As Obras de Misericórdia da Paróquia Nossa Senhora do Brasil

Alguns anos atrás, ao convocar o Ano da Misericórdia, o Papa Francisco expressava seu vivo desejo de que nós cristãos refletíssemos e vivêssemos melhor as obras de misericórdia corporal e espiritual – pois, dizia ele, a misericórdia é a viga mestra que sustenta a vida da Igreja 1.

A força dessas palavras, contudo, não deve nos levar a conceber a Igreja como uma instituição meramente humanitária, a socorrer os aflitos por pura filantropia – pois, como sempre repete o Santo Padre, “não somos uma ONG”. Antes, esta ênfase cristã nas obras de caridade decorre, na verdade, de um princípio básico da vida espiritual: “Deus é amor-caridade”, amor-de-autodoação (cf. 1 Jo 4,8).

Isso porque, dentre todos aqueles atributos de Deus que aprendemos na catequese (Onipotência, Onisciência, Onipresença…), o mais excelente e mais característico do ser divino é a misericórdia, ou a terna compaixão (no hebraico bíblico, Khésed). Se Deus se identifica com o amor que se doa a si mesmo, então possuir a Deus é o mesmo que ter compaixão, tornar-se misericordioso. Como explica Dom Robert Barron, “a vida de Deus está sempre em movimento: quando alguém a recebe como dom gratuito, deve então passá-la adiante, uma vez que ela só existe em forma de dom; e, quanto mais ela é passada adiante, mais ela inunda o coração”2. Eis aí o motivo fundamental pelo qual nós cristãos praticamos as obras de misericórdia para com quem nos rodeia: para participarmos mais do amor divino.

Por esse motivo é que nossa Paróquia, desde sua fundação, sempre dedicou meios materiais e humanos a socorrer os menores de nossos irmãos, enxergando neles o próprio Cristo (cf. Mt 25, 40). Uma grande mudança ocorreu, no entanto, em 2020, com a eclosão da Pandemia de COVID-19. Cresceram muito as necessidades dos mais vulneráveis, nas mais diversas áreas – ao mesmo tempo em que a própria Paróquia se viu afetada em suas atividades pelo fechamento dos templos. Era urgente estruturar-se com mais eficiência…

Assim foi que nasceu o Cor Unum, para organizar as diversas frentes de misericórdia da Paróquia sob a estrutura única da Casa Nossa Senhora do Brasil. Com esta visão de conjunto, nos tornamos capazes de direcionar melhor os recursos e os voluntários, e assim otimizar nossa atuação.

O nome “Cor Unum” – que vem da Escritura, e descreve o modo como viviam os primeiros cristãos, com “um só coração e uma só alma [cor unum et anima una]” (At 4, 32) – nos recorda que somos movidos por um fim sobrenatural: o de sermos imitadores de Cristo e fiéis aos mandamentos de Sua Igreja.

E como as obras de misericórdia são um chamado de Deus a todos os cristãos, o Cor Unum não deve ser entendido como uma pas- Informativo Nossa Senhora do Brasil Abril / Maio – 2024 15 toral a mais, ao lado das outras, mas como uma parte integrante de todos os grupos da Paróquia: por isso é que os jovens do Grupo Divinos Corações fazem mutirões de montagem de sanduíches e marmitas, ou que a pastoral do Batismo recolhe alimentos não perecíveis dos que se inscrevem para receber o sacramento, ou ainda que as senhoras do Grupo Espírito Santo fazem cachecóis e mantas para destinar à população de rua.

O Cor Unum se estrutura em vários núcleos de atuação: o KitchenCor e o SanduCor, que produzem marmitas e sanduíches para a população de rua; o SaúdeCor, que fornece atendimentos médicos gratuitos; o KitsCor, que preparam kits de higiene pessoal e limpeza, além de coberturas e peças de roupa; o JurisCor e o ConstruCor que prestam assistência para regularização jurídica de instituições beneficentes e para construções e reparos de engenharia.

Instituições atendidas:

  • AGES – Associação Civil Gaudium et Spes
  • Aliança de Misericórdia
  • Ambulatório Santa Marcelina (Tucca)
  • Amparo Maternal
  • Basílica de Nossa Senhora do Carmo
  • Colégio Stella Maris
  • Comunidade São José Monte Tabor / Bom Parto
  • Fraternidade O Caminho – Franciscanos
  • Irmãs Dominicanas
  • Missão Belém
  • SEFRAS – Serviço Franciscano de Solidariedade
  • Projeto Mães da Sé
  • Paróquia Bom Jesus do Brás
  • Paróquia Bom Jesus dos Passos
  • Paróquia Nossa Senhora Aparecida
  • Paróquia Nossa Senhora de Casaluce
  • Paróquia Nossa Senhora da Consolação
  • Paróquia Nossa Senhora da Paz (Glicério)
  • Paróquia Santo Afonso
Nossos números – ao longo de 2023
Marmitas 38 mil
Sanduíches 33 mil
Cestas básicas 7 mil
Leite 10 mil litros
Kits de higiene pessoal 4,2 mil
Peças de roupas 10 mil
Cobertores 3 mil
Produtos de limpeza 1 mil
Atendimentos na área médica/saúde 312

O contraturno da São Vito

As diversas frentes de trabalho do Cor Unum visam atender necessidades específicas de grupos pontuais: moradores de rua, ex-usuários de droga em recuperação, gestantes vulneráveis, etc. Mas e quanto às crianças que, ainda em fase de desenvolvimento, precisam de referenciais seguros para bem desabrochar seu potencial humano e cristão?

Pensando nelas, a Paróquia estruturou o Instituto Virtus, encarregado do chamado “Contraturno” na Paróquia São Vito Mártir. Trata-se de uma atividade educacional que ocorre de segunda a sexta-feira, no horário contrário ao em que a criança frequenta a escola regular, e que tem a missão de dar apoio aos pais na missão de educar os filhos.

O projeto não se limita ao mero reforço acadêmico, mas busca formar pessoas íntegras, capazes de ser sal da terra e luz do mundo, em meio ao materialismo e à crise de sentido que cada vez mais contaminam a sociedade atual. Para isso, o trabalho do Instituto Virtus é estruturado em três eixos: (1) vida espiritual; (2) formação humana e (3) capacitação técnica para a vida.

O eixo da vida espiritual almeja ajudar as crianças saberem-se filhas amadas de Deus, e chamadas a levar uma vida de verdadeira felicidade e de aspiração à vida eterna. Para isso, são promovidos habitualmente, ao longo do dia, diversos momentos de oração e presença de Deus, além de catequeses sobre espiritualidade e doutrina cristã.

O eixo da formação humana, baseado numa visão do ser humano como imagem e semelhança de Deus, capaz de desenvolver as virtudes para a excelência pessoal, visa inculcar nas crianças os bons hábitos do dia a dia: desde o modo como portar-se no refeitório ou na entrada e saída do Instituto, até as interações com os colegas e resolução de conflitos.

O eixo de capacitação para a vida, enfim, tem por objetivo desenvolver habilidades técnicas que habilitem as crianças a contribuir melhor para a vida social e suas próprias carreiras. Num primeiro momento, o carro-chefe deste eixo tem sido a ênfase nas competências linguísticas, suprindo inclusive lacunas de alfabetização e letramento com que as crianças chegam do ensino regular.

Após um primeiro ano de operações, restrito a receber crianças no período matutino (das 7h15 às 12h15, servindo café da manhã e almoço), em 2024 o Contraturno abriu também uma turma à tarde (das 12h30 às 17h, servindo almoço e lanche da tarde), com um total de 66 crianças entre 6 e 10 anos de idade.

Os pais das crianças, que se encarregam de levar e trazer os filhos do Instituto, precisam estar de acordo com a transmissão de educação e valores católicos, além de participar dos encontros mensais de formação e das tutorias individuais a que são convidados.

A resposta das famílias a este primeiro ano de experiência do contraturno foi muito positiva. O índice de rematrícula para 2024 foi de 100% – e alguns pais estão na fila de espera para a abertura de mais vagas. As crianças, por sua vez, manifestam de várias formas sua alegria com o ambiente do Instituto. Houve até um dia em que, faltando energia elétrica no colégio da rede pública e tendo sido as crianças dispensadas para voltar para casa, algumas se dirigiram ao Instituto mais cedo, pedindo para participar dos dois turnos de atividades… Os pais foram devidamente avisados – mas a anedota mostra que, podendo livremente ir para casa e ficar ociosas, as crianças preferiram se dirigir ao ambiente do Instituto.

“Você o fez para mim”

É bem conhecida a história da conversa que S. Teresa de Calcutá teve uma vez com um jovem dominicano, que buscava entender de onde ela tirava a força e a inspiração para entregar-se de forma tão intensa ao serviço aos pobres. No final do longo colóquio, Madre Teresa pediu que o padre estendesse a mão sobre a mesa, e foi tocando cada um de seus dedos, enquanto repetia as palavras de Jesus: “Você o fez para mim” (You did it to me; cf. Mt 25).

É nesse mesmo espírito que as obras de misericórdia de nossa Paróquia chegam hoje a atender a cada mês centenas ou mesmo milhares de pessoas. Mas o sustento deste volume de operações só é possível graças ao apoio dos voluntários e benfeitores que generosamente destinam parte de seu tempo e recursos para o sustento dessas atividades.

Queremos então tomar esta ocasião para agradecer profundamente a todos os que têm possibilitado estas obras de misericórdia – e ao mesmo tempo incentivar nossos paroquianos todos a conhecer mais o Cor Unum e o Contraturno, e a quem sabe tornar-se voluntários ou benfeitores, sabendo que é para Cristo que o terão feito.

Por Gil Pierre de Toledo Herck

1. Papa Francisco, Bula Misericordiae Vultus, nn. 10 e 15. Disponível em:
<https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_letters/documents/papa-francesco_bolla_20150411_misericordiae-vultus.html>.
2. Robert Barron, Catolicismo, p. 44.


Você quer saber mais sobre algum ensinamento da Igreja?
Envie suas dúvidas para informativo@nossasenhoradobrasil.com

Comece a digitar e pressione Enter para pesquisar