“Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor” (Isaías 60, 6).
Celebrada tradicionalmente no dia 6 de janeiro, a festa da Epifania do Senhor nos recorda o episódio descrito no evangelho de São Mateus, no qual “chegaram a Jerusalém magos do oriente, que perguntaram: ‘Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo’” (Mt 2, 1-2).
Em termos simples, a palavra “epifania” significa “manifestação”, ou seja, nessa festa se está a celebrar a manifestação do Senhor. Há também outras epifanias na vida de Nosso Senhor Jesus Cristo, tais como: no seu Batismo às margens do rio Jordão, onde “uma voz do céu disse: “Este é o meu filho amado, no qual eu me agrado” (Mt 3, 17); nas Bodas de Caná no início de sua vida pública, em que realizou seu primeiro milagre a pedido de sua mãe e “manifestou a sua glória, e seus discípulos creram nele” (Jo 2, 1-12); e na morte na cruz, na qual o centurião romano e os demais guardas disseram “verdadeiramente, este era Filho de Deus!” (Mt 27, 54). Todavia, no Ocidente celebra-se a manifestação de Deus a partir do milagre da Graça que iluminou o coração dos reis magos fazendo com que seguissem a estrela e adorassem Jesus como o único e verdadeiro Deus.
A motivação e confiança com que os reis magos vieram a Belém são notáveis, pois de acordo com o Evangelho eles, tão logo viram a estrela, puseram-se a caminho e passaram a segui-la. Não é possível supor que o tenham feito por mera curiosidade ou sem entender seu real significado – pois perguntaram a Herodes: “Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela” (Mt 2,2), e os presentes que levavam também indicam que sabiam quem era o infante. Diz o evangelista: “Caíram diante de joelhos e o adoraram. Depois abriram seus tesouros e ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra” (Mt 2,11). Segundo ensina o Venerável Fulton Sheen: “o ouro, em homenagem à rua realeza, incenso, em homenagem à sua divindade, e mirra, em homenagem à sua humanidade, destinada a morrer”.
Um tal conhecimento só seria possível por meio de revelação divina, ou seja, Deus de alguma forma revelou a eles o que a estrela significava. Fulton Sheen, em capítulo que diferencia Jesus dos demais “profetas”, afirma que, com base nas profecias do Antigo Testamento, sua vinda não foi inesperada, sendo provável que os magos soubessem da vinda do Salvador por meio delas.
Decerto devemos admirar a coragem, obediência e humildade com as quais os reis magos deixaram tudo o que tinham para seguir a estrela, a luz, para onde ela os guiasse ao encontro do Salvador. Todavia, nesta festa da Epifania Deus nos chama a algo maior, pois os santos não existem somente para serem admirados e intercederem por nós, mas também para servirem de modelo para nossas próprias vidas. Aproveitemos esse tempo do Advento para fazer como Santa Terezinha do Menino Jesus e nos darmos de presente ao Deus recém-nascido, a fim de que Ele nos utilize como instrumento de sua missão.
E qual missão seria essa? A de sermos a humilde luz que guia os outros para o Cristo. Nesse dia celebramos o começo da salvação dos povos pagãos por meio dos reis magos que de maneira obediente e dócil deixam suas crenças para adorar o verdadeiro Deus. Com espírito missionário, na contramão do relativismo moderno, devemos buscar as almas que permanecem nas trevas e trazê-las à luz de Cristo, porque quem ama não deixa o outro cair num precipício; pelo contrário, entende o chamado de Jesus à toda humanidade e busca a conversão de todas as religiões pagãs, pois, afinal, é precisamente isso que estamos a celebrar.
São João Paulo II, na homilia de 6 de janeiro de 1999, diz que o espírito humano possui duas asas para se elevar rumo à contemplação: a fé e a razão. Entretanto, afirma que a chama da razão humana é fraca, o que reafirma a importância da fé para a salvação. Contaram-me certa vez uma metáfora que ensina ser a Igreja, entendida aqui mais no sentido humano no que de Corpo de Cristo, uma rodovia retilínea, duplicada e perfeita que leva até o céu. Isso não necessariamente significa que não existam caminhos colaterais (espinhosos, esburacados e com risco de morte) pelos quais, por misericórdia de Deus, também se possa chegar lá – mas certamente queremos que nós e aqueles que amamos cheguem ilesos e com segurança ao banquete celestial, para o que urge a necessidade de conversões.
Há uma corrente de pensamento que não acredita ser o relato presente no capítulo segundo do Evangelho de São Mateus fidedigno com a realidade histórica, ou seja, seria uma narrativa alegórica cujo objetivo é atribuir um significado figurado àquilo que é dito. Nós católicos, porém, acreditamos que o episódio realmente aconteceu, porque Deus onipotente pode fazer milagres de acordo com Sua vontade – e não é preciso ir muito longe para isso, pois há pouco mais de 100 anos ocorreu o milagre do sol em Fátima. Assim, são fortes as razões para crer que Deus, no nascimento de seu filho, operou o milagre da graça de revelar aos reis magos o significado da estrela que os guiou até Belém. Ademais, a tradição afirma que as relíquias dos reis magos estão na catedral de Colônia, na Alemanha, desde o século XII.
Independentemente disso, a epifania simboliza a manifestação de Deus como salvador de todos os povos os quais outrora estavam incidindo em erro, nas trevas e, adiante, passam a seguir a luz do Cristo e a adorá-lo. O começo de ano é um tempo propício para reflexões interiores e para a mudança rumo a propósitos elevados: rezemos a Deus para que tenhamos um coração mais puro e sigamos obedientemente a estrela do Senhor para onde ela nos guiar, de modo que sejamos a luz que indique a direção correta aos pecadores mais necessitados de conversão.
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