Crime e Castigo são duas faces da mesma moeda

Os sofrimentos que decorrem do pecado não são penas impostas por Deus desde fora, como uma espécie de vingança – antes, são consequência intrínseca dos abusos de nossa liberdade.

Bento XVI costuma ser contado entre os maiores intelectuais do século XX e da história da Igreja, por sua erudição, clareza e penetração – e no entanto ele tinha a firme convicção de que, para atrair as pessoas à verdade de Cristo, a melhor estratégia não era a persuasão estritamente racional:

“A única apologia verdadeiramente eficaz para o cristianismo vem de dois argumentos: os santos que a Igreja produziu e a arte que se desenvolveu em seu seio. Melhor testemunho é dado ao Senhor pelo esplendor da santidade e da arte que surgiram na comunidade dos fiéis do que pelos raciocínios sagazes que a apologética inventou para justificar as manchas que, tristemente, são tão frequentes na história humana da Igreja”¹.

Este tipo de apostolado da beleza é muito forte especialmente nos Estados Unidos. O trabalho do Word on Fire Institute de Dom Robert Barron consiste basicamente em “encontrar Deus na cultura”, desde Les Misérables até Bob Dylan, e livros como Seeds of the Word (“Sementes do Verbo”) ou Popcorn with the Pope (“Pipoca com o Papa”) foram lançados exatamente para trazer comentários católicos a livros e filmes de sucesso. Há também católicos leigos que conduzem labores primorosos nessa área: Anthony Esolen com seu portal Word & Song e seus comentários semanais a músicas populares, hinos de igreja e filmes; e as séries Great Literature in a Nutshell (“Grandes livros numa casca de noz”) e Notes in a Nutshell (“Notas musicais numa casca de noz”), em que Joseph Pearce e Julian Kwasniewski comentam clássicos da literatura e da música erudita.

Inspirados nisso, decidimos iniciar também neste nosso Informativo Nossa Senhora do Brasil uma série dedicada ao “caminho da beleza” (Via Pulchritudinis), onde possamos apresentar grandes obras do patrimônio espiritual da humanidade à luz da fé.

Inaugurando esta série, comentamos hoje o romance Crime e Castigo, do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881). A trama gira em torno de Rodion Romanovitch Raskolnikov, um jovem do interior da Rússia czarista, que vem à capital para seguir estudos universitários em Direito. No início do romance, Raskolnikov se encontra em situação crítica: levando uma vida boêmia, largara a universidade e também as aulas particulares que ajudavam em seu sustento, e devia vários meses de aluguel pela espelunca em que morava. Sua mãe viúva e sua irmã, morando ainda na cidade natal, depositavam na formação de Raskolnikov as esperanças de um futuro melhor para a família, e por isso sacrificavam-se para fazer-lhe remessas periódicas do pouco dinheiro que conseguiam poupar – aquela, com os parcos recursos de sua pensão, e esta, mediante um emprego de governanta em que, embora bem remunerada, era assediada por um patrão mulherengo. Mas tampouco esta fonte de recursos fazia frente aos gastos do jovem Raskolnikov, e ele vinha empenhando algumas de suas relíquias de família junto a uma penhorista velha e rabugenta, que ganhava a vida emprestando dinheiro a pessoas vulneráveis com juros abusivos (de cinco a sete por cento ao mês!) e mediante a antecipação de garantias (recebidas por um quarto de seu valor), que eram sempre executadas sem misericórdia.

“Ó cristãos, felizes somos nós, porque nos é dado conhecer o que agrada a Deus” (cf. Br 4, 4)

A notícia de que sua irmã estava prestar a unir-se em matrimônio com um sujeito mau-caráter (movida, portanto, por motivos econômicos, sacrificando sua felicidade pelo bem do irmão) serve de estopim para que Raskolnikov decida pôr em marcha uma ideia que vinha matutando havia já umas semanas: a de assassinar a velha penhorista (cuja existência, afinal, não trazia nenhum benefício a pessoa alguma) e usar o dinheiro dela roubado para resolver a situação: Matá-la, pegar seu dinheiro e, por meio dele, devotar-se ao serviço da humanidade e ao bem de todos. Uma morte, e em troca dela cem vidas – é matemática pura!

Raskolnikov adota uma certa convicção filosófica sobre a natureza e a origem da moral – em suma, a de que a ordem moral estabelecida, o conjunto de leis morais tradicionalmente inculcados pela sociedade, não passa de um artifício estruturado para controlar a massa de pessoas fracas. A proibição ao homicídio, por exemplo, não passaria de um mecanismo de pacificação e sobrevivência da sociedade – e por isso este crime não seria, no fundo, verdadeiramente mau, e não haveria nenhum motivo real para sentir remorsos ou pesos de consciência por praticá-lo. Segundo Raskolnikov, a verdadeira “lei da natureza” consistiria em que alguns indivíduos nascem extraordinários – “para além do bem e do mal”, como diria Nietzsche –, e criam para si mesmos o seu certo e seu errado.

A questão, no entanto, é que, apesar de sua convicta recusa da ordem moral, Raskolnikov passa a experimentar, desde que começa a flertar com o crime e de forma especial após seu cometimento, abalos e langores psíquicos cada vez maiores – que o levam até à beira da loucura, e só são resolvidos quando ele entra num caminho de conversão, instigado pelo amor sincero e misericordioso que recebe de uma personagem inesperada – mas não queremos entregar aqui toda a trama.

Uma lição que podemos tirar do romance, como católicos, é a de que existe realmente uma ordem moral que se impõe ao homem independentemente da opinião que dela venhamos a ter, porque está inscrita na própria natureza humana. Os mandamentos da Igreja – sintetizados naquele Não Matarás que Raskolnikov quebra – não são restrições arbitrárias à nossa liberdade, fruto do capricho de um Papa ou de teólogos medievais dado a invencionices: antes, são descrições precisas das condições intrínsecas ao funcionamento saudável desta coisa chamada “ser humano”. Quando o fabricante do carro nos diz para não mudarmos o câmbio sem pisar simultaneamente na embreagem, ele não está buscando nos oprimir, mas sim descrevendo uma “lei” inscrita nas engrenagens do carro, cujo respeito nos permite levar ao máximo a capacidade locomotiva do veículo. Como explica o Catecismo, quem se desvia dos Mandamentos “atenta contra a sua própria liberdade [e] agrilhoa-se a si mesmo”², e atrai para si sofrimentos que “não devem ser considerados como uma espécie de vingança, infligida por Deus desde o exterior, mas como algo decorrente da própria natureza do pecado”³.

Numa palavra, o castigo do criminoso não é algo totalmente extrínseco a seu crime. Crime e Castigo são dois lados da mesma moeda: a maior punição que alguém sofre por matar uma pessoa é tornar-se um assassino.

Lembremo-nos disso, então, da próxima vez em que sentirmos aquela tentação de enxergar a moral cristã como um fardo pesado, que nos priva dos prazeres da vida e nos retira a liberdade, e exultemos com o profeta: “Ó cristãos, felizes somos nós, porque nos é dado conhecer o que agrada a Deus” (cf. Br 4, 4); felizes somos nós porque nos foi dada a lei que nos dá o brilho dos olhos e a paz, que conforta nossa alma e dá alegria ao coração (cf. Sl 18B, 8-9)!

Gil Pierre de Toledo Herck

Referências:
¹The Ratzinger Report – An Exclusive Interview on the State of the Church, Ignatius Press, San Francisco, 1985, p. 129-130.
²Catecismo da Igreja Católica, n. 1740.
³Idem, n. 1472.


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