“Deus meu, Deus meu: por que me abandonastes?” – Mt 27, 46
“Cesse de perturbar-se o vosso coração! Credes em Deus, crede também em mim. Na casa do meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, eu vos teria dito, pois vou preparar-vos um lugar, e quando for e vos tiver preparado o lugar, virei novamente e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais também vós também”
Evangelho de São João 14, 1-3
Cristo clama aos céus pelo Pai: “Deus meu, Deus meu: por que me abandonastes?” (Mt 27, 46). Afinal de contas, a Sua Paixão nos mostra sofrimentos extremos, desde o momento da Sua Agonia no Horto das Oliveiras (Jo 18, 1-11), carregando o peso de saber o que sofreria por nossos pecados; passando pela Sua flagelação (Jo 19, 1), pela coroação de espinhos (Jo 19, 2s), o carregamento a cruz (Lc 23, 26-32) e a crucificação (Jo 19, 16-22) até o momento em que expirou. Somado a isso, contam-se os inúmeros ultrajes em todos esses momentos, por parte de seus carrascos, do povo e dos mestres da Lei (Lc 23, 35-38).
Diante de tudo isso, podemos nos questionar junto com Jesus: onde estava Deus vendo tamanhas atrocidades, podendo até nos questionar a respeito da Divindade de Cristo, principalmente ao vermos que ele questiona o motivo de Deus tê-lo abandonado. No entanto, se entendemos a “fala deste modo”, nos diz Orígenes1, não ouviremos “seu alto grito, que mostra que havia algo de grande escondido”. E o que está escondido por trás desse clamor? Duas coisas: (i) o cumprimento de Profecias do Antigo Testamento, relativas à missão do Messias; e (ii) a própria remissão dos pecados, através da Paixão e Morte, que estavam ocorrendo, e da Ressureição de Cristo, a qual estava por vir no terceiro dia.
Comecemos pelo cumprimento das Profecias: o próprio clamor de Cristo é uma citação do Salmo 21, onde um homem abandonado e ultrajado recorre a Deus: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste, descuidado de me salvar, apesar das palavras de meu rugir?” (Sl 21, 2). Tal salmo pode ser dividido em dois, onde a primeira (e maior parte) nos mostra os sofrimentos desse justo abandonado, representando a Paixão de Cristo; enquanto a segunda parte nos traz a mensagem de redenção e misericórdia, as quais devem ser vistas à luz da Ressureição de Jesus. Como nos ensinam São Jerônimo e São João Crisóstomo, o salmista não fala de si mesmo, mas de fato reforça a “voz profética, para que até a última hora [Cristo] fornecesse o testemunho do Antigo Testamento, e para que [os homens] vissem que honrava o Pai e não era contrário a Deus”2
Tais sofrimentos passam por situações como: o abandono do justo, cujo os pais e antepassados eram salvos por Deus e tinham suas súplicas atendidas (Sl 21, 3-6); a humilhação, o desprezo e o riso dos homens sobre ele, pôr o consideram mais verme do que homem (Sl 21, 7-9); a angústia, por ter sido chamado por Deus à vida, e sempre cumprir Seus mandamentos, mas agora não tem quem o socorra (Sl 21, 10-12); o fato dos leões e dos touros lhe ameaçarem e lhe cercarem (Sl 21, 12-14); por se derramar como água, seus ossos se desconjuntarem e seu coração estar como cera, derretendo dentro dele (Sl 21, 15); suas vestes serem repartidas por seus carrascos, os quais também tiram a sorte sobre a sua túnica (Sl 21, 19).
À luz da Paixão de Cristo, vemos que ele passou: (i) pelo abandono dos Seus discípulos, especialmente através da tripla negação de Pedro (Jo 18, 17.25-27); (ii) pelas humilhações na coroação de espinhos (Jo 19, 2s) e enquanto estava pregado na cruz (Lc 23, 35-38); (iii) pelos carrascos que O cercam durante a sua flagelação (Jo 19, 1), representando os leões e touros do salmo; (iv) pelo fato de transpassarem-No com a lança no Seu lado, jorrando água e sangue da ferida (Jo 19, 31-37); e, por fim, (v) pela partilha das vestes pelos soldados (Jo 19, 23s).
No entanto, antes de chegarmos às esperanças que o salmo 21 proclama, também temos que considerar que os sofrimentos da Paixão antecipados por ele não foram profetizados exclusivamente por essa passagem. Afinal de contas, eles se relacionam, também, à Profecia de Isaías, no final do capítulo 52 e no capítulo 53, aonde o profeta nos fala por quem os sofrimentos deveriam acontecer.
Assim, nos é apresentado um Servo que deixou as multidões pasmadas ao verem-No, porque “não tinha mais figura humana e sua aparência não era mais a de homem” (Is 52, 14); e que foi “desprezado e abandonado pelos homens” (Is 53, 3). A profecia nos antecipa, que por cada um de nós sofreria tudo isso, já que “eram nossos sofrimentos que ele levava sobre si, nossas dores que ele carregava” (Is 53, 4) e “ele foi trespassado por causa de nossas transgressões, esmagado por causa de nossas iniquidades” (Is 53, 5), além do fato que o “Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós” (Is 53, 6).
Portanto, o sofrimento e o abandono de Cristo não são sem sentido, ou meramente uma formalidade jurídica, para cumprimento das profecias da Antiga Aliança: tudo o que Ele passou foi para que por suas feridas fossemos curados (Is 53, 5). Assim, ele se mostra como aquele que “não desprezou a pobreza do pobre, nem lhe ocultou sua face, mas ouviu-o, quando a ele gritou” (Sl 21, 25) e estes mesmos pobres “comerão e ficarão saciados, louvarão ao Senhor aqueles que o buscam: ‘Que vosso coração viva para sempre!’” (Sl 21, 27). Dessa maneira, Cristo demonstra e comprova a primeira bem-aventurança: “Felizes os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5, 3).
Tendo tudo isso em mente, podemos perceber que, ao mesmo tempo em que Cristo cumpre as promessas que Deus fizera ao povo judeu ao longo de toda História da Salvação, Ele redime a humanidade e a cada um de nós de nossos pecados. Afinal de contas, “todos os confins da terra se lembrarão e voltarão ao Senhor: todas as famílias das nações diante dele se prostrarão. Pois, ao Senhor pertence a realeza: ele governa as nações” (Sl 21, 28). Por isso, ele não está abandonado na Cruz, mas todas as gerações irão lembrar-se d’Ele pelo Seu sacrifício, o qual abre as portas dos Céus para a humanidade: “quando for e vos tiver preparado o lugar, virei novamente e vos levarei comigo, a fim de que, onde eu estiver, estejais também vós também” (Jo 14, 1-3). Portanto, da mesma forma que Deus preparou o Povo Eleito ao longo da História para a vinda do Messias, Ele prepara a cada um de nós para alcançarmos o Céu, desde que sigamos o testemunho e os ensinamentos de Cristo.
Por Henrique Pinho Chiozzotto
Referência:
- In Matthaeum, 35 – Trecho Retirado da “Catena Aurea – Exposição Contínua sobre os Evangelhos. Vol 1 – Evangelho de São Mateus” de Santo Tomás de Aquino
- Homiliae in Matthaeum, hom. 88, 1 – Trecho Retirado da “Catena Aurea – Exposição Contínua sobre os Evangelhos. Vol 1 – Evangelho de São Mateus” de Santo Tomás de Aquino
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