“Se hoje a Igreja diz coisas que não agradam, é porque se sente obrigada a fazê-lo. Ela o faz por dever de lealdade”
(São João Paulo II)
No dia 22 de junho é celebrada a memória de dois mártires ingleses, Thomas More e João Fischer, mortos em virtude da defesa da fé e canonizados conjuntamente em 1935. Apesar de terem sucumbido ao arbítrio de Henrique VIII há 490 anos, a vida de ambos os santos traz ensinamentos deveras atuais, sobretudo num contexto de debate acerca da liberdade de expressão e de relativismo moral.
Tendo em vista que o nosso Informativo é direcionado para fiéis leigos, membros do povo de Deus, deixa-se para uma outra oportunidade a reflexão sobre São João Fischer, o único bispo inglês a recusar o divórcio do rei e seu reconhecimento como cabeça da igreja da Inglaterra. Destaca-se que Fischer e More não foram os únicos súditos que se negaram a proferir tal juramento; todavia, diante do prestígio que detinham perante a corte e com o próprio monarca, tornaram-se célebres exemplos de que mais vale perder a vida terrena a correr o risco de não contemplar a visão beatífica de Deus.
Nesse sentido, é preciso destacar que o martírio de São Thomas More não foi decorrência de um radicalismo escrupuloso ao decidir seguir a própria consciência em detrimento da posição de quase todos os notáveis do Reino, outrora seus amigos. Com efeito, o santo padroeiro dos políticos e governantes relata que analisou e estudou sua consciência de maneira diligente por longos anos, além de que, ao contrário do que diziam, não estava sozinho, pois assente em toda a cristandade.
More aceitou serenamente a adversidade e a pobreza e “humildemente inquebrantável, prudentemente irredutível, resistiu, com sacrifício da fortuna, dos cargos e da vida, aos desacertos do rei que servira sempre com lealdade”. Não havia nada que, aos olhos do mundo, pudesse faltar ao então Lorde Chanceler, na medida em que era nobre, abastado, possuía boa fama e era verdadeira feliz com sua família.
Ao analisar o conjunto de suas cartas enviadas da prisão¹, verifica-se que se houvesse a possibilidade de realizar a vontade do rei sem contrariar a sua consciência o teria feito, uma vez que aceitou o martírio, sem, contudo, buscá-lo. Sob a perspectiva humana, é possível intuir os grandes dilemas pelos quais passou, uma vez que foi privado do convívio familiar e desagradou seu soberano, a quem tanto desejava o bem.
Todavia, detinha plena convicção de que tudo o que Deus permite acontecer é o melhor, tanto que escreveu a sua filha Margaret Roper que “nada pode sobrevir, a não ser o que Deus quer. E eu estou bastante convencido de que, aconteça o que acontecer, ainda que aparentemente nunca tenha sido tão ruim, há de ser, com efeito, o melhor”.
“Todo homem instruído sabe que há muitas coisas sobre as quais cada um é livre para pensar como desejar sem perigo de condenação”
Ademais, afirma que jamais rogou a Deus que o tirasse da prisão ou livrasse da morte, pois é Ele quem sabe o que é melhor para todos. Hoje podemos observar, em retrospectiva, que as preces de More para que perseverasse na fé surtiram efeito, já que, ao ser injustamente levado à morte, foi recompensado com a chegada antecipada ao Céu.
Ao contrário do que muitos poderiam pensar, a firme decisão de More não carregava consigo contornos políticos de afrontar a autoridade de Henrique VIII e de convencer os outros a se afastarem do julgamento. Além de não tentar persuadir a quem quer que fosse, também não julgava que estivessem errados, porquanto poderiam pensar que Deus os perdoaria ao agirem por medo. Na verdade, dizia que “nunca aconselhei ninguém a recusá-lo (…) mas deixei que cada um seguisse a sua própria consciência e creio de boa-fé que seria bastante razoável que cada um me deixasse seguir a minha”.
De acordo com carta enviada por Thomas More a Nicholas Wilson: “todo homem instruído sabe que há muitas coisas sobre as quais cada um é livre para pensar como desejar sem perigo de condenação”. Entretanto, existem determinadas matérias que obrigam a todos os católicos, dentre elas a indissolubilidade do matrimônio, sacramento infelizmente tão banalizado que, segundo as estatísticas, o divórcio tornou-se a regra no Brasil.
Ainda que os números sejam desfavoráveis, os rumos da sociedade atual demonstram que é urgente batalhar com afinco pelo matrimônio uno e indissolúvel, valor tão caro que Thomas More preferiu morrer a negar tamanha verdade de fé. Tais ensinamentos são facilmente identificados nas Sagradas Escrituras, cujo estudo e meditação revelam que o matrimônio necessariamente há de ser indissolúvel, na medida que constitui a base da família, que, por sua vez, é a base de uma sociedade saudável.
Convém esclarecer que o repúdio ao divórcio não é um fardo imposto pela Igreja, na medida que é a manifestação da caridade de Deus ao indicar concretamente o caminho da felicidade. Veja-se, por exemplo, o profícuo casamento de Ruth e Ives Gandra Martins, que assim disse em recente entrevista: “A minha maior alegria era vê-la feliz, então o que eu posso fazer é fazê-la feliz, se for só um dos dois pensando assim já é uma garantia de casamento estável. Agora, se os dois pensarem assim é um romance a vida inteira. Eu amei a minha esposa a vida inteira e ela me amou a vida inteira”.
O Catecismo da Igreja Católica ensina que: “O Matrimônio cristão se torna, por sua vez, sinal eficaz, sacramento da aliança de Cristo e da Igreja” (n. 1.617). Dessa maneira, não à toa o divórcio de Henrique VIII com Catarina de Aragão significou a ruptura com a Igreja Católica e o primado papal, pois ao se corromper a base que edifica o corpo social, nenhuma estrutura permanece ilesa, conforme sustenta Fulton Sheen ao citar Chesterton: “O mundo admitiu tal exceção e a exceção virou regra. Deveriam saber, por certo, que o inimigo já nas fronteiras não oferece termos de compromisso, mas ameaça a destruição completa”².
Roguemos a Deus para que sejamos fiéis mensageiros da Verdade, atuando para que as falsas doutrinas não privem as pessoas de reconheceram o verdadeiro amor e que não sucumbam na fé perante as adversidades que o mundo apresenta.
São Thomas More, rogai por nós.
Referências:
¹Cartas da prisão, Minha Biblioteca Católica, 2022.
2Fulton Sheen, Três para casar, ed. Molokai.
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