Jesus Doce, Jesus Amor: a alma enamorada de Santa Catarina de Sena e o seu protagonismo no retorno do Papado a Roma
Santa Catarina de Sena nasceu em Sena, em 1347, numa família muito numerosa, e faleceu em Roma em 1380. Desde muito jovem, Catarina nutria uma profunda e intensa relação com Deus. Aos 6 anos de idade, já teve sua primeira experiência mística ao ter uma visão de Cristo ladeado pelos Santos Pedro, Paulo e João sobre a Igreja de São Domingos.
Apesar da insistência de seus pais, que apresentaram à jovem um pretendente para casamento, Catarina, com 16 anos, impelida por uma visão de São Domingos, ingressou na Terceira Ordem Dominicana, no ramo feminino chamado das Mantellate. Permanecendo em família, confirmou o voto de virgindade feita de modo particular, quando ainda era uma adolescente, dedicando-se à oração, à penitência e às obras de caridade, sobretudo em benefício dos enfermos. Aos 21 anos de idade, Catarina tem outra visão mística de seu casamento com o Cristo, oficiando como testemunha qualificada do sacramento a Virgem Maria, momento em que Catarina inicia o seu apostolado.
Apesar de sua origem humilde e da falta de uma formação escolar mais sólida, Santa Catarina de Sena arrebata dezenas de discípulos nos encontros semanais no apostolado de visita aos doentes do Hospital Santa Maria della Scalla. “Quando a fama da sua santidade se difundiu, foi protagonista de uma intensa atividade de conselho espiritual em relação a todas as categorias de pessoas: nobres e homens políticos, artistas e pessoas do povo, pessoas consagradas, eclesiásticos, inclusive o Papa Gregório XI que nesse período residia em Avinhão.”.
Neste sentido, em 1380, Santa Catarina “morre misticamente”, recebendo uma incumbência que, aos olhos humanos, pareceria impossível de ser cumprida à jovem de Sena: dirigir-se a Papas, Bispos, governantes e a todas as pessoas que lhe confiam a direção de sua alma por meio das Cartas ditadas aos seus discípulos, totalizando 382 epístolas de que se tem notícia da Doutora da Igreja, padroeira de Roma e da Itália. “A amável Providência Divina em vários modos se manifesta protagonista da história, acendendo sempre novas luzes no caminho do homem. Muitas vezes escolhe pessoas aparentemente inaptas e de tal modo lhes eleva as faculdades naturais que as torna capazes de ações absolutamente superiores ao próprio alcance. E fá-lo não tanto para confundir a sabedoria dos sábios, quanto para colocar em relevo a Sua obra”.
O século XIV foi marcado pelo triste horizonte da “peste negra” e por diversas guerras que colocavam em risco a integridade da Europa, de modo que, “no mundo religioso, o principal acontecimento foi a estadia dos Papas em Avinhão (…). A história da Virgem de Sena insere-se profundamente nestas circunstâncias, nas quais teve mesmo o papel de protagonista”.
No ano de nascimento de Catarina, em 1347, fazia mais de 35 anos que o papado havia deixado Roma e se instalado em Avinhão, onde permaneceu por quase 70 anos. Após a morte de Bento XI, o conclave cardinalício de 1304-1305 elegeu Bertrand de Got, arcebispo de Bordeaux, que assumiu o nome de Clemente V, transferindo-se a corte papal para Avinhão. Roma vivencia um período de desgoverno, rebeliões e lutas sangrentas. O Papa Urbano V tentou retornar a Roma, mas sem sucesso. Apenas no pontificado de Gregório XI (1370-1378) é que figura a atuação de Santa Catarina, insistindo no retorno do Sumo Pontífice.
As cartas de Santa Catarina possuem uma estrutura lógica que parte de uma saudação ao seu interlocutor, a exposição do tema e a conclusão. Santa Catarina, na grande maioria das epístolas, se identifica como “serva e escrava dos servos de Jesus Cristo”, revelando a sua grande humildade no propósito que Deus lhe confiou de conselheira espiritual. Além disso, Santa Catarina costuma afirmar que escreve as cartas “em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria”, “no seu precioso sangue”, haurindo Dele a sua fonte de inspiração. Na Carta 206, endereçada ao Papa Gregório XI, chama-o de “doce Cristo Jesus”.
Santa Catarina exorta o Papa a afastar os maus pastores, retirando “do jardim eclesial as flores apodrecidas, cheias de impureza, de ambição e de orgulho. Falo dos maus pastores e reitores [de igrejas], que intoxicam e estragam esse jardim”. A Santa faz referência à necessidade de reforma do clero, pois “(…) pessoas que deveriam ser espelhos de pobreza voluntária, humildes cordeiros, distribuidores dos bens da santa Igreja para os pobres, vivem em prazeres, altas posições, luxo e vaidades do mundo, mil vezes mais do que se fossem leigos.”. A jovem Catarina se dirigiu nestes termos ao Papa, revelando que estes conselhos se mostravam necessários para uma verdadeira purificação, em um difícil momento da história da Igreja.
Sobre o regresso do “doce Cristo Jesus” a Roma, não tem hesitações: “Respondei ao Espírito Santo que vos chama. Eu digo-vos: vinde, vinde, vinde”. E, depois de o exortar a vir “como manso cordeiro”, para acrescentar força à sua mensagem, afirma com respeitosa franqueza: “sede-me homem viril e não temeroso”. “O piedoso Pontífice, que se demorava em tomar a última decisão, houve de convencer-se que por boca dela falava realmente o Senhor e o certificava da Sua vontade. Gregório XI deixou definitivamente Avinhão a 13 de setembro de 1376 e entrou em Roma, entre o delírio do povo em festa, a 17 de janeiro de 1377”.
Dessa maneira, analisando o teor de sua rica produção teológica, “arde nas cartas constante paixão pelo homem, imagem de Deus e pecador, por Cristo Redentor, e pela Igreja, que é o campo em que o Salvador faz frutificar o tesouro do Seu sangue na salvação do homem” . Apenas uma alma enamorada por Deus e por Jesus, a quem chamava “Jesus Doce, Jesus Amor”, poderia ser capaz de aconselhar o Santo Padre, “Cristo na terra, que nos deve servir o sangue d’Ele” a retornar à sua cátedra, pois, como afirmou o Santo Padre São Paulo VI, “amou a Igreja na sua realidade que, bem sabemos, tem aspecto duplo: um místico, espiritual e invisível, o essencial e fundido com Cristo Redentor glorioso, que não cessa de derramar o Seu sangue (quem falou tanto do sangue de Cristo como Catarina?) sobre o mundo por meio da Sua Igreja; o outro, humano, histórico, institucional e concreto, mas nunca separado do divino”.
Santa Catarina de Sena, rogai por nós.
Fernando Augusto Frank de Almeida Alves
Referências bibliográficas:
Audiência Geral do Papa Bento XVI de 24 de novembro de 2010.
Cartas completas / (tradução João Alves Basílio). – São Paulo: Paulus, 2016. Coleção Clássicos do Cristianismo.
Carta Apostólica Amantissima Providentia do Sumo Pontífice São João Paulo II aos Bispos, Sacerdotes e fiéis da Itália no Sétimo Centenário da morte de Santa Catarina de Sena, Virgem e Doutora da Igreja, de 1980.
Insegnamenti di Paolo VI, VII, 1969, p. 941
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