“Na busca da verdade é necessário, em determinados momentos, ter na nossa frente guias seguros e competentes, que com a palavra e o exemplo dissipem as nossas dúvidas.”
Com tal frase, o frei Patrício Sciadini, OCD, inicia a Introdução Geral às Obras Completas de um dos principais doutores e místicos da Igreja: São João da Cruz. Define, sem sombra de dúvida, de maneira precisa e bela a contribuição dos escritos espirituais do Doutor Místico. Através da palavra, ele nos mostra o percurso da alma ao subir o Monte Carmelo e ao passar pela Noite Escura, tanto dos sentidos, quanto da Alma. Tais imagens nos mostram, ao lermos seus escritos, a sua profunda santidade, além do seu profundo conhecimento bíblico, especialmente do Antigo Testamento.
Já em relação ao exemplo, São João da Cruz foi, junto com Santa Teresa D’Ávila, o grande responsável pela reforma da Ordem do Carmelo. Essa grande doutora da Igreja o convenceu de tal empreitada, em um período em que a Igreja sofria com o problema da Revolução Protestante. Assim, esses dois santos se juntaram com tantos outros daquele tempo, como São Felipe Néri, Santo Inácio de Loyola, São Francisco de Sales e São Pio V, na busca pela verdadeira reforma que a Igreja de Cristo precisava (e até hoje precisa): a de nós mesmos, através da verdadeira busca pela santidade e pela obediência e divulgação da Verdade, que é Cristo.
O Doutor Místico nasceu em 1542, em Ávila, atual Espanha, sendo o mais novo de três irmãos. Teve uma infância pobre e difícil, principalmente por causa da morte do pai e de um dos seus irmãos, antes de ter completado nove anos. Por isso, sua família mudou de cidade algumas vezes ao longo de sua infância, mas acabou por estabelecer-se em Medina del Campo, onde teve a oportunidade receber uma formação cultural e artesanal até os 17 anos. Nesse período exerceu diversos ofícios manuais, como carpinteiro, alfaiate e pintor; além de acólito na igreja da Madalena e ajudante de enfermeiro no Hospital da Conceição.
Em seguida estudou humanidades no Colégio dos Jesuítas por quatro anos, provavelmente iniciando o curso de Filosofia. Aos 21 anos, recebe o hábito religioso dos Carmelitas, fazendo sua profissão religiosa no ano seguinte. No verão de 1567 é ordenado sacerdote, celebrando sua primeira missa na presença da mãe. Alguns meses depois, em setembro daquele ano, conhece Santa Teresa D’Ávila, que tinha 52 anos na época, mais que o dobro do recém ordenado sacerdote, e ela o conquista para iniciar a Reforma Carmelita entre os frades da Ordem.
Um ano depois, tais planos de reforma começam a gerar frutos: em 28 de novembro, no primeiro domingo do Advento, é inaugurado o primeiro convento das Carmelitas Descalças, ramo reformado da Ordem Carmelita. Assim, nos anos subsequentes ele e Santa Teresa inauguram diversos mosteiros carmelitas pela Espanha, o que gera indisposição com os Carmelitas Calçados. Tal indisposição levou-o a ser preso e encarcerado no Convento dos Calçados de Toledo, em dezembro de 1577, ficando recluso por oito meses. Nesse período começou a sua Noite Escura, porque passou por diversas provações e aproveitou do período para crescer em oração e virtude. Então, inicia os seus primeiros poemas místicos.
Após escapar do cárcere, em agosto de 1578, teve uma vida dedicada à Reforma da Ordem Carmelita e aos seus escritos, exercendo diversos cargos até pouco antes de sua morte e deixando uma extensa obra, mesmo que alguns escritos tenham ficado incompletos. Fundou conventos e mosteiros, conseguiu a separação dos descalços (reformados) dos calçados, dando maior autonomia para o seu trabalho de reforma, e sofreu diversas perseguições por parte daqueles que não concordavam com o seu projeto de reforma. Mas ele nunca abandonou a Cristo e a Igreja, mantendo-se firme, mesmo diante das tribulações. Morreu em dezembro de 1591, aos 49 anos.
As tribulações e contrariedades, tantos espirituais quanto temporais, serviram como verdadeiro inspiração para os seus escritos relativos à Noite Escura. Por sua obra, São João da Cruz nos mostra, a partir da experiência própria, que Deus não nos abandona, mesmo diante de tais dificuldades, e conseguimos colher muitos frutos espirituais se depositarmos nossa confiança em Cristo, tivermos paciência e mantivermo-nos constantes na oração, jejum, caridade e obediência à Igreja.
São João da Cruz, rogai por nós!
Por Henrique Pinho Chiozzotto
Referência:
Obras Completas de São João da Cruz, editora Vozes (2002)
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