Um casal procura lugar em uma hotelaria. A mulher estava grávida, mas não havia lugar para eles. O casal se dirige a um estábulo e ali ela dá à luz a uma criança envolta em faixas e colocada na manjedoura. Um acontecimento banal ocorrido em um lugar de solidão e frieza climática e também humana, onde nasce uma criança em uma pobreza muito maior do que se desejava. Mas o Céu se rejubila e envia mensageiros para entoar cânticos de louvor, pois Deus exulta de alegria, mesmo em um ambiente de pobreza, e Ele é Amor, porque deste momento em diante nasce a esperança da salvação para o gênero humano.
A representação da natividade de Jesus Cristo encontra na tradição da admirável simbologia do Presépio a alegria da contemplação do mistério da encarnação do filho de Deus, tratando-se de um “Evangelho vivo que transvaza das páginas da Sagrada Escritura” (1). Para tanto, a compreensão do significado e do valor do presépio impõe a busca à origem etimológica deste termo e ao contexto histórico do surgimento desta piedosa tradição, para que sejamos “convidados a colocar-nos espiritualmente a caminho, atraídos pela humildade d’Aquele que Se fez homem a fim de Se encontrar com todo o homem, e a descobrir que nos ama tanto, que Se uniu a nós para podermos, também nós, unir-nos a Ele” (2).
As referências bíblicas da origem do presépio podem ser extraídas do Evangelho de São Lucas, de acordo com o qual, tendo-se completado os dias para dar à luz, Maria “teve o seu filho primogênito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria” (2,7). Jesus é colocado numa manjedoura, que, em latim, se diz praesepium, donde vem a nossa palavra presépio. A compreensão etimológica revela o colchão rústico coberto de palha na estalagem, de onde Se revelou o “pão vivo que desceu do Céu”, conforme narra o evangelista João (6,51).
Por sua vez, a origem histórica remonta à comuna italiana de Greccio, localizada na região do Lácio, na Valada da Província de Rieti, local de muitas grutas. Segundo relato histórico, após o seu retorno da viagem à Terra Santa, São Francisco de Assis concebia, em sua fértil e santa imaginação, que aquelas grutas o faziam lembrar da paisagem de Belém, externando um desejo: “Quero representar o Menino nascido em Belém, para de algum modo ver com os olhos do corpo os incômodos que Ele padeceu pela falta das coisas necessárias a um recém-nascido, tendo sido reclinado na palha duma manjedoura, entre o boi e o burro” (3).
Pois, no dia 25 de dezembro de 1223, muitas pessoas se reuniram para desfrutar daquele momento de contemplação na manjedoura coberta com palha, o boi e o burro. Nesta indescritível alegria, o sacerdote celebrou solenemente a Eucaristia sobre a manjedoura. Em Greccio, naquela ocasião, não havia figuras; o Presépio foi formado e vivido pelos que estavam presentes. “Assim nasce a nossa tradição: todos à volta da gruta e repletos de alegria, sem qualquer distância entre o acontecimento que se realiza e as pessoas que participam no mistério” (4).
A poderosa simbologia do presépio consiste em produzir um Evangelho “itinerante” nos mais diversos lugares onde ele pode ser montado, revelando, com simplicidade, a beleza da fé cristã. A cena do presépio ajuda a reviver a história iniciada em Belém, o que não afasta, por óbvio, a fonte evangélica de onde emanam a natividade de Jesus Cristo e o início da narrativa da salvação trazida por Deus, mas antes ajuda a desenvolver a imaginação para que cada pessoa se sinta convidada a se envolver naquela ocasião real e a participar como se realmente testemunhasse aquele momento dedicado especialmente a ela. “O Eterno entrou nos limites do tempo e do espaço, para tornar possível ‘hoje’ o encontro com Ele” (5).
“De modo particular, desde a sua origem franciscana, o Presépio é um convite a ‘sentir’, a ‘tocar’ a pobreza que escolheu, para Si mesmo, o Filho de Deus na sua encarnação, tornando-se assim, implicitamente, um apelo para O seguirmos pelo caminho da humildade, da pobreza, do despojamento, que parte da manjedoura de Belém e leva até à Cruz” (6).
Neste sentido, dada a importância da pedagogia simbólica do evangelho retratada no presépio, é possível extrair o significado dos vários sinais nele contidos, dentre os quais se pode destacar a figura do Menino Jesus. O presépio convida a meditar a proximidade do Deus vivo e real, que desceu até nós, ou seja, o Seu Amor por todos é tamanho que Ele se rebaixou para assumir a nossa condição humana e se tornar uma criança mediante a contemplação do “essencial: que Deus não permaneceu invisível no Céu, mas veio à Terra, tornando-se homem, uma criança” (7).
No Natal, a ternura e o amor de Deus se inclinam sobre os nossos limites, as nossas fraquezas, os nossos pecados, e descem até cada um de nós. São Paulo afirma que Jesus Cristo, embora fosse de condição divina, aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens» (Fl2,6-7). “Contemplemos a gruta de Belém: Deus abaixa-se a ponto de ser colocado numa manjedoura, que já é prelúdio da humilhação na hora da sua paixão. O ápice da história de amor entre Deus e o homem passa através da manjedoura de Belém e do sepulcro de Jerusalém” (8).
Na suposta fragilidade daquela criança, envolta em palha em uma manjedoura, o nascimento do Menino Jesus impinge nos corações das pessoas o poder transformador do curso da história.
“O modo de agir de Deus quase cria vertigens, pois parece impossível que Ele renuncie à sua glória para Se fazer homem como nós (…) Assim o Presépio, ao mesmo tempo que nos mostra Deus tal como entrou no mundo, desafia-nos a imaginar a nossa vida inserida na de Deus; convida a tornar-nos seus discípulos, se quisermos alcançar o sentido último da vida” (9).
Outro importante símbolo do presépio é a Sagrada Família, representada na figura dos pais do Menino Jesus, Maria e José. As figuras destes certamente testemunham uma abertura ao convite proposto por Deus a ambos. Mesmo diante do nascimento do Menino em um ambiente carente, do ponto de vista material, Maria é uma mãe que contempla o seu Menino e O mostra a quantos vêm visitá-Lo. Desde a anunciação do anjo Gabriel, que lhe pedira para se tornar a mãe de Deus, Maria responde com plena convicção ao chamado, em total obediência: “eis a serva do Senhor, faça-se em Mim segundo a tua palavra” (Lc1,38). Isto significa a confiança na proposta oferecida por Deus, a qual Maria aderiu com total confiança e animada por uma livre atitude.
José, por seu turno, representa o papel de guardião protetor da Sagrada Família. Após ter sido avisado por Deus, José não titubeou a levar toda a sua família para o Egito, para escapar da implacável perseguição de Herodes, logo após o nascimento do Menino. Passado o momento de perigo, José se encarrega de trazer de volta a Sagrada Família para a cidade de Nazaré, onde educará o Menino Jesus. Assim, José sempre se entregou à vontade de Deus e a colocou em prática, mesmo diante das dificuldades.
Dessa forma, em que pese a rica diversidade dos símbolos presentes no Evangelho vivo do presépio, o destaque do significado da encarnação no seio da Sagrada Família deve ser compreendido como parte da obra redentora de Cristo, como expressão máxima do Amor de Deus que assume a condição humana para nos salvar. Como dizia São Basílio (10), “Celebremos a salvação do mundo, o Natal do gênero humano. Hoje foi perdoada a culpa de Adão. Já não devemos dizer: ‘És pó e pó te hás-de tornar’ (Gn3, 19), mas: ‘unido Àquele que veio do Céu, serás admitido no Céu’”. Que as reflexões sobre a origem histórica e o significado do presépio possam revigorar em nossos corações a esperança da salvação e abertura ao eterno que Cristo promoveu ao encarnar-Se no seio da Sagrada Família, mesmo diante de todas as dificuldades impostas à própria Família Sagrada para cumprir os desígnios de Deus. Feliz Natal a todos!
Por Fernando Augusto Frank de Almeida Alves
Referências:
1 – Carta Apostólica Admirabile signum, do Santo Padre Papa Francisco, sobre o significado e valor do presépio.
2 – Idem
3 – Tomás de Celano, Vita Prima, 85: Fontes Franciscanas, 468.
4 – Carta Apostólica Admirabile signum, do Santo Padre Papa Francisco, sobre o significado e valor do presépio.
5 – Audiência Geral do Papa Bento XVI de 21 de dezembro de 2011.
6 – Idem.
7 – Audiência Geral do Papa Francisco de 19 de dezembro de 2019.
8 – Audiência Geral do Papa Bento XVI de 21 de dezembro de 2011.
9 – Carta Apostólica Admirabile signum, do Santo Padre Papa Francisco, sobre o significado e valor do presépio.
10 – Homilia sobre o Nascimento de Cristo, 6: p. 31, 1473.
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