Deus, quando nos dá uma vocação e uma missão, nos dá os meios para cumpri-las. Se Deus nos pede para sermos santos, Ele nos concede todos os instrumentos para atingir essa meta: a sua graça, os sacramentos, os mandamentos.
Afora essa vocação comum, existem as vocações específicas. Alguns são chamados ao matrimônio, outros ao sacerdócio, outros, ainda, à vida contemplativa, e assim por diante. Deus, em sua infinita bondade, dá a cada um tudo o que é necessário para ser fiel ao seu chamado específico.
Algumas pessoas, entretanto, são chamadas por Deus a missões especialíssimas e recebem graças especiais para corresponder a elas. A Bíblia está repleta dessas vocações especialíssimas: a de Abraão, a de Moisés e a de São João Batista.
Entre todas essas vocações, nenhuma é tão importante quanto a de Maria.
Quando o Anjo Gabriel anunciou à pequena e humilde jovem a sua vocação de ser Mãe de Deus, ele não impôs sobre ela a vontade divina. Esperou, ansiosamente, a resposta da Virgem de Nazaré. Se ela dissesse não, Deus não Se faria homem e toda a humanidade estaria perdida. Tudo dependeu de sua resposta.
Aqueles segundos entre a proposta do Anjo e a resposta da Virgem foram os momentos mais importantes e graves da história. Sempre imagino que todos os anjos se silenciaram no céu, numa expectativa cruciante, semelhante à da torcida, numa final de campeonato, que se silencia nos breves instantes entre o chute do atacante e o estufar das redes. Ou semelhante à expectativa do homem pela resposta ao seu pedido de casamento.
Para vislumbrarmos mais claramente a vocação momentosa de Maria, devemos compreender que – perdoe a expressão – a Virgem não foi escolhida por Deus para ser simplesmente uma barriga de aluguel. Nossa Senhora deveria cuidar de Jesus por 30 anos, deveria ensiná-Lo a andar e a falar. Deveria participar intimamente do sacrifício de Seu filho na Cruz e entregá-Lo, como mãe, livremente na mão de seus assassinos para a redenção da humanidade. Quando as Sagradas Escrituras dizem que Nossa Senhora esteve de pé junto à Cruz (cf. Jo 19,25), elas nos indicam essa ligação estreita entre o sacrifício de Cristo e o do Maria.
Além disso, Maria foi destinada a ser mãe de todos os cristãos. Jesus, ao dar Maria ao apóstolo João e vice-versa, expressava que a vocação de Sua mãe não se esgotava naquele momento, mas que ela deveria exercer sua maternidade por toda a eternidade e sobre toda a humanidade, representada, na cena, por São João (cf. Jo 19, 26-27).
São Paulo diz que a Igreja é o Corpo de Cristo, cuja cabeça é o próprio Cristo (cf. 1Cor 12, 27). Se é assim, Maria deve ser mãe de toda a Igreja, pois seria uma anomalia ser mãe da Cabeça e não do Corpo.
A vocação especialíssima de Maria exigia dons especialíssimos, e o maior deles foi sua Imaculada Conceição. O dogma da Imaculada Conceição nos ensina que a Virgem Santíssima foi preservada, desde a sua concepção no seio de Sant’Ana, de toda mancha do pecado original.
O pecado original é a herança com que todos os homens nascem devido ao pecado de nossos primeiros pais. É devido a ele que todos nascem com uma tendência ao mal e ao amor-próprio, que pode apenas ser corrigida através da graça que Cristo alcançou na Cruz. Basta observarmos o comportamento das crianças para percebermos que elas possuem, algumas mais outras menos, uma inclinação para a preguiça, a ira, a mentira, o egoísmo e tanto outros vícios. Para piorar o quadro, acrescentamos a essas predisposições os nossos pecados pessoais, que nos afastam ainda mais de Deus.
“Todos pecaram” (Rm 3, 23), afirma São Paulo. São João, por outro lado, afirma que o pecado e graça de Deus não podem coabitar. Onde há graça, não pode haver pecado; e onde há pecado não pode haver graça, da mesma forma que a luz e as trevas são auto excludentes (cf. 1Jo 1, 5-7). Diante dessa verdade, compreendemos a saudação do Anjo Gabriel a Maria: “Ave, cheia de graça” (Lc 1, 28). Maria é cheia de graça, ou como se reza em latim, gratia plena. Um copo pleno de água não tem espaço para mais nada. Uma pessoa plena de graça não tem espaço para o pecado.
Ser imune do pecado original foi o meio especialíssimo concedido por Deus à Virgem. Sua missão exigia especial abnegação, sacrifício, amor excepcional a Deus e aos homens, um coração livre de qualquer egoísmo e orgulho. O pecado nos faz todos egoístas, incapazes de bondade e sacrifício. Ele nos faz escravos e não permite que digamos sim ao plano de Deus. Sendo o sim de Nossa Senhora o mais importante de todos, seria justo e conveniente que Maria fosse dotada de uma maior capacidade para se conformar à vontade divina.
“Deus podia fazer assim, quis fazer e fez”, escreveu o Beato Duns Scotus, considerado o grande defensor do dogma da Imaculada Conceição. Deus pôde fazer Nossa Senhora sem pecado, quis fazê-la assim e, portanto, fez.
Nossa Senhora, por ter a missão mais importante, é a criatura mais perfeita de Deus. Nenhum anjo e nenhum homem podem ser comparados à Mãe de Deus. Peçamos a essa extremosa mãe que nos guie ao Seu Filho e nos ensine a ter um coração puro, para que ela possa gerar em nós o Cristo. Assim seja.
Por Gustavo Catania Ramos

