Abertura à graça e ao amor de Deus

São João Evangelista nos ensina que “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra tudo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16). Nosso Senhor Jesus Cristo assumiu a condição humana para nos salvar, entregando-se até a morte, para viabilizar a grandiosidade desta obra divina.

Segundo a concepção do Evangelista, o pecado é mais que a mera quebra de regras: ele é uma espécie de veneno letal que nos separa do amor divino e nos causa a morte espiritual. Dessa morte, apenas o Cristo pôde nos resgatar, entregando-se à morte por cada um de nós, em seu amor misericordioso.

São Paulo evidencia o plano divino de salvação da humanidade: “Deus é rico em misericórdia. Por causa do grande amor com que nos amou, quando estávamos mortos por causa das nossas faltas, ele nos deu a vida com Cristo. É por graça que vós sois salvos!” (Ef 2, 4-5).

A graça divina nos faz ressuscitar, na medida em que por meio dela nos é comunicado o amor gratuito de Deus, dom e favor imerecido por cada ser humano. Neste sentido, a adesão a este plano salvífico, por meio da fé, supõe uma confiança absoluta na entrega total a Cristo e aos seus planos, o que nos transforma e nos capacita a fazer boas obras.

Neste sentido, quem deposita a fé em Jesus Cristo e nele se apoia totalmente experimenta a vivência da graça divina em sua vida, sendo levado a viver e a cultivar a virtude da generosidade com Deus, a partir deste encontro pessoal com Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ora, a generosidade pode ser conceituada como a virtude segundo a qual uma pessoa se dispõe a sacrificar os seus próprios interesses em benefício dos outros. S. João também fornece um bom parâmetro de compreensão desta virtude, quando afirma que “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida por seus amigos” (Jo 15, 13).

Neste sentido, o evangelho de S. Lucas narra a experiência do publicano Zaqueu, chefe dos responsáveis pela cobrança de impostos em nome do Império Romano. Trata-se de homem rico, cujo vultoso patrimônio tinha origem nas propinas recebidas no seu ofício e o tornava uma pessoa ainda mais desprezada em seu tempo.

De todo modo, Zaqueu estava curioso para acompanhar a chegada de Jesus em Jericó e, ainda que metido em uma aglomeração de pessoas, o publicano de baixa estatura é obrigado a subir a uma árvore, na tentativa de ver quem era aquela pessoa que arrebatava multidões. Nosso Senhor se aproxima e fita o publicano.

O Papa Francisco ressalta a profundidade deste momento, que, apesar de sua brevidade, revela a essência do encontro pessoal com Deus: “E isto é importante: o primeiro olhar não é de Zaqueu, mas de Jesus que, entre os numerosos rostos que o rodeavam – a multidão – procura precisamente o dele. O olhar misericordioso do Senhor alcança-nos antes que nós mesmos percebamos que precisamos de ser salvos. E com esse olhar do Mestre divino começa o milagre da conversão do pecador”.

“O primeiro olhar não é de Zaqueu, mas de Jesus(…) O olhar misericordioso do Senhor alcança-nos antes que nós mesmos percebamos que precisamos de ser salvos.”

O milagre da conversão do pecador tem continuidade, quando Jesus chama o publicano pelo nome: “Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em sua casa” (Lc 19, 5). Deus condena o pecado, mas jamais mede esforços para salvar o Informativo Nossa Senhora do Brasil Abril / Maio – 2024 9 pecador e mostrar o verdadeiro caminho da salvação.

O Papa continua a comentar esta comovente passagem do Evangelho: “Quem nunca se sentiu procurado pela misericórdia de Deus tem dificuldade de compreender a extraordinária grandeza dos gestos e das palavras com que Jesus se aproxima de Zaqueu”. O olhar misericordioso de Nosso Senhor Jesus Cristo leva a uma profunda mudança de vida por parte do publicano, eis que ele percebe que a sua vida é mesquinha e tem como única preocupação o acúmulo de dinheiro, à custa de defraudar os outros.

O cobrador de impostos passa a ver a realidade com outro olhar e passa a ser uma pessoa generosa, na medida em que decide dar metade do que possui aos pobres e devolver o quádruplo de tudo o que roubou. Zaqueu se abre ao amor divino e corresponde à graça divina com um gesto magnânimo de entrega ao próximo. “Zaqueu descobre de Jesus que é possível amar gratuitamente: era mesquinho, agora torna-se generoso; gostava de acumular, agora alegra-se em distribuir. Ao encontrar o Amor, descobrindo que é amado apesar dos seus pecados, torna-se capaz de amar os outros, fazendo do dinheiro um sinal de solidariedade e de comunhão”.

A conversão de Zaqueu se dá quando ele supera o vício oposto à generosidade: a avareza, consistente em apego ao dinheiro e aos bens. Não se trata de vício que atinge apenas pessoas com muitos bens, como bem observado pelo Papa Francisco, “mas é um vício transversal, que muitas vezes não tem nada a ver com o saldo da conta corrente. É uma doença do coração, não da carteira”.

O avaro tem apego aos bens por si sós e busca segurança unicamente neles. Antes da conversão, Zaqueu não era livre, mas escravo do dinheiro, que o possuía. “Esquecem-se da pregação evangélica, que não afirma que as riquezas em si são um pecado, mas certamente constituem uma responsabilidade. Deus não é pobre: é o Senhor de tudo, mas – escreve São Paulo – ‘de rico que era, fez-se pobre por vós, para que vos tornásseis ricos pela sua pobreza’ (2Cor 8, 9)”. Assim, Zaqueu se deixou tocar pela graça e pelo amor de Deus, daí porque venceu a tendência egoísta de viver ensimesmado, apenas preocupado com sua fortuna, e superou a mesquinhez, a avareza e o calculismo. Que o seu exemplo possa nos iluminar a sermos mais generosos e a retribuirmos a graça que Deus deseja derramar no coração de cada um de nós.

Por Fernando Augusto Frank de Almeida Alves

Referências:
Papa Francisco. Angelus de 3 de novembro de 2019. Disponível em:
<https://www.vatican.va/content/francesco/pt/angelus/2019/documents/papa-francesco_angelus_20191103.html>.
Papa Francisco. Audiência Geral de 24 de janeiro de 2024. Disponível em:
<https://www.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2024/documents/20240124-udienza-generale.html>.
Padre Francisco Faus. “Generosidade”. Publicado em 4 de setembro de 2014 Disponível em:
<https://padrefaus.org/2014/09/04/generosidade/>.


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