“Nem todos são capazes de compreender essa palavra, mas só aquele a quem é concedido” (Mt 19,10)


A coluna Pátio dos Gentios, inspira-se no “Cortile dei Gentili”, organizado pelo Dicastério para a Cultura e a Educação do Cardeal Gianfranco Ravasi para criar um espaço de encontro e diálogo entre os crentes e os não crentes. Um lugar para reunir e discutir as principais questões e desafios que afetam a sociedade moderna. Um contínuo dueto – e não duelo – entre vozes das culturas seculares e católicas. Uma rede de pessoas que, num espírito de abertura e aceitação do outro, trabalham para superar a desconfiança entre dois mundos aparentemente inconciliáveis. Bem-vindos ao “Pátio dos Gentios”.


Do relato simbólico da criação do homem e da mulher, a Sagrada Escritura no livro do Gênesis registra a nossa origem no sexto dia da criação dos céus e da terra, com palavras que tocam o nosso coração: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus Ele o criou; homem e mulher Ele os criou. Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves dos céus e todos os animais que rastejam sobre a terra” (Gn 1, 27-28). E conclui: “Deus viu tudo o que tinha feito: e tudo era muito bom” (v. 31).

Interessante notar que a ordem de Deus traz uma clara marca de sujeição e de dominação – mas apenas com relação aos elementos não humanos da criação, e não para com o próprio ser humano.¹ “No homem, Deus entra na sua criação: cada ser humano é imagem de Deus, e leva em si o sopro de Deus. Esta é a razão mais profunda para a inviolabilidade da dignidade humana, sobre a qual se funda, em última análise, cada civilização”².

“Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2, 18), nos dirá o texto sagrado após a criação do céu e da terra. Ao modelar o homem e a mulher no sexto dia, Deus nos colocou num jardim para cultivar e guardar a obra da criação divina – e, ainda, para uma missão especialíssima a qual somos chamados a viver, material e espiritualmente: “deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á à sua mulher, e serão uma só carne” (Gn 2, 24). O próprio Jesus Cristo depois retomará: “De modo que já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, o homem não deve separar” (Mt 19, 6).

No relato bíblico, comenta o cardeal Gianfranco Ravasi³, desde a Criação, o homem é “substancialmente um ser em relação”: o processo integral da humanização de Adão, de fato, realiza-se “no olhar nos olhos de um ser que é diferente de si mesmo e, ao mesmo tempo, faz parte dele”. Na descoberta do “olhar nos olhos” de outro ser chamado à imagem de Deus, a humanidade espelha o seu Criador, dando origem à família humana por meio do amor conjugal, aberto a dar e receber à vida.

E essa característica relacional da existência humana está presente mesmo nos que vivem o celibato apostólico: a vida do cristão deve ser sempre uma vida fecunda e o seu coração deve estar sempre aberto para dar e receber⁴, pois a vida matrimonial e a vida consagrada têm uma só substância: dar a vida.

Diante desta belíssima realidade humana e divina – a união entre um homem e uma mulher – querida por Deus desde a eternidade, cabe a nós hoje realizar um profundo exame de consciência diante deste mistério da vida humana, e, a partir destas leituras da Sagrada Escritura, tirar consequências práticas para nossa vivência destas leis inscritas em nossa natureza por Deus, as quais devemos “observar com inteligência e amor”⁵.

“Bendito seja Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a sorte de bençãos espirituais, nos céus, em Cristo. Nele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante dele no amor” (Ef 1, 3-4)

Podemos partir para esse exame importante e necessário ecoando o salmista, admirado com a majestade de Deus e a dignidade do homem: “quando eu contemplo teus céus, a obra de teus dedos, a lua e as estrelas, que assentaste no lugar… O que é o homem frágil, para que dele te lembres? E o que é o filho do homem mortal, para que nele atentes? No entanto, Tu o fizeste somente um pouco menos que os anjos, e o coroaste com uma alma e um esplendor” (Sl 8, 4-6).

Perante a maravilha da criação, o Salmo 139 se expressa de maneira poética, “visualizando” as mãos de Deus a nos modelar e expressando assim uma verdade que a própria ciência, séculos depois, viria a reconhecer: “Quando eu era modelado, em segredo, tecido na terra mais profunda, teus olhos viam o meu embrião. No teu livro estão todos inscritos os dias que foram fixados e cada um deles nele figura” (vv. 15-16), pois “Tu me teceste no seio materno” (v. 13). Pelo profeta Jeremias, Deus nos garante: “Antes mesmo de te modelar no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio, Eu te consagrei. Eu te constituí profeta para as nações” (Jr 1, 4-5).

Aprofundando esta ideia, São Paulo designa primeiro o amor de Deus por nós e, depois, o chamado à santidade: “Bendito seja Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda a sorte de bençãos espirituais, nos céus, em Cristo. Nele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante dele no amor” (Ef 1, 3-4). Antes da fundação do mundo, antes da criação do Céu e da terra, Deus já nos tinha escolhido desde toda a eternidade.

A verdade revelada pelos textos sagrados pode também ser intuída por algumas experiências da ordem natural. O escritor judeu Joseph Roth (1894-1939), sobrevivente dos horrores da Primeira Guerra, nos fornece um comovente testemunho da sensação que teve ao experimentar a paternidade, “a vida em seus braços”⁶:

“No instante em que pude tomar meu filho nos braços, senti um vago reflexo daquela felicidade sublime e inefável que deve ter preenchido o Criador no sexto dia, quando ele viu sua obra imperfeita, porém concluída. Enquanto eu segurava essa pequena coisa, roxa e feia, em meus braços, senti claramente que estava acontecendo uma mudança em mim; e por menor que fosse a coisa em meus braços, feia e avermelhada, ela emanava uma força invencível que me recriava”.

Neste contexto, me agrada imaginar que o Santo Padre, São Paulo VI, durante o período que antecedeu a publicação da Carta Encíclica Humanae Vitae, em 1968, sob fortes pressões da sociedade e também de dentro da Igreja, tenha meditado e rezado sobre esses textos sagrados, ante de reafirmar uma vez mais o ensinamento perene sobre a ilicitude de todos os métodos anticoncepcionais artificiais:
“A Igreja ensina que qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida… Esta doutrina, muitas vezes exposta pelo Magistério, está fundada sobre a conexão inseparável que Deus quis e que o homem não pode alterar por sua iniciativa, entre os dois significados do ato conjugal: o significado unitivo e o significado procriador”⁷.

O Papa se referia àquele momento na vida comum dos cônjuges em que ambos, unindo-se no ato conjugal, se tornam, segundo a expressão bíblica, “uma só carne” (Gn 2, 24). O Papa Paulo VI assim se exprime: “pela estrutura íntima, o ato conjugal, ao mesmo tempo que une profundamente os esposos, torna-os aptos para a geração de novas vidas, segundo leis inscritas no próprio ser do homem e da mulher”⁸.

“A doutrina de sempre, apresentada no marco de novas ideias estimulantes e positivas sobre o matrimônio e sobre o amor conjugal, garante melhor o verdadeiro bem do homem e da família”

Quatro dias após a publicação da Carta Encíclica Humanae Vitae, o bispo montanhês Albino Luciani – que uma década depois viria a ser “o Papa do Sorriso”, sucessor de São Paulo VI, com um curto pontificado de 33 dias –, e que havia previamente manifestado dúvidas sobre a questão, escrevia ao rebanho a si confiado em Vittorio Veneto, demonstrando plena compreensão e adesão ao Magistério recém proclamado:

“As recentes descobertas cientificas, a evolução social da nossa época, a acrescida exigência de uma ‘Paternidade Responsável’, a necessidade de harmonizar essa ‘Paternidade Responsável’ com as exigências do amor conjugal…, todas essas coisas devem estar bem presentes, mas não pedem nem exigem uma doutrina nova a seu respeito. A doutrina de sempre, apresentada no marco de novas ideias estimulantes e positivas sobre o matrimônio e sobre o amor conjugal, garante melhor o verdadeiro bem do homem e da família”⁹.

O Papa, consciente da impopularidade da doutrina da Igreja neste ponto, sabia, sem dúvidas, que causaria amargura a muitos com a sua decisão. Sabia também, que uma decisão diferente com relação aos métodos anticoncepcionais provavelmente lhe teria granjeado aplausos humanos; mas, como comenta Albino Luciani, São Paulo VI “põe toda a sua confiança em Deus e, para ser fiel à Sua palavra, volta a propor os constantes ensinamentos do magistério, em toda a sua pureza, numa matéria tão delicada¹⁰”.

No entanto, outros problemas morais não tardariam a ser suscitados (e continuarão ainda a sê-lo) pelo crescente progresso científico, particularmente em conexão com as questões de bioética – aos quais, obviamente, a Igreja não deixa de responder. Afinal, a Igreja Católica tem o dever de declarar-se sobre os pontos em que os avanços técnico-científicos propõem práticas incompatíveis com a verdade revelada e contrárias à sã doutrina, sobretudo quando elementos do “ensinamento moral da Igreja Católica podem parecer particularmente expostos ao erro, à ambiguidade ou ao esquecimento”, como tão bem expressou o Papa São João Paulo II, na Carta Encíclica Veritatis Splendor.

Não há dúvidas: cada época implica situações graves para o agir moral e exige respostas para as questões fundamentais de nossa vida pessoal e social e, em particular, para a nossa vida conjugal, aberta a dar e a receber a vida. No entanto, os novos contextos “não pedem nem exigem uma doutrina nova a seu respeito”. Reclamam, outrossim, de nós, católicos, criatividade para buscar soluções e a compreensão do casal, para responder com generosidade, responsabilidade, inteligência e amor, ao projeto de Deus para a fecundidade humana.

O Papa Paulo VI, na Humanae Vitae, faz um apelo aos homens da ciência, aos médicos e ao pessoal sanitário, aos sacerdotes e Bispos, enviando a cada um uma mensagem específica – e de modo particular, aos esposos cristãos:
“Não pretendemos, evidentemente, esconder as dificuldades, por vezes graves, inerentes à vida dos cônjuges cristãos: para eles, como para todos, de resto, ‘é estreita a porta e apertado o caminho que conduz à vida’. […] Implorem com oração perseverante o auxílio divino; abeirem-se, sobretudo pela Santíssima Eucaristia, da fonte de graça e da caridade. E se, porventura, o pecado vier a vencê-los, não desanimem, mas recorram com perseverança humilde à misericórdia divina, que é outorgada no sacramento da Penitência” ¹¹.

São com essas palavras de São Paulo VI que também eu desejo a todos que lerem essas linhas possam recorrer, em especial, diante das necessidades graves que os casais incorrem, à oração, à Santíssima Eucaristia e ao Sacramento da Penitência, escola de nossa fé.

Que a Santíssima Virgem Maria, Nossa Mãe e Mãe de Deus, interceda por nós junto ao nosso Senhor Jesus Cristo para que possamos compreender as palavras de Deus, o amor conjugal que une um homem e uma mulher “numa só carne”, abertos a dar e a receber a vida, e vida em abundância, fecunda.

Alecsandro Araújo de Souza

Referências:
¹Rabino Menahem Mendel Diesenbruck, Sermões.
²Joseph Ratzinger, No Princípio Deus Criou o Céu e a Terra.
³Lectio Magistralis “A bênção da fertilidade humana no mistério da criação”, realizada na Universidade Católica de Roma, em 23 de novembro de 2018.
⁴Papa Francisco, Homilia de 19/12/2017, disponível em: <https://www.vaticannews.va/pt/papa-francisco/missa-santa-marta/2017-12/papa–o-coracao-deve-ser-fecundo–nao-e-peca-de-museu.html>.
⁵S. Paulo VI, Carta Encíclica Humanae Vitae, n. 31.
⁶A cripta dos capuchinhos, 1938.
⁷São Paulo VI, Carta Encíclica Humanae Vitae, nn. 11-12.
⁸Idem, ibidem.
⁹Andrea Tornielli e Alessandro Zangrando, João Paulo I, o Papa Sorriso.
¹⁰Idem, ibidem.
¹¹São Paulo VI, Carta Encíclica Humanae Vitae, n. 12


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Homem e mulher os criou

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