SS. Basílio Magno e Gregório Nazianzeno

Recentemente foi divulgada nos Estados Unidos uma pesquisa chamada State of Theology (“o estado da teologia”), que em 2020 entrevistou milhares de americanos para diagnosticar suas opiniões sobre ensinamentos bíblicos. Dois dos resultados são particularmente impactantes: dentre os entrevistados enquadrados como “cristãos”, 32% concordam com que “Jesus foi um grande mestre, mas ele não era Deus”, e 56% aceitam que “Jesus é a primeira e a maior das criaturas de Deus”. Estas proposições podem parecer inocentes à primeira vista, mas contêm em si um antigo e letal veneno chamado arianismo – uma heresia que foi brilhantemente combatida pelos Santos Basílio Magno (330-379) e Gregório de Nazianzo (329-390), após décadas de rixas que quase cindiram a Igreja ao meio.

A heresia começou a ser difundida por Ário (256-336), um padre de Alexandria do Egito. Partindo da ideia (verdadeira e católica) de que existe um único Deus criador de todas as coisas, o heresiarca começou a ensinar (a falsidade) que Jesus não podia ser divino – pois caso contrário, pensava ele, haveria dois deuses. Possuindo grande talento intelectual e retórico, Ário difundia sua tese com pequenos poemas e fórmulas atraentes, como “Houve um tempo em que Deus não era pai”. Seu erro foi logo condenado pelo bispo local – mas o herege era muito articulado politicamente, e logo conseguiu influenciar um outro bispo, Eusébio de Nicomédia, a abraçar sua doutrina, junto com grande parte do episcopado.

O contexto da época era de recém-legalização do cristianismo, com o Edito de Milão (313). Até então, a Igreja vinha sofrendo todo tipo de perseguições, e os martírios eram abundantes – especialmente durante a chamada Grande Perseguição de Diocleciano (303-313), em que muitos cristãos eram torturados e queimados vivos por se recusarem a reconhecer a divindade do imperador. Em 313, o imperador Constantino, ele próprio convertido à fé cristã, fez cessar as perseguições e pretendia usar o cristianismo como instrumento de unificação do império. Quando, porém, percebeu que a controvérsia ariana ameaçava rachar a unidade da Igreja, convocou uma grande reunião de bispos em 325, que ficou conhecida como o 1º Concílio Ecumênico, no palácio de Niceia. Os cronistas da época, aliás, narram como diversos dos prelados, agora recebidos com pompa na corte imperial, carregavam ainda em seus corpos as marcas das torturas sofridas durante a Grande Perseguição.

Em Niceia, apesar de todas as instabilidades políticas, confirmou-se aquela promessa de Cristo de que guardaria sua Igreja todos os dias até o fim dos tempos (cf. Mt 28,20): professou-se solenemente que Jesus é consubstancial (homooúsios) ao Pai, isto é, compartilha da mesma natureza divina. Ário foi condenado ao exílio, e os bispos voltaram a suas dioceses.

Nos anos seguintes, no entanto, o bispo Eusébio de Nicomédia conseguiu gradualmente persuadir o imperador a levantar as censuras contra Ário – e conforme o poder político ia gradualmente abraçando a doutrina ariana, cada vez mais bispos conformavam-se à vontade do governante. A mudança foi tão forte e repentina que S. Jerônimo depois a descreverá assim: “O mundo dormiu cristão e, com um gemido, acordou ariano”. A tal ponto chegou a dominância ariana que, no oriente, restava praticamente um único bispo com fé católica: Santo Atanásio (296-373).

Neste contexto é que nasceram e cresceram São Basílio Magno (330-379) e São Gregório de Nazianzo (329-390). Os dois tornaram-se muito amigos quando faziam seus estudos superiores em Atenas, a capital intelectual da época. Regressos à sua província natal da Capadócia (atual Turquia), os dois acabaram sendo alçados ao episcopado, a despeito de suas inclinações naturais à vida ascética e monástica.

Dispostos, então, a usar seu preparo intelectual para defender a integridade da fé, os dois colaboraram estreitamente na luta contra o arianismo. Eles perceberam que, se a heresia de Ário estivesse certa e Jesus fosse apenas “a primeira das criaturas de Deus”, então também o Espírito Santo seria apenas uma criatura, e subordinada até mesmo a Cristo. Por isso, sua estratégia para demonstrar o erro do arianismo foi insistir na divindade da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade – sobre a qual S. Basílio escreveu sua obra mais famosa, De Spiritu Sancto.

Em 381, enfim, convocou-se o Concílio de Constantinopla, e S. Gregório Nazianzeno foi convocado para representar a posição trinitária – pois S. Basílio já era falecido. Apesar de muitos percalços durante o transcorrer das discussões, Deus novamente assegurou a integridade da fé católica: o texto aprovado pelos bispos conciliares professava a fé no “Espírito Santo, Senhor que dá a vida, que procede do Pai” (ék tou patrós ekporeuómenos).

O arianismo foi, assim, definitivamente rejeitado – e a Igreja julga este fato tão importante que todos os domingos nos pede que fiquemos de pé e o digamos no Creio. Mas por que, afinal, tanta insistência? Haveria problema em dizer que “Jesus foi um grande mestre, mas ele não era Deus”, ou que “Jesus é a primeira e a maior das criaturas de Deus”?

Mais do que um problema, essas ideias fariam cair por terra todo o edifício cristão. É que entre a natureza de Deus Criador de todas as coisas e a natureza das criaturas existe um abismo infinito, que jamais pode ser superado por ação da própria criatura – isso seria, afinal, tentar construir uma Torre de Babel que nos levasse ao céu, ou tentar alçar-se para cima puxando-se pelas próprias orelhas. Por isso, se Jesus não fosse verdadeiramente Deus, mas sim uma mera criatura, ele não seria capaz de transpor este abismo. Essa união só é possível se o próprio Deus é quem constrói a ponte (isto, aliás, é o significado de pontífice) – somente porque Jesus é Deus é que a redenção humana foi possível.

Basílio e S. Gregório Nazianzeno foram, então, instrumentos para que a fé católica fosse preservada íntegra em tempos de grande turbulência. Roguemos a eles que também nós, em nossas vidas, saibamos em tudo guardar o tesouro que nos foi confiado pelos apóstolos. São Basílio Magno e São Gregório de Nazianzo, rogai por nós!

Por Gil Pierre de Toledo Herck

 


 

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