O Natal, certamente, é uma das histórias mais conhecidas. Quase todos conhecem seus personagens, seu enredo e seu desfecho: uma virgem que recebe a visita de um anjo e engravida milagrosamente; um homem que tenta abandonar sua esposa por achar-se indigno de participar de tão grande mistério, mas desiste após um sonho; a hospedaria que rejeita uma pobre família em busca de abrigo; uma criança que nasce numa fria noite numa humilde gruta, acontecimento notado apenas por três reis magos e alguns pastores, sem contar a corte celeste que entoa Gloria in excelsis Deo; um rei que manda matar todos bebês com medo de perder seu trono.

Como em toda a história, o Natal tem seus vilões. Não seria Herodes um típico exemplo deles? Há também os personagens secundários, que contribuem para a trama: o dono da hospedaria, que aumenta o sofrimento da família; os reis magos, que trazem presentes ao menino; os pastores, que recebem, antes de todo o mundo, a boa-nova do nascimento de Jesus.

Se, até esse ponto, a história do Natal assemelha-se a qualquer outra história, quando pensamos no herói, percebemos a grande diferença entre elas. O herói dos romances e dos filmes é forte, inteligente, conquistador. Luta ativamente por um ideal e enfrenta virilmente seus inimigos. Mas se considerarmos o Natal, veremos que o herói age de maneira muito distinta. Se não levarmos em conta toda a tradição que recebemos e ouvíssemos a história do nascimento de Jesus como pela primeira vez, teríamos, até, certa dificuldade em identificar quem é o herói da aventura.

Jesus, um bebê indefeso, incapaz de se defender, invisível aos olhos dos poderosos, pobre, enrolado em faixas e deitado numa manjedoura: esse é o herói da história. Nesse fato já podemos compreender muito do modo como Deus age na história e em nossas vidas: de maneira silenciosa, escondida, conhecida apenas por aqueles que guardam o coração simples e puro, como os pastores.

Cada detalhe do nascimento de Jesus nos diz muito. Deus, o melhor dos roteiristas, preparou cada cenário e ação para que nós, dois mil anos depois, pudéssemos haurir do nascimento de Cristo ensinamentos e verdades para a nossa vida. Por exemplo: não estaria Ele nos ensinando algo ao dar como primeiro trono do Rei do Universo uma simples manjedoura? Não nos quer ensinar a humildade, o desapego dos bens terrenos e o amor pelos bens celestes? Mas, neste texto, desejo refletir sobre um aspecto da história que particularmente nos diz muito nos tempos em que vivemos: o papel da família de Jesus.

O herói da história não agiu por si mesmo; todas as suas ações foram intermediadas por sua família. Jesus foi concebido apenas quando sua mãe disse sim ao anjo; foi levado a Belém no seio de Maria e dirigido por São José. O dono da hospedaria rejeitou Jesus indiretamente, dizendo não aos seus pais. O Menino Deus foi envolto em faixas e posto na manjedoura por sua mãe. Os Reis Magos deram os presentes a Jesus também por meio de Maria. Em suma, nada do que diz respeito ao personagem principal da história ocorreu sem passar, antes, por sua família.

A razão de Deus ter escolhido revelar-Se dessa forma é mostrar-nos, com sua própria vida, a centralidade da família no plano da salvação. Se no começo da história, a família foi a primeira a ser atingida pelo pecado, no início da história do Redentor era necessário que a família fosse a primeira a ser redimida. O amor entre Adão e Eva, o primeiro casal, foi manchado pelo pecado: tiverem de se vestir, pois não mais se olhavam com o mesmo olhar puro de antes de terem cedido à serpente. O segundo pecado relatado Bíblia é um fratricídio de Caim contra Abel. No Antigo Testamento, há uma infinidade de histórias de crimes, injustiças e pecados dos mais graves cometidos entre membros da mesma família. Apenas para recordar alguns, lembremos de Noé, ridicularizado por seu filho; ou de José do Egito, vendido como escravo por seus irmãos.

Entretanto, a família, como querida por Deus, não foi feita para ser uma sede do pecado, mas um lugar em que reinasse o amor, a concórdia e a virtude. Por essa razão, “a família é a chave do Natal. É a chave do cristianismo”, como afirmou Scott Hanh em seu livro A Alegria do Mundo.

A família, nas palavras do Concílio Vaticano II, é uma “íntima comunidade de vida e de amor”. Ela tem início nos desígnios de Deus para todo e qualquer ser humano, que foi criado para participar do amor infinito da Trindade. Todos fomos criados por Deus para que O amássemos.

Sendo assim, Deus nos deu uma íntima comunidade, um lugar apropriado, para que aprendêssemos a amar sem egoísmos e fôssemos canais do amor divino a outras pessoas. Numa família, ama-se não pelo que se pode receber da outra pessoa; ao contrário, ama-se pelo o que ela é, sem esperar nada em troca. Quando a lógica do lucro e da recompensa, típica de uma empresa, entra na família, destrói-se o plano de Deus e, consequentemente, nos tornamos egoístas. Quantos divórcios e separações e quantas brigas intermináveis não têm origem, precisamente, quando se esquece que é na família que exercitamos e aprendemos a amar o próximo? Todos os males da família surgem do esquecimento de sua natureza. De tão importante nos planos de Deus, a família é a instituição mais atacada por aqueles que rejeitam o Seu plano de amor e, por esse motivo, é a mais atingida pelo pecado.

Nesse Natal, contemplando o nascimento de Cristo, olhemos para a nossa família e nos perguntemos se ela está sendo o lugar de amor, carinho e acolhimento querido por Deus.

 

Por Gustavo Catania Ramos

 


 

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