O que diferencia nossa religião das crenças dos pagãos? É uma pergunta capciosa: pela resposta parecer simples, até óbvia, é possível que não lhe demos o devido crédito – o que pode ser fatal. Explico: que a grande diferença entre o paganismo e o cristianismo é o próprio Cristo, Deus que se fez homem, é claro. É claro também que cremos em um só Deus Todo Poderoso, enquanto os pagãos creem nas muitas divindades de seus respectivos panteões; que nós temos a Santa Igreja e eles não; enfim – poderíamos passar o dia numa lista sem fim, mas conhecer estas diferenças não é o suficiente. Se não temos consciência clara de onde está o limite entre o paganismo e o cristianismo, seremos confundidos.
Assim, a questão muda de figura. Não nos basta saber em que nossa fé difere da dos pagãos, mas é preciso saber como ela é diferente, e em que esta diferença implica na prática, no dia a dia, na forma como prestamos culto a Nosso Senhor. Alguém poderia, por exemplo, argumentar que muitas religiões pagãs também acreditam em uma única “força criadora”, da qual advém todas as outras; poderia argumentar que os pagãos fazem sacrifícios a seus deuses e que nós também o fazemos. Alguém poderia dizer que São Francisco de Assis cantava à “mãe terra” e chamava os animais de seus irmãos, como alguns pagãos também o fazem, e que certas divindades femininas seriam, simplesmente, manifestações da Santíssima Virgem, tão dignas de respeito e devoção quanto Ela.
O que responderia o católico a estas acusações? Bem, existem muitas respostas possíveis, mas acredito que, dentre elas, se destacam duas que melhor atendem às nossas necessidades: Sacrifício e Verdade.
Quanto ao sacrifício, temos que entender algumas coisas: nas religiões politeístas o sacrifício existe como meio de se obrigar os deuses, que estão inseridos na mesma “teia” de relações que os seres humanos, a fazerem algo pelos homens. O Papa Emérito Bento XVI falou sobre o assunto em seu livro “O Espírito da Liturgia”: no paganismo, os deuses criaram os homens e regem a natureza, e os homens, por meio de seus sacrifícios, sustentam os deuses, e assim obrigam as divindades a manipular as leis da natureza para favorecer aqueles que mais lhes agradam.
No ato do sacrifício pagão, a vítima – animal ou humana – é destruída e, em sua destruição, torna-se mais do que era: torna-se parte do sagrado. É daí que vem a própria origem da palavra sacrifício: do latim, sacer, sagrado, e ficium, fazer – tornar sagrado, manifestar o sagrado. Por meio da destruição da vítima, não somente ela se torna parte do sagrado, mas o sagrado é obrigado a agir, pois faz parte de uma reciprocidade, de um “dá que eu te dou” ancestral (aos interessados, o antropólogo francês René Girard trabalha de forma magistral alguns aspectos do sacrifício pagão e da novidade cristã).
Assim, quando os incas ofereciam uma pessoa em sacrifício para a mãe terra, eles o faziam não só com espírito de reverência, mas de negociação: a tribo dava-lhe vidas humanas, e ela lhes dava boas colheitas. O mesmo tipo de lógica, ainda que menos agressiva, segue existindo em sacrifícios pagãos contemporâneos, em que vemos refeições sendo oferecidas às entidades em troca de favores.
Em que, então, se diferencia o sacrifício católico? Em primeiro lugar, temos uma diferença de direção: os pagãos sacrificam para seus deuses, mas Jesus Cristo, Deus feito homem, ofereceu-se em sacrifício por nós. Em segundo lugar, temos uma mudança de significado: Ele não Se sacrificou porque nós O obrigamos com nossos sacrifícios anteriores e pedidos, mas o fez num ato livre de amor. Diferente dos pagãos, que acreditavam numa vítima inocente que se tornava sagrada por meio de sua destruição, Jesus Cristo, também vítima inocente, já era sagrado, já era Deus, e por meio de Seu sacrifício abriu-nos as portas da eternidade.
A diferença pode parecer sutil, mas é tremenda. Aqui, nenhum sacrifício é exigido – toda entrega é um gesto livre, feito não por necessidade, pelos ditames de uma rede cósmica de obrigações, mas por amor. No cristianismo, nenhum sacrifício é necessário, pois Deus mesmo ofereceu-Se por nós – e, por isso, repetimos o que disse São Paulo: “Por meio de Jesus, portanto, ofereçamos continuamente a Deus um sacrifício de louvor, que é fruto de lábios que confessam o Seu nome”(Hb XIII,15). Eis o sacrifício do cristão: dar graças a todo momento, num sacrifício de louvor, ao Deus que, por Seu próprio Sangue, nos libertou.
Tendo já discutido o tema do sacrifício, o segundo ponto que desejo discutir é o da verdade, e como a relação da Igreja Católica com a Verdade interfere diretamente no comportamento de seus membros.
Como sabemos, Jesus Cristo é o próprio logos divino encarnado (Cf. Jo I), é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Cf. Jo XIV,6). São palavras bonitas, mas se não olharmos abaixo da superfície, ficaremos aquém de seu real significado.
Que é, pois, a verdade? De acordo com Santo Tomás de Aquino, a verdade é “a adequação do intelecto à coisa”: quando pensamos algo, ou sabemos de alguma informação, isto só é verdade na medida em que esta informação corresponde à realidade. Quando o leitor me diz “estou lendo este artigo em uma revista”, e eu digo “sim, é verdade”, o que estou dizendo é que realmente há uma revista, e que nesta revista realmente está o meu texto, que está sendo lido. A definição pode parecer supérflua, mas será importante para o que vem a seguir.
“Logos”, por sua vez, é uma palavra grega com muitos significados. Logos é tudo aquilo que é dito, tudo o que é pensado; o logos é a razão, a fala e a ordem. Quando São João escreveu que “No início era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus”(Cf. Jo I), era a isto que ele se referia: à razão, à inteligência do próprio Deus. Santo Agostinho, quando fala da criação em seu Comentário ao Gênesis, demonstra como toda a ordem que existe no universo remete ao Logos, o princípio ordenador da inteligência divina, que deu para cada coisa um lugar e um sentido no universo.
Tendo em mente tanto o conceito de “Verdade” quanto o de “Logos”, abre-se para nós um outro aspecto da questão: tudo aquilo que é verdadeiro no mundo só o é pois se adequa ao Logos de Deus. Assim, quando dizemos que a Igreja Católica é a verdadeira religião, o que estamos dizendo, em suma, é que o catolicismo é a única religião que se adequa com perfeição à inteligência divina, Jesus Cristo, pois foi por Ele mesmo fundada, é sustentada na existência pelo Pai, e guiada, nesta peregrinação terrestre, pelo Espírito Santo.
Jesus não começou a existir quando encarnou no seio da Virgem Maria – já existia antes de todos os tempos, antes dos judeus e dos gregos: muito antes de Abraão, ele já era (Cf. Jo VIII,58). Isto é essencial para compreendermos a História da Salvação: não é o caso que o mundo existisse e, um dia, Jesus se manifestou. Não. Toda a história do universo é a folha na qual se escreve a história de amor entre Deus e a humanidade – é para isso que o cosmos foi criado, e é somente para isso que existe. Quando o primeiro filho de Adão ergueu os olhos para o sol e prostrou-se frente a ele, adorando-o como a um deus, já era Cristo que ele buscava. Esta sede por Deus sempre existiu no coração do homem e deu início a muitas religiões. Desde que o mundo é mundo o homem busca por Deus, e movido pela razão, muitas vezes chegou a contemplar, ainda sob a sombra do pecado, a silhueta da Verdade.
Isto não quer dizer que a Mãe Terra dos Incas seja a mesma Mãe que Nossa Senhora, e tampouco quer dizer que Zeus é a mesma coisa que Deus Pai – quer apenas dizer que, se demônios puderam incitar os homens usando estas imagens, eles o fizeram pois, no seu íntimo, os homens já reconheciam seus contornos, e sedentos de Verdade, preencheram-nos com mentiras.
Qual deve ser, então, a relação do católico com o paganismo? Ora, é simples: convertê-lo. Assim nos diz a Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Papa São Paulo VI: “Pregando o Evangelho, a Igreja atrai os ouvintes a crer e confessar a fé, dispõe para o Batismo, liberta da escravidão do erro e incorpora-os a Cristo, a fim de que n’Ele cresçam pela caridade, até a plenitude. E a sua ação faz com que tudo quanto de bom encontra no coração e no espírito dos homens ou nos ritos e cultura próprios de cada povo, não só não pereça mas antes seja sanado, elevado e aperfeiçoado, para glória de Deus, confusão do demônio e felicidade do homem.”
A Igreja reconhece que existem, na história da humanidade, muitos fragmentos de verdade que foram descobertos de uma forma ou de outra pelos povos primitivos – a estes fragmentos a Igreja chama de “sementes do Verbo”, pois foram plantadas pelo Espírito para que, quando enfim Cristo Se revelasse, a Verdade não fosse completamente alienígena aos homens que queria salvar.
Um exemplo ideal deste “sanar, elevar e aperfeiçoar” pode ser encontrado na obra do Santo Doutor Tomás de Aquino. Ele, nascido na Itália em 1225, é responsável por grande parte do pensamento teológico corrente da Igreja; mas as bases de seu pensamento não são somente cristãs – um dos maiores feitos de São Tomás foi ter cristianizado o pensamento do filósofo pagão Aristóteles.
São Tomás não teve medo de ler Aristóteles, não teve medo de se utilizar dos escritos dos pagãos, mas tampouco submeteu-se a eles, elevando seus ídolos aos altares. Não. Consciente daquilo que ensina São Paulo – “(…)tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.” (Fp IV,8), São Tomás mergulhou no pensamento pagão, e tudo o que ali era verdadeiro e digno, tudo o que ali ressoava com o Verbo de Deus, disto tomou posse e iluminou à luz do Evangelho – e o resto descartou.
Tudo aquilo que se adequa ao Logos é Verdade e, portanto, Dele provém. A Igreja, corpo místico de Cristo na terra, tem não só o direito, como o dever, de resgatar todas as sementes da Verdade que existem no pensamento, nos mitos e nas práticas dos pagãos, e, sob a luz de Cristo, condicioná-las à Verdade universal da Revelação, levando-as a seu pleno desenvolvimento. E ao resto – toda mentira, toda ilusão, tudo aquilo que é falso e demoníaco –, é nosso dever garantir que seja submerso pelas águas da Verdade, e que sob as águas permaneça.
Por Rodrigo Gurgel Filho
Antropólogo. Mestrando em
Filosofia pela UNIFESP.


