro e das heresias. Tal desejo apossou-se dele e não o abandonou.
A negociação ocorrera como esperado, mas no caminho de volta aconteceu o inesperado: a princesa da Dinamarca faleceu. Por isso, o regresso não era de tamanha urgência. Passando novamente pelo sul da França, encontraram em Montpellier uma delegação apostólica do papa Inocêncio III para combate da heresia com plenos poderes na região e lá se ficaram para apoiar tal delegação, que estava há um ano sem resultado, já que o conde de Tolouse protegia os hereges e os bispos locais se negavam a ajudá-los, por covardia, indiferença ou serem eles os próprios hereges. Os delegados estavam, portanto, totalmente abandonados, tristes e desanimados, apesar de sua sólida fé.
Dom Diogo e Frei Domingos apresentam a seguinte solução para tal combate: usar o exemplo para tocar o coração, pedindo aos delegados a passarem para uma vida mais simples e austera, livrando-se do excesso de bens materiais. Dessa maneira, o apostolado começou, aos poucos, ter resultados sobre os hereges e os soberbos. Pregavam intensamente nas igrejas e em conferências com os hereges. Um dos principais frutos do apostolado da região, além de muitas conversões de hereges, foi o recuo da covardia de alguns dos bispos e a criação por Domingos de um mosteiro feminino na cidade Prouille, que recebeu o apoio do novo bispo de Tolouse, o qual era bastante apegado a D. Diogo e Domingos.
No entanto, o trabalho é desfeito a partir da notícia da morte de D. Diogo, que precisara ir a Osma e lá morrera, por isso maioria dos envolvidos no apostolado o abandonou, sobrando apenas Domingos e alguns outros. A partir de então, eles passam mais oito anos na região, sofrendo rejeições, maus-tratos e perseguições pelos hereges, que chegaram a tentar matar Domingos. Por isso, a guerra espiritual contra a heresia ficou ainda mais forte.
Pregava incessantemente em todos os lugares e situações, nunca falando de outra coisa que não Deus. Aceitava as desonras e injúrias com paciência e júbilo, tendo-se na mais baixa estima. Mantinha-se firme em seu apostolado, acompanhando e consolando os doentes, participando dos seus sofrimentos. Corrigia fraternal e caridosamente seus irmãos e os incentivava pela força do exemplo, sendo sempre generoso e hospitaleiro, dando aos pobres tudo quanto podia.
Mesmo assim, seu apostolado não voltou a ter os mesmos frutos de antes da morte de D. Diogo e não conseguia colocar em prática seu objetivo de criar a ordem de pregadores, por isso pedia incessantemente a Deus pela paz.
O Rosário
Diante de tudo isso, em 1214, Domingos recebeu a inspiração para o Rosário diretamente de Nossa Senhora como meio para converter os albigenses. Naquele ano, retirou-se em determinado momento em oração em uma floresta próxima a Tolouse para rezar e fazer penitência por três dias e três noites pelos pecados e erros dos hereges da região, chorando por eles e buscando aplacar a ira divina diante de toda a situação. Tais práticas levaram-no a um estado de total cansaço, de quase coma.
Naquele momento apareceu-lhe Nossa Senhora com três anjos e o ensinou que o Rosário é a maior arma contra os hereges. Por isso, pediu-lhe que o pregasse sem cessar. Domingos não se limitou a pregá-lo, mas rezava-o constantemente, principalmente antes de suas pregações. Também operou diversos milagres através de tão potente arma espiritual.
Primeiros fundamentos e estabelecimento da Ordem
Um dos novos frutos gerados pelo apostolado de Domingos a partir de então, foi de reunir a primeira comunidade masculina de pregadores em Languedoc, contendo, além dele próprio, seis frades. Estavam em cooperação e obediência ao bispo de Tolouse, que lhes dera uma igreja e o encargo de pregadores oficiais da diocese.
Então, em 1215, durante o Concílio de Latrão, Domingos busca a aprovação papal de sua nova ordem. O papa Inocêncio III aprovou-a provisoriamente até que Domingos a estabelecesse a partir de alguma antiga regra monástica. Por isso, ele criou uma lei para auxiliar os costumes e perpetuar a tradição, a partir da regra de Santo Agostinho, substituindo o trabalho manual pelos estudos das ciências divinas, conciliando a vida apostólica com a monástica. A autorização oficial viria em dezembro de 1216 pelo papa Honório III, através de uma bula papal.
Ao retornar para França com tal documento, Domingos inicia a expansão da ordem para toda a Europa, enviando seus frades para as seguintes cidades e regiões: Prouille, Tolouse, Espanha, Paris, Bolonha (essas duas, por causa das suas renomadas universidades), e Roma. A partir do estabelecimento e consolidação dessas comunidades, São Domingos expandiu a Ordem para toda a Itália e França, além de algumas regiões da Polônia e Alemanha.
Os dois primeiros capítulos gerais da ordem ocorreram no biênio 1220-1221, que confirmaram São Domingos como Mestre Geral da ordem, apesar do seu desejo de retirar-se do cargo; o estabelecimento de um braço da ordem para leigos que desejassem viver a espiritualidade dominicana no seio familiar e no trabalho; criaram as seis primeiras províncias dominicanas (Espanha, Provença, França, Lombardia, Roma, Alemanha – que incluía as comunidades da Polônia -, Hungria e Inglaterra). As duas últimas receberiam as primeiras comunidades dominicanas após o capítulo de 1221, enquanto as demais já compunham mais de 60 conventos.
No início de agosto daquele ano, Domingos estava pregando quando sentiu uma forte dor de cabeça e febre altíssima. Então, no dia 6 de agosto, rodeado por cerca de 20 frades, começou a consolá-los e a rezar com eles a encomendação da sua alma ao Senhor, quando expirou.
Portanto, o ano de 2021 é de grande júbilo para Igreja e para os dominicanos, já que recordaremos os 800 anos da morte de são Domingos, a qual nos enche de esperança pelas palavras ditas por ele no seu leito de morte: “Não choreis, ser-vos-ei mais útil no lugar para onde vou”.
São Domingos de Gusmão, rogai por nós.
Por Henrique Pinho Chiozzotto
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