Quem não vive para servir, não serve para viver
“A minha alma glorifica ao Senhor; e o meu espírito exulta em Deus meu Salvador” (Lc. 1, 47)
No dia 31 de maio, o último do mês mariano, celebra-se a Festa da Visitação de Nossa Senhora, episódio narrado no Evangelho de São Lucas (Lc. 1, 39-56) entre a Anunciação (versículos 26-38) e o nascimento de São João Batista (versículos 57-66). Maria, logo após receber a notícia de que geraria em seu próprio ventre o Messias, parte às pressas para ajudar Isabel em uma viagem de aproximadamente 100 quilômetros, pois o anjo havia lhe dito: “Eis que também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na sua velhice; e este é o sexto mês da que se dizia estéril; porque a Deus nada é impossível”.
O primeiro ponto que chama a atenção é que Nossa Senhora saiu apressadamente, na medida em que o evangelista cita que “Naqueles dias, levantando-se Maria, foi com pressa às montanhas, a uma cidade de Judá” (Lc, 1, 39). De acordo com o Papa Francisco, em homilia do dia 31 de maio de 2016, isso demonstra a coragem da Mãe de Deus, já que estava grávida e era muito jovem. Havia uma série de justificativas para que ela não fosse: acabara de receber uma grandiosa notícia que lhe exigiria sacrifícios; sua gravidez estava no início; e a viagem era longa, cujo trecho era percorrido em alguns dias.
Todavia, mesmo não sendo obrigada por Deus ou solicitada por Isabel e Zacarias, Maria prontamente se prosta ao serviço do outro e, não obstante, com pressa. Dessa maneira, a Festa da Visitação nos recorda que é necessária a prática da caridade ativa, na qual devemos nos perguntar “Quem precisa de nós?” e vamos ajudar de acordo com as possibilidades. Nas palavras do Papa: “O serviço é sinal cristão. Quem não vive para servir, não serve para viver”.
Adiante, Francisco afirma que: “É feio ver cristãos com a cara virada, cristãos tristes, é feio, feio, feio … Não são plenamente cristãos. Acreditam que são, mas não o são totalmente”. Tudo na visitação remete à alegria, onde quer que Maria esteja o ambiente se transforma pela sua presença e de Jesus, tendo em vista que está intimamente ligada com a vinda do Espírito Santo. Não à toa, na Visitação ocorre a justificação de João Batista ainda no ventre de Santa Isabel, que diz: “logo que a voz da tua saudação chego aos meus ouvidos, o menino saltou de alegria no meu ventre” (Lc. 1, 44).
Assim, o serviço ao próximo é fundamental para que sejamos felizes como Maria e que levemos essa alegria conosco para onde formos. Não é necessária a prática de atos grandiosos e o abandono das próprias atividades para que sirvamos adequadamente quem precisa, pois a ajuda por meio dos pequenos gestos do dia a dia às pessoas próximas já é algo de grande valia. Além de trazer a felicidade a nós mesmos, tais gestos auxiliam em demasia a evangelização e a propagação da palavra de Deus, porque em diversas ocasiões o exemplo é muito mais eficaz do que qualquer sermão.
A caridade não é praticada somente com atividades que geram algum conforto material; pelo contrário, ela é igualmente desenvolvida mediante o exercício de obras de misericórdia espirituais. No Evangelho de São Mateus, Jesus diz ao demônio no deserto: “Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (Mt. 4,4). Dessa maneira, é possível que o beneficiário de determinada conduta caridosa não se sinta imediatamente ajudado e inclusive pense o contrário, podendo afirmar que se trata de “preconceito”, “afronta à liberdade religiosa” ou “estratégia de dominação”. Contudo, isso não deve ser empecilho para que os cristãos continuem com o firme propósito de levar a verdade a todos que dela necessitem. Na Visitação, Maria não leva apenas conforto material à sua parenta, mas também espiritual na medida que leva o próprio Cristo para aquele lar.
Quanto mais se pratica as virtudes e quanto mais se adentra no Castelo Interior, maior o desejo de Satanás em fazer com que a queda seja ainda maior. Segundo São Tomás de Aquino, uma das três causas do pecado da vaidade está relacionada à própria pessoa, “quando, por exemplo, esta pessoa não orienta o seu desejo de glória para o fim devido, qual seja a honra de Deus e a salvação do próximo” (questão 132, secunda secundae). Para isso, o remédio adequado é a humildade, virtude que, como narra São Paulo na Epístola aos Filipenses, Jesus “humilhou-se a si mesmo, feito obediente até a morte, e morte de cruz!” (Fl. 2, 8).
É justamente isso que se observa na visita de Nossa Senhora à Santa Isabel, pois ela não vai visitá-la como uma senhora ou rainha, mas sim com uma serva que está a sua disposição. Maria demonstra que não se pertence e, portanto, muito menos nós temos razão para pensarmos que nos pertencemos. Sua vida nos serve de exemplo em todos os sentidos, sendo necessário que afirmemos como ela: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 34). Diferentemente do que a maioria poderia pensar, servir a Deus e ao próximo é motivo de grande alegria e o único caminho para a felicidade plena.
Por fim, o Papa Francisco nos relembra da importância do encontro com o outro, que é um sinal cristão, assim como Maria fez ao visitar Isabel. Ainda que em decorrência da pandemia não seja possível encontrar todas as pessoas que gostaríamos, há inúmeras formas de realizar “encontros” que levem algum tipo de conforto para o próximo suportar as mazelas dos tempos hodiernos.
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